Definição
O conceito de gramática gerativa, as dicotomias competência/desempenho e Língua-E/Língua-I. Principais definições e argumentações que fundamentam as ideias que alicerçam a teoria gerativa.
PROPÓSITO
Compreender as principais ideias e os argumentos defendidos por Noam Chomsky e outros linguistas gerativistas na revolução cognitiva permite a identificação das importantes influências na ciência da linguagem até os dias de hoje.
OBJETIVOS
Módulo 1
Descrever o conceito de gramática gerativo-transformacional
Módulo 2
Reconhecer o conceito de gramática universal e suas diferentes formulações
Módulo 3
Relacionar as implicações da gramática universal à aquisição da linguagem
Introdução
A linguagem humana é inata, nascemos com ela, ou é algo que temos de aprender? O que torna possível qualquer ser humano adquirir uma língua? Por que a criança, antes mesmo de ir à escola, é capaz de elaborar sentenças que nunca falou e que apresentam alguma ordem ou relação sintática?
Essas são algumas questões que provavelmente já vieram à sua mente ao refletir sobre a linguagem ou ao observar como uma criança ainda muito novinha começa a pronunciar as primeiras palavras. Na verdade, vários pensadores e pesquisadores se ocuparam de problemas relacionados à linguagem humana e ao modo como ela se manifesta e se desenvolve.
Na Filosofia, nas Ciências Sociais, na Psicologia e na Linguística, encontramos diferentes metodologias, enfoques e teorias para desvendar e compreender o fenômeno da linguagem. Na primeira metade do século XX e no começo da segunda metade, correntes teóricas na Psicologia e até na Linguística defendiam que a linguagem se desenvolve no ser humano, principalmente, a partir de condicionamentos e respostas a estímulos externos, ou seja, a criança começa a falar imitando alguns comportamentos e formando determinados hábitos.
No final dos anos 1950, o linguista norte-americano Noam Chomsky provocou uma revolução na maneira de pensar o fenômeno da linguagem humana, ao propor uma teoria inovadora da aquisição da linguagem, com a elaboração de conceitos originais sobre gramática e funcionamento da língua.
Noam Chomsky
Além de linguista, filósofo e matemático de fama internacional, tornou-se uma celebridade também pelo seu ativismo político. Foi professor por mais de 40 anos no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Em 2017, mudou-se para a Universidade do Arizona, em Tucson.
Neste tema, você vai estudar os principais conceitos que norteiam a linguística de Chomsky, comumente denominada de linguística gerativa, elaborados desde o início da primeira metade do século e desenvolvidos ainda nas primeiras décadas do século XXI.
MÓDULO 1
Descrever o conceito de gramática gerativo-transformacional
Contexto do surgimento do Gerativismo
Muitos assumem como marco inicial da Escola Gerativa na Linguística, ou gramática gerativo-transformacional, ou simplesmente gramática gerativa, a publicação do livro Syntactic Structures em 1957, de autoria de Noam Chomsky. No Brasil, Estruturas sintáticas foi publicado em 2015.
No entanto, ainda em 1957, Chomsky submeteu sua famosa resenha para o livro Verbal Behavior, escrito por B. F. Skinner. A resenha, apesar de ter sido submetida em 1957, só foi publicada em 1959.
O livro Estruturas sintáticas e a resenha de Chomsky fizeram uma crítica contundente à pesquisa linguística até aquele momento, tais como:
- Mostrar as limitações dessas abordagens e de suas concepções;
- Questionar a ideia de que a aquisição da linguagem decorre da formação de hábitos, ou da imitação de certos tipos de comportamentos, como defendiam psicólogos behavioristas e boa parte dos linguistas estruturalistas nos Estados Unidos.
Burrhus Frederic Skinner
(1904-1990)
Psicólogo e filósofo norte-americano e um dos principais representantes do Behaviorismo, Skinner dedicou-se a pesquisas sobre linguagem e aprendizagem. Entendia que a educação devia ser planejada, programada passo a passo, para obter os resultados desejados na formação ou “modelagem” do aluno. Ele entendia que o pensamento é comportamento, podendo ser verbal ou não. Para ele, linguagem é “comportamento verbal”, adquirido a partir de respostas a estímulos do ambiente.
