Módulo 1

Autoconhecimento e reconhecimento: a base da transformação

Empatia

Apresentação

A medicina brasileira foi moldada em contextos coloniais e escravagistas que buscaram apagar corpos negros, e infelizmente esse processo de invisibilização permanece ainda hoje. Por exemplo, para encobrir o viés racial na área da saúde, o conceito de neutralidade é bastante utilizado. De forma institucional, essa suposta neutralidade está na falta de nomeação de raça/cor, na recusa em adotar abordagens afirmativas e na ausência de políticas específicas de equidade.

A neutralidade é, muitas vezes, uma escolha política: a escolha de manter o status quo, situação que contribui para a perpetuação de desigualdades.

A crença na neutralidade ou na igualdade sem um olhar crítico impede também o reconhecimento individual de vieses inconscientes, isto é, preconceitos que norteiam nosso comportamento sem que notemos. Esses vieses incluem crenças de que pessoas negras possuem mais força, pele mais grossa, são mais resistentes à dor, entre outras.

Você já ouviu falar que pessoas negras ficam menos doentes? Ou que não passam por sofrimento psíquico? Esses mitos são verdadeiros preconceitos que geram impactos nos cuidados de saúde e podem resultar em negligência e maior adoecimento da população negra. Para combater essa falsa neutralidade, é preciso reconhecer o problema tanto na esfera estrutural quanto individual, entendendo a parte que cabe a cada um de nós no processo de ruptura do sistema preconceituoso e desigual do qual fazemos parte.

A literatura científica e as diretrizes nacionais apontam a necessidade de intervenções racialmente sensíveis para enfrentar disparidades históricas no acesso e no cuidado. Uma das intervenções necessárias é incorporar temas relacionados ao racismo nos processos de formação e educação permanente de trabalhadoras e trabalhadores da saúde, e por isso estamos aqui!

Convidamos você ao reconhecimento dos seus próprios vieses, ao entendimento das raízes históricas e estruturais do racismo na saúde e à escuta atenta, porém, ativa. Nem sempre será simples, pelo contrário, muitas vezes, será preciso tensionar o sistema e ratificar nosso compromisso em combater o preconceito, buscando respeitar e inserir todos os indivíduos, independentemente de seus marcadores sociais. Afinal, você não precisa ser uma pessoa negra para apoiar a causa, basta ter consciência e insatisfação. Como disse Gramsci em Odeio os indiferentes: escritos de 1917:

Viver significa tomar partido.

(Gramsci, 2020)

Enfim, eis o início de uma jornada de letramento racial que exige coragem, atitude e responsabilidade. Mãos à obra!

Por que falar sobre raça na saúde?

Neste vídeo, você vai refletir sobre como o racismo molda o acesso à saúde no Brasil. A partir de dados e de pensadores conceituados, revelamos por que a medicina precisa ser também crítica, inclusiva e comprometida com a equidade racial. Acompanhe!

Quiz

Vamos testar seus conhecimentos até aqui! Responda as perguntas a seguir e no final confira o resultado!

1. O que representa a neutralidade médica na prática?

2. Qual é o problema com a ideia de neutralidade médica?

3. Por que a coleta de dados de raça/cor é importante na saúde pública?

4. Qual destas opções expressa de forma correta uma consequência do mito da democracia racial na saúde?

5. Em relação à dor, o que estudos mostram sobre seu manejo em pacientes negras e negros?

Você completou o quiz!

Desafio 1

Desaprendendo a neutralidade

Um médico branco é responsável há 15 anos pelo departamento de obstetrícia de um hospital. Recentemente, houve uma denúncia de que pacientes negras estavam sofrendo violência obstétrica, incluindo aplicação de menos anestesia quando comparadas a pacientes brancas. Em resposta à denúncia, o médico justificou: “Trato todas de forma igual, não vejo cor”. 

Considerando a situação retratada, responda: o que esse discurso evidencia? O que deve ser feito para modificar esse pensamento? Como abordar esse discurso sem gerar defensividade?

É importante reconhecer que o discurso “trato todos iguais” pode parecer ético à primeira vista, mas, na prática, desconsidera as desigualdades estruturais que afetam de forma histórica a população negra. Refletir sobre como o mito da neutralidade pode invisibilizar o racismo institucional e comprometer a qualidade do cuidado é um passo determinante. A ideia de que “tratar todos iguais” garante justiça é questionada a partir da constatação de que desigualdades raciais exigem respostas intencionais e informadas.

Nesse caso, é necessária a empatia ativa, demandando escuta, disposição para reconhecer privilégios e abertura para rever práticas que, mesmo sem intenção, podem ser excludentes. Também vale discutir estratégias de comunicação não confrontativas, baseadas em escuta, acolhimento e construção conjunta de caminhos para um cuidado mais equitativo.

Vieses inconscientes: o que são e como se manifestam?

