Apresentação
Vimos que a neutralidade científica da medicina muitas vezes é um disfarce para a reprodução de estigmas, desigualdades e omissões. A partir dessa suposta neutralidade, vemos na verdade o racismo se infiltrando em protocolos, algoritmos clínicos e rotinas hospitalares, e assim, causando impactos severos na saúde da população negra.
No atendimento, já é possível evidenciar que a neutralidade não existe: pacientes negras e negros relatam com frequência não se sentirem ouvidos, respeitados ou acolhidos. Essa falta de escuta clínica qualificada e respeitosa é um entrave ao cuidado de saúde adequado, tornando-se um grande impacto do racismo na saúde de pessoas negras. Isso se agrava ainda mais quando falamos de indivíduos negros pertencentes a outros grupos socialmente excluídos, como aqueles de classe social baixa, moradores de periferias, pessoas LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência. Nesses casos, há mais de um marcador social passível de discriminação.
Comentário
Quando se fala em sobreposição de opressões, manifestada por múltiplos fatores discriminatórios, não podemos deixar de mencionar a interseccionalidade, termo sistematizado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, teórica feminista e professora estadunidense especializada em questões de raça e gênero. O termo explica como os eixos de poder estruturam os terrenos sociais, econômicos e políticos em que vivenciamos. Para a professora, a interseccionalidade “[...] trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras” (Crenshaw, 2002).
Voltando à saúde das pessoas negras, já sabemos que existem doenças mais prevalentes em pessoas de pele preta ou parda, por questões genéticas, como anemia falciforme, e outras que se tornam mais prevalentes, como hipertensão, diabetes tipo 2 e depressão, em razão das condições sociais a que essas pessoas são submetidas. Entretanto, o racismo estrutural segue impedindo o diagnóstico e o tratamento adequado dessas doenças.
Além da falta de escuta, os protocolos continuam não considerando fatores genéticos, sociais, ambientais e culturais que influenciam a saúde da população negra. A ausência de pesquisas direcionadas e a desatualização de protocolos contribui para a perpetuação de desfechos negativos em saúde e para a reprodução de desigualdades.
Enquanto isso, os conhecimentos ancestrais e tradicionais da população preta e parda são ignorados e desvalorizados. Por séculos, comunidades negras desenvolveram práticas e conhecimentos relacionados à cura, ao bem-estar e à prevenção de doenças, mas esses saberes são estigmatizados pelo modelo biomédico hegemônico e são muito pouco incorporados no cotidiano da saúde.
Além de desvalorizar a riqueza cultural e histórica dessas comunidades, esse preconceito impede a incorporação de abordagens complementares e integrativas que poderiam enriquecer o cuidado em saúde.
Certamente, você já entendeu a importância de discutir a questão da raça no contexto da saúde e já reconhece os conceitos-chave relacionados ao racismo, como viés inconsciente, racismo estrutural e racismo institucional. A partir desses conhecimentos, vamos aprofundar os impactos desses processos.
Escutar o silêncio: o impacto do racismo na saúde da população negra
Assista ao vídeo e compreenda como a escuta clínica pode transformar o cuidado em saúde. A falta de atenção e acolhimento compromete pacientes negras e negros, pois negligencia suas identidades. Lembre-se: formar-se em medicina exige mais do que conhecimento técnico, demanda ouvir com atenção e agir com empatia.
Quiz
Vamos testar seus conhecimentos até aqui. Responda às perguntas a seguir e, ao finalizar, confira o resultado!
1. Qual o impacto dos vieses inconscientes na escuta clínica de pessoas negras?
2. De acordo com o que se sabe sobre os estudos da saúde da população negra, o que pacientes negras e negros relatam com frequência?
3. Quais são alguns dos sinais de racismo comunicacional relatados por pacientes negros nos serviços de saúde no Brasil?
4. Qual o impacto dos vieses inconscientes na relação entre profissionais brancos e negros?
5. O que é importante para combater o racismo na falta de escuta e cuidado?
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Esperamos que você tenha acertado todas as questões!
Os vieses inconscientes são uma das explicações para o tratamento desigual entre raças/etnias. Práticas discriminatórias continuam ocorrendo, muitas vezes, sem intenção explícita, mas com graves consequências, incluindo silenciamento de queixas, desrespeito e falta de acolhimento. Esses vieses também impactam a relação entre profissionais, podendo comprometer inclusive a saúde de pessoas negras no ambiente de trabalho.
Desafio 1
Quem você escuta no plantão?
Uma paciente negra chega ao hospital relatando dor de cabeça intensa há 4 dias, mas sua queixa é minimizada por um residente, que não aplica analgesia. Após 3 horas, a paciente é diagnosticada com uma condição grave. Imagine que você é a pessoa preceptora do plantão. Como você interviria de forma antirracista e empática?