Assim, seria acertado dizer que esses dois trabalhos, complementares por natureza, são, historicamente, o que pavimenta a perspectiva gerativa no mundo das ideias linguísticas do século XX.
Clique nas figuras abaixo para ver as informações.
Psicólogos behavioristas
Explicavam os fenômenos da mente por meio da análise dos comportamentos que podem ser observados, ou seja, eles propunham uma análise experimental do comportamento. Os behavioristas estudavam as relações entre os estímulos e as respostas que os indivíduos davam ao serem estimulados.
Linguistas estruturalistas
O linguista Leonard Bloomfield, um importante representante da explicação comportamental para a aquisição da linguagem, entendia que a língua se adquire por meio da repetição. O ato de fala corresponderia a um tipo específico de comportamento, e a comunicação seria um tipo de resposta a um estímulo.
Atenção
Chomsky será, com efeito, a figura central nesse movimento, redefinindo os objetivos da ciência linguística e cunhando uma série de conceitos que passam a orientar as pesquisas sobre línguas naturais a partir de 1960. Particularmente, Chomsky propõe um retorno ao racionalismo dentro do estudo da linguagem, contrariando o pensamento de matriz empirista, que orienta a psicologia behaviorista, e o Estruturalismo americano na Linguística.
Em linhas gerais, de maneira bastante resumida, os racionalistas defendem que trazemos ideias inatas, conhecimentos que não adquirimos (que, de fato, não podemos adquirir) com a experiência. São como proposições impressas em nossa mente/cérebro desde o nascimento.
Já o Empirismo defenderá que somos tabula rasa, ou seja, que não possuímos conhecimentos inatos, não nascemos com ideias impressas em nossa mente. Para o Empirismo, temos determinadas habilidades, faculdades, que nos tornam capazes de converter experiências em conhecimento.
Tomemos esta proposição, conhecida como a propriedade de transitividade da relação de igualdade, para entendermos as perspectivas racionalista e empirista.
Numa perspectiva RACIONALISTA
Leia maisPerspectiva Racionalista
Compreende que ela exprime o conhecimento que todos nós possuímos, mesmo que não tenhamos consciência disso. Um conhecimento que já trazemos conosco quando nascemos, uma ideia inata.
Numa perspectiva EMPIRISTA
Leia maisPerspectiva Empirista
Capacidades ou habilidades são aprendidas ou formuladas a partir das experiências e de nossas aptidões de fazer analogias e de capturar elementos comuns de experiências distintas. É importante que fique claro que essas capacidades ou habilidades assumidas pelos empiristas não são conhecimentos ou ideias.
Saiba mais
Os gramáticos de Port Royal, no século XVII, são alguns dos expoentes do Racionalismo europeu.
Gramáticos de Port Royal
A Gramática de Port Royal surgiu na França, em 1660, escrita pelo padre, teólogo e filósofo Antoine Arnauld e pelo monge e gramático Claude Lancelot. Essa gramática passou a ser o modelo para muitas gramáticas daquele momento. O consenso na época é que a linguagem estava fundada na razão e refletia o pensamento. Logo, os princípios de análise deveriam ser universais para qualquer língua. John Locke (1632-1704) Filósofo inglês que, além de ser um expoente do Empirismo, era também um importante representante do individualismo liberal. Na política, Locke defendeu ideias liberais e foi o primeiro a apresentar a divisão do Estado em três poderes distintos. Em sua obra Ensaio acerca do entendimento humano, publicada em 1689, Locke apresenta sua teoria sobre a aquisição do conhecimento.
A Linguística norte-americana do século XX, particularmente aquela influenciada pela psicologia behaviorista, terá clara orientação empirista, assumindo que nossas dotações naturais não passam de faculdades que nos permitem fazer generalizações, abstrações etc. Ela também defende que nossos comportamentos linguísticos são consequência de uma complexa trama de estímulos, respostas a esses estímulos (normalmente imitação de comportamentos de outros) e reforços positivos ou negativos a essas respostas ao longo de nossa história individual.
Chomsky, no entanto, questiona esse quadro. Ele mostra que boa parte do que sabemos sobre a língua não está presente nos estímulos linguísticos que recebemos. Para ele, as faculdades de generalização, abstração, entre outras, assumidas pelos empiristas, não são suficientes para explicar os conhecimentos linguísticos que os falantes adultos detêm de sua língua.