Entenda neste vídeo o que são os vieses inconscientes e como eles impactam a saúde. Você vai compreender como julgamentos automáticos moldam comportamentos, decisões clínicas e perpetuam desigualdades no cuidado a pacientes negras e negros.

Quiz

Vamos testar seus conhecimentos até aqui. Responda às perguntas a seguir e, ao finalizar, confira o resultado!

1. Assinale a alternativa que apresenta corretamente o conceito de viés inconsciente.

2. Qual mito sobre corpos negros ainda influencia condutas clínicas?

3. O que acontece com frequência durante o parto de mulheres negras?

4. Assinale a alternativa que apresenta um exemplo de como o viés inconsciente pode se manifestar na prática clínica.

5. Como a reflexão sobre vieses inconscientes pode ser iniciada?

Você completou o quiz!

Desafio 2

Viés inconsciente e estigmatização

Um paciente negro chega a uma unidade de pronto-socorro em razão de febre de 39°. No prontuário, o médico que o atendeu o descreveu como "agitado" e "pouco colaborativo", sem explicação clínica para tais termos. Considerando esse relato, qual o impacto de utilizar essa descrição para se referir ao paciente?

A escolha das palavras usadas nos prontuários pode reforçar preconceitos e estigmas quando termos subjetivos, como “agitado” ou “pouco colaborativo”, são empregados sem fundamentação clínica clara, sobretudo quando direcionados a pacientes negros. Essa atitude contribui para a perpetuação de narrativas que associam comportamentos negativos a características raciais, influenciando as decisões clínicas posteriores e o atendimento que será recebido.

De forma alternativa, o profissional deve utilizar descrições objetivas, baseadas em observações concretas e mensuráveis, que valorizem o contexto individual do paciente e respeitem sua dignidade. Esse cuidado com a linguagem é fundamental para promover um ambiente clínico antirracista, pautado na justiça, no respeito e na humanização do atendimento.

Racismo estrutural e institucional na saúde

Neste vídeo, você vai explorar as engrenagens do racismo estrutural e observar como elas operam nas instituições de saúde. Você vai entender que não basta não ser racista: é preciso transformar as estruturas que silenciam, excluem e perpetuam as desigualdades no processo de cuidado. Acompanhe!

Quiz

Vamos testar seus conhecimentos até aqui. Responda às perguntas a seguir e, ao finalizar, confira o resultado!

1. O que é racismo estrutural segundo os estudos contemporâneos?

2. O que indica um impacto do racismo estrutural na prática médica?

3. Qual das opões a seguir é um exemplo de racismo estrutural na área da saúde?

4. Assinale a opção que apresenta um exemplo de racismo institucional.

5. Como o racismo estrutural afeta decisões clínicas?

6. Qual das alternativas a seguir expressa o conceito de “branco como padrão” na formação médica?

7. Qual destas frases define de forma correta o conceito de “privilégio branco” no Brasil?

Você completou o quiz!

Desafio 3

O branco como padrão

Um aluno negro, ao observar a ausência de representatividade na aula de dermatologia, sugere a utilização de imagens de lesões em peles negras, mas o professor responde: "Não muda nada".

Sabendo que a resposta do professor não condiz, como a ausência de representação impacta o aprendizado e o cuidado? O que você proporia como solução?

A ausência de imagens de peles negras nos materiais didáticos vai além da omissão: ela prejudica a análise de médicas e médicos na percepção de sinais clínicos em diferentes tons de pele, perpetuando desigualdades no diagnóstico e no tratamento. Discutir de que forma o “branco como padrão” se manifesta na educação médica é imprescindível para que se reconheça esse processo de apagamento como parte do racismo institucional. Como solução, é possível propor a revisão dos materiais didáticos, a inclusão sistemática de casos clínicos com diversidade racial e a sensibilização de docentes para o impacto pedagógico e ético da representatividade no ensino da saúde.

Sugestões de aprofundamento

Para aprofundar seu conhecimento, confira as sugestões que separamos para você!

Assista ao filme Corpo delito (2017), dirigido por Pedro Rocha. Trata-se de uma investigação cinematográfica sobre a violência e as complexas relações sociais que permeiam o cotidiano. A obra convida à reflexão sobre a materialidade dos corpos e sua relação com a justiça e a criminalidade.

Leia o livro O genocídio do negro brasileiro, de Abdias do Nascimento, publicado pela editora Perspectiva em 2016. Essa obra examina as profundas estruturas do racismo e a política de extermínio que historicamente atinge a população negra no Brasil. É uma análise contundente sobre as raízes e os desdobramentos do genocídio negro, revelando aspectos sociais, políticos e culturais dessa realidade.

Leia o livro O que é racismo estrutural?, de Jurema Werneck, publicado em 2016 pela Geledés – Instituto da Mulher Negra. É uma obra que vai ajudar você a se aprofundar nas bases e manifestações do racismo no Brasil. Essa leitura desvela como o racismo está entranhado nas instituições e nas relações sociais, afetando profundamente a vida de pessoas pretas e pardas.