É necessário considerar o impacto histórico e estrutural do racismo na saúde da população negra e de que forma isso se manifesta em situações cotidianas, como o plantão médico. Ao analisar o papel da pessoa preceptora, vale discutir a importância de reconhecer e corrigir condutas discriminatórias, oferecer suporte à paciente negligenciada e promover uma cultura de aprendizagem antirracista entre profissionais que exercem a residência. Destacar a empatia como ferramenta clínica e a urgência de práticas que garantam equidade no atendimento também é fundamental para uma atuação transformadora.
A clínica e o racismo: doenças negligenciadas na população negra
Confira neste vídeo como o racismo molda desigualdades no cuidado de saúde voltado à população negra. Serão abordados temas como doenças mais prevalentes, subdiagnóstico, lacunas em protocolos clínicos e a urgência de uma prática médica com recorte racial. Acompanhe!
Quiz
Vamos testar seus conhecimentos até aqui. Responda as perguntas a seguir e no final confira o resultado!
1. Qual é o motivo para a maior prevalência de hipertensão arterial em pessoas negras no Brasil?
2. O que mostra o caso da taxa de filtração glomerular (TFG) ajustada por raça nos EUA?
3. Qual é o impacto da exclusão de pessoas negras em estudos clínicos?
4. Qual a implicação de usar a cor/raça como critério clínico sem base científica?
5. Qual das alternativas a seguir associa a exposição ao racismo cotidiano à questão da saúde mental?
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Esperamos que você tenha acertado todas as questões!
Vimos que o racismo estrutural se manifesta de forma silenciosa, mas decisiva, nos protocolos clínicos. Casos como o da TFG ajustada por raça nos EUA demonstram como critérios sem base biológica sólida podem atrasar diagnósticos e tratamentos, ampliando vulnerabilidades. A falta de pesquisas científicas direcionadas à população negra piora esse cenário. Além disso, fatores sociais, econômicos e ambientais podem levar a adoecimento, ampliando os casos de hipertensão arterial e sofrimento psíquico.
Desafio 2
Negligência no atendimento
Uma mulher negra procura atendimento médico relatando cansaço constante, insônia e perda de interesse em atividades que antes lhe davam prazer. Ela menciona que tem enfrentado situações de discriminação no trabalho. Durante a consulta, o médico a interrompe várias vezes, faz pouco contato visual e, ao final, atribui seus sintomas apenas ao "estresse do dia a dia". Maria é orientada apenas a tomar um remédio para dormir.
Como a falta de escuta qualificada e o racismo comunicacional podem afetar o diagnóstico e tratamento de Maria? Qual a importância de abordar o racismo como fator de estresse e adoecimento na prática clínica?
O caso de Maria ilustra como a falta de escuta qualificada, a interrupção e a desconsideração de suas queixas impacta de forma severa o cuidado. A invisibilidade da dor e do sofrimento psíquico de pessoas negras, somada ao mito da resiliência natural, pode levar a diagnósticos tardios ou inadequados. A ciência mostra que a vivência constante do racismo cotidiano é um fator de estresse crônico, aumentando diretamente o risco de depressão, ansiedade e outros problemas de saúde física e mental.
Reconhecer o racismo como um determinante social da saúde e adoecimento é inegociável para uma prática clínica mais ética e equitativa. Isso exige que profissionais de saúde desenvolvam uma escuta ativa, validem as experiências de cada paciente e tenham atenção aos vieses que podem influenciar seu julgamento, garantindo que o cuidado não seja um perpetuador de desigualdades.
Saberes ancestrais e saúde: o que a medicina ainda precisa aprender
Assista ao vídeo e entenda a importância de integrar os saberes tradicionais à prática médica. Validar esses conhecimentos é um gesto de respeito, escuta e equidade na atenção à saúde.
Quiz
Vamos testar seus conhecimentos até aqui. Responda às perguntas a seguir e, ao finalizar, confira o resultado!
1. Qual é a principal característica da medicina ocidental moderna em sua apresentação usual?
2. A frase "Quem pode falar? Quem pode ser ouvido?", de Grada Kilomba, aponta para qual problema?
3. Por que práticas espirituais devem ser respeitadas na internação?
4. O que é racismo epistêmico?
5. Qual a importância de reconhecer os saberes tradicionais de matriz africana e afro-brasileira na saúde do povo negro?
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Esperamos que você tenha acertado todas as questões!
Vimos que a medicina ocidental historicamente se apresenta como a única forma legítima de conhecimento, marginalizando vozes e saberes não brancos. Essa postura revela um racismo epistêmico, que desvaloriza conhecimentos não ocidentais e impõe uma hierarquia entre formas de saber. Compreender essa lógica excludente é relevante para ampliar o olhar clínico e construir um cuidado que seja, de fato, plural e inclusivo.
Integrar saberes tradicionais, práticas culturais e espiritualidades no cuidado em saúde não é apenas uma forma de respeito — é uma estratégia para fortalecer o vínculo terapêutico e promover uma atenção mais humanizada e integral. Valorizar essas dimensões significa reconhecer a plena humanidade da população negra e de outros grupos historicamente marginalizados, contribuindo para a construção de uma prática médica equitativa.