Se parte do que sabemos da língua não está nos estímulos que recebemos, para onde nos conduz Chomsky?
Após reflexão, clique aqui
Argumento da pobreza do estímulo
Ora, se pelo menos uma parte daquilo que sabemos não está nos estímulos (na experiência), essa parte não pode ser explicada por qualquer perspectiva empirista, em particular o behaviorismo. Logo, é preciso retomar a posição racionalista para explicar pelo menos uma parte do conhecimento linguístico dos falantes adultos.
Esse argumento, conhecido como argumento da pobreza do estímulo, é detalhado no Módulo 3. É com base nele que a Escola Gerativa, racionalista do ponto de vista filosófico, propõe uma forma de inatismo ou nativismo para explicar a aquisição da língua. Defende que os seres humanos vêm ao mundo dotados de conhecimentos especificamente linguísticos, ou princípios linguísticos estruturantes, impressos em sua mente, que facilitam ou mesmo possibilitam a aquisição de uma língua natural. Esses princípios estão presentes no estado inicial da faculdade da linguagem humana, chamada por Chomsky de gramática universal. Eles possibilitam a aquisição da linguagem, ou seja, são a causa da universalidade, rapidez e uniformidade da aquisição linguística entre humanos.
Conceito de gramática gerativa
gra.má.ti.ca
Ao contrário da concepção de gramática como um conjunto de regras prescritivas para falar e escrever corretamente, o conceito de gramática na Filosofia, na Linguística e, em particular, na gramática gerativa é completamente outro.
Assumindo que uma Língua L é um conjunto de sentenças finitas em extensão constituídas de um conjunto finito de elementos (CHOMSKY, 1957), Chomsky entende por gramática gerativa dessa Língua L um sistema de regras explícito que fornece descrições estruturais completas e bem definidas de todas as sentenças de L, e somente delas (CHOMSKY, 1965).
Simplificando, essa gramática, esse sistema de regras explícito, bem definido e completo, será capaz de gerar todas as (infinitas) frases da Língua L sob análise e somente as frases dessa língua.
Outras teorias linguísticas que forneçam gramáticas explícitas capazes de gerar todas as sentenças de uma língua fornecerão gramáticas gerativas dessa língua.
O gerativismo chomskyano se distingue de outras teorias linguísticas gerativas modernas essencialmente por postular a existência de um tipo específico de regra: as transformações.
Modernamente, as transformações se traduzem pela regra de deslocamento de constituintes. Uma regra de deslocamento serve para dar conta de sentenças.
Quem o Mário encontrou na livraria?
Na sentença, o pronome interrogativo “Quem” é um objeto direto (complemento do verbo), mas não está na posição tradicional de objeto – está deslocado para o início da frase. Uma maneira de lidar com o fato de que o objeto direto está em uma posição que não é a de objeto direto é dizer que as regras do sistema linguístico incluem deslocamentos de constituintes, regras que movem um constituinte de uma posição para outra dentro da sentença. No exemplo, o objeto está sendo movido da posição tradicional de objeto direto, junto ao verbo, para o início da frase – ele continua sendo objeto direto e interpretado como tal, mas está sendo pronunciado em outra posição.
Até aqui, neste módulo, gramática (ou gramática gerativa) é entendida como uma teoria linguística sobre as regras ou princípios que geram as sentenças de determinada Língua L, qualquer que seja a natureza desta teoria.
O termo gramática, porém, tem outra acepção, que é a de sistema de regras ou princípios internalizados, representados na mente dos falantes de determinada Língua L, aqueles que dão forma a suas sentenças e lhes permitem produzir e entender as frases dessa língua.
Esse conceito, conhecido como gramática universal, será trabalhado no segundo módulo.
Ao longo deste tema, então, você deverá ficar bem atento, pois encontrará o termo gramática de maneira ambígua.
GRAMÁTICA GERATIVA
Teoria linguística sobre o conhecimento linguístico de um falante
GRAMÁTICA UNIVERSAL
É o próprio conhecimento linguístico representado na mente deste falante
Autonomia da sintaxe
Talvez a mais famosa frase de Noam Chomsky seja “colorless green ideas sleep furiously” , encontrada no livro Estruturas sintáticas. A frase, que reúne muitas contradições semânticas, é perfeita do ponto de vista sintático.
Como se dorme furiosamente?
Como uma ideia pode dormir?