Respeitar diferentes formas de viver, cuidar e compreender o corpo é parte significativa de um cuidado comprometido com a equidade e com a desconstrução da hegemonia eurocêntrica que ainda domina os espaços de saúde.
Desafio 3
Ciência e escuta
Um paciente relata que o banho de folhas que tomou com sua avó melhorou suas dores. O médico sorri com ironia e muda de assunto. Considerando esse caso, responda: como escutar sem exotizar? Como integrar saberes populares ao cuidado sem abrir mão da ética clínica?
Práticas culturais e ancestrais, como o uso de plantas, fazem parte do repertório de cuidado de muitas pessoas, que devem ser acolhidas com respeito, não com desdém ou exotização. A escuta sem julgamento é imprescindível para a construção de vínculos de confiança e para exercer uma medicina verdadeiramente centrada no indivíduo. Integrar esses saberes ao cuidado clínico não significa abrir mão da ética ou da ciência, mas sim dialogar com outras formas de conhecimento que podem complementar o tratamento médico, em especial quando reconhecidas pelas políticas públicas de saúde, como nas práticas integrativas e complementares do SUS.
A interseccionalidade na área da saúde
Neste vídeo, você verá como diferentes formas de opressão se entrelaçam e afetam o acesso à saúde da população negra. A interseccionalidade mostra que raça, gênero, classe e deficiência se combinam, demandando escuta sensível, protocolos inclusivos e atuação institucional comprometida com a equidade.
Quiz
Vamos testar seus conhecimentos até aqui. Responda às perguntas a seguir e, ao finalizar, confira o resultado!
1. O que significa interseccionalidade?
2. Em relação à população negra LGBTQIAPN+, o que os estudos em geral apontam referindo-se a esse grupo?
3. Qual das alternativas representa uma barreira enfrentada de forma específica por pessoas negras com deficiência no acesso à saúde no Brasil?
4. Qual a principal contribuição do conceito de interseccionalidade para a prática clínica?
5. O que se pode dizer quanto a não utilização de nome social em se tratando de pacientes trans?
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Esperamos que você tenha acertado todas as questões!
A sensibilidade interseccional — isto é, a capacidade de compreender como diferentes opressões (raça, classe, gênero) se sobrepõem na vida dos pacientes — é basilar no atendimento a pessoas negras. Não basta analisar o cruzamento de categorias, é preciso considerar a sobreposição e interação dos preconceitos. Por isso, muitos indivíduos evitam serviços de saúde: pessoas negras LGBTQIAPN+ e negras com deficiência frequentemente relutam em buscar atendimento por receio de discriminação. Um exemplo grave dessa violência institucional é a recusa em utilizar o nome social de pacientes trans, consequência do racismo e da LGBTfobia — uma omissão que mina a confiança no atendimento e compromete o acesso à saúde.
Desafio 4
Cruzamentos perigosos
Uma mulher negra, trans e periférica relata não ter sido tocada ou examinada por nenhum profissional durante a visita hospitalar. O que essa ausência representa? Como a interseccionalidade pode ser aplicada para transformar o acolhimento e evitar omissões no cuidado?
A ausência de exame físico em pessoas trans evidencia a violência institucional e a necessidade urgente de protocolos que assegurem a integralidade do cuidado. Nesse sentido, a interseccionalidade ajuda a compreender como diferentes aspectos da identidade (raça, gênero, classe social e orientação ou identidade de gênero) se cruzam e ampliam as desigualdades e barreiras no acesso e na qualidade do cuidado, a fim de construir protocolos adequados.
No caso de uma mulher negra, trans e periférica, esses múltiplos fatores podem gerar exclusão e omissões graves que refletem preconceitos e discriminações institucionalizadas. Aplicar a interseccionalidade na prática clínica exige reconhecer essas sobreposições de opressão, adotando abordagens acolhedoras e sensíveis que garantam o direito à integralidade do cuidado, promovam o respeito à diversidade e eliminem atitudes e procedimentos discriminatórios.
Sugestões de aprofundamento
Para aprofundar seu conhecimento, confira as sugestões que separamos para você!
Assista ao documentário Bixa travesty (2019), dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, que explora a vida e a arte de Linn da Quebrada, e acompanhe a complexidade da identidade de gênero, sexualidade e raça no Brasil. Esse documentário é um convite para se repensar os corpos dissidentes e as normas sociais, vale conferir!
Assista ao filme Priscilla, rainha do deserto, dirigido por Stephan Elliott, e observe a jornada transformadora de três artistas drag queens atravessando o deserto australiano em um ônibus rosa. Priscilla é uma celebração da liberdade, da amizade e da superação de preconceitos, embalada por uma trilha sonora icônica.
Leia a obra Interseccionalidade, de Carla Akotirene, publicada pela editora Jandaíra em 2020. O texto desmistifica e aprofunda o conceito de interseccionalidade, ferramenta essencial para compreender as múltiplas camadas de opressão que atravessam as experiências de diferentes grupos sociais. É uma leitura indispensável para quem busca explorar os complexos processos que envolvem as desigualdades.