Como um substantivo abstrato colorido é sem cor ao mesmo tempo?
Os falantes de inglês sabem que essa frase não viola nenhuma regra sintática e conseguem, inclusive, atribuir o contorno prosódico correto à sentença (a entoação correta à frase), embora a sentença não tenha nenhum sentido. Veja que, se a sequência fosse ideas furiously colorless sleep green, os falantes de inglês saberiam não se tratar de uma sentença de sua língua e não conseguiriam atribuir o contorno prosódico certo a ela.
Ora, se a sintaxe de uma sentença não fosse independente de seu significado, esperaríamos que os falantes do inglês considerassem a famosa frase de Chomsky malformada ou pelo menos anômala do ponto de vista estritamente sintático. Mas não é isso que acontece. O exemplo nos mostra que a baixa frequência de uma frase tampouco influencia o julgamento do falante: a frase de Chomsky era completamente nova para os leitores da época e, portanto, sua frequência de uso era zero. Mesmo assim, os falantes não a julgavam anômala ou malformada do ponto de vista estritamente sintático.
A conclusão que se tira a partir dessa discussão é que a sintaxe é autônoma, ou seja, não é derivada ou redutível ao significado, nem está sujeita à frequência. Por outros termos: não é o significado que determina a natureza e a forma das regras sintáticas, e não é a familiaridade com uma frase que nos diz se ela é bem ou malformada sintaticamente.
Competência e desempenho
Os conceitos de competência e desempenho aparecem no livro Aspectos da Teoria da Sintaxe, de Chomsky, publicado pela primeira vez em 1965 (tendo uma edição portuguesa traduzida de 1975). Esse livro traz, em seu primeiro capítulo, uma série de conceitos que permanecem até hoje, e são importantes não só para os gerativistas, como também para os seus críticos.
É simplesmente o conhecimento especificamente linguístico, internalizado, que um falante adulto possui de determinada Língua L, o conhecimento de uma gramática específica, que caracteriza única e explicitamente todas as sentenças dessa Língua L. Esse conhecimento inclui o conjunto de regras ou princípios particulares que constituem essa gramática (regras sintáticas, fonológicas, propriedades do vocabulário etc.).
Exemplo
Uma regra que os falantes de todas as variedades de português conhecem e que, portanto, faz parte de sua competência é aquela que estabelece que os artigos, definidos ou indefinidos, submetem-se à flexão de gênero e número (isso não é uma propriedade de qualquer língua; no inglês, por exemplo, os artigos não apresentam flexão).
Outro exemplo de conhecimento linguístico particular que possuímos sobre a nossa língua é o do princípio que nos permite omitir objetos (complementos) de verbos quando esses objetos são tópicos discursivos (aquilo de que se fala no discurso).
No diálogo abaixo, com os falantes A e B, o objeto direto (indicado com um Ø) do verbo não está expresso nas sentenças de B, mas é recuperado do contexto (é aquilo de que se fala). Interessantemente, o apagamento do objeto é proibido em línguas como o inglês ou o francês (é preciso que haja um pronome na posição de objeto), mesmo quando é um tópico do discurso.
Os modelos linguísticos que a gramática gerativa tem formulado ao longo dos anos são todos modelos de competência, ou seja, procuram caracterizar aquilo que os falantes sabem sobre essa língua, incluídas aí as propriedades que essa língua compartilha com todas as outras.
Os modelos gerativos são, portanto, modelos do que os falantes sabem sobre sua língua, não do que fazem com esse conhecimento.
A
Você sabe onde está aquela caneta com várias cores que eu comprei ontem?
B
Eu tinha deixado Ø em cima da escrivaninha. Você já viu Ø lá?
É o uso que o falante faz de sua competência linguística. Ao contrário da competência, que é um conjunto de representações mentais estáveis (um estado da mente, uma propriedade sua), o desempenho é afetado por inúmeros fatores.
Muitos fatores não são linguísticos, como limitações de memória, dificuldades no processamento sentencial, indecisões, reelaborações, entre outros elementos imponderáveis do contexto, da situação de uso. Por isso, o desempenho pode não refletir perfeitamente a competência, ainda que dependa desta. É interessante perceber que os dados linguísticos que a criança recebe na fase de aquisição da língua são retirados do desempenho dos falantes ao seu redor, mas o desempenho desses falantes frequentemente não reflete de forma perfeita a competência deles. Isso, entretanto, não impede que as crianças adquiram a língua falada por essas pessoas que estão no seu entorno.
Língua-E e Língua-I
No livro Conhecimento linguístico: sua natureza, origem e uso, publicado em 1986, Chomsky apresenta dois conceitos fundamentais: Língua-E e Língua-I.
É a língua em sua dimensão sociológica, política e até histórica: a língua não individual. Exemplos de língua-E: A língua portuguesa objeto de acordos ortográficos, exigida em concursos públicos, ensinada nas gramáticas normativas; a própria noção de língua cunhada por Saussure no Curso de Linguística Geral; os dados linguísticos que os adquirentes de uma língua recebem na fase de aquisição (as produções linguísticas dos falantes no seu entorno). A Língua-E, ao contrário da Língua I, apresenta dificuldades para se estabelecer descrições científicas ou filosóficas sobre sua natureza ou para responder a questões, por exemplo, sobre onde ela se localiza.
Língua interna, é a gramática (sistema de regras ou de princípios) que foi internalizada pelo falante como resultado do processo de aquisição. É um conceito que, em grande medida, confunde-se com o de competência, pois caracteriza o corpo de conhecimentos estritamente linguísticos que o falante adulto detém da língua que usa. Podemos pensar que a Língua-I é um estado da mente de um falante, considerado uma condição estável, isto é, que não sofre mudanças importantes depois de atingido. Chomsky (1994) afirma que a Língua-I é um objeto legítimo de investigação científica, que permite investigação sistemática. Isso ocorre porque a língua-I é algo que, indiscutivelmente, existe na mente de um falante, sendo um estado dessa mente, que pode ser descrita.
Componentes de uma gramática gerativa chomskyana
Os linguistas estruturalistas já haviam percebido, antes mesmo de Chomsky, que a única maneira de fazer uma descrição adequada e útil de determinada língua seria dividir essa descrição em níveis. Assim, uma língua poderia ser descrita, por exemplo, em seu nível fonológico, ou em seu nível morfossintático. A gramática gerativa propõe uma divisão em, pelo menos, três níveis: sintático, fonológico e semântico-pragmático.
Estruturalistas
O estruturalismo linguístico inicia-se com Ferdinand de Saussure e seu entendimento de que a língua é um sistema articulado no qual seus elementos se concatenam por meio de correlações e oposições. Cada elemento tem seu valor a partir de sua posição no sistema ou na estrutura. Assim, fonemas, morfemas e sintagmas se combinam em diferentes níveis para formar a estrutura da língua.
No livro Aspectos da Teoria da Sintaxe, Chomsky (1975) defende que tais níveis de descrição correspondem a componentes de uma teoria das competências linguísticas. Ou seja, nossa competência linguística é organizada de tal modo que ela reconhece, pelo menos, três tipos de regras (ou de princípios): sintáticas, fonológicas e semânticas.
Além disso, Chomsky (1975) impõe uma organização lógica entre essas componentes, uma assimetria entre elas: a sintaxe é a componente central, responsável pela combinação dos itens para a geração de sentenças; a componente fonológica e a componente semântica são interpretativas; elas simplesmente interpretam o que a componente central, a sintaxe, gera.
Assim, a teoria do conhecimento linguístico dos falantes (de sua competência) tem o seguinte desenho simplificado:
Semântica
SINTAXE
Fonologia
Chomsky (1975) argumenta que a sintaxe precisa ter precedência lógica sobre a fonologia e a semântica, pois a estrutura sintática define a estrutura fonológica e o significado de uma sentença. Assim, as setas saem da sintaxe para as outras componentes da gramática, mas não há setas apontando dessas componentes de volta para a sintaxe nem ligando a fonologia à semântica.
No caso da fonologia, a maneira como os constituintes estão organizados sintaticamente na frase nos diz como será a distribuição de acentos e a prosódia da sentença.
As línguas costumam evitar choques de acentos. Ou seja, evitam que sílabas de acento forte fiquem imediatamente adjacentes a sílabas de acento forte, e que sílabas de acento fraco fiquem imediatamente adjacentes a sílabas de acento fraco.
A estrutura fonológica de uma única palavra e de uma sequência de palavras procura, portanto, alternar sílabas fortes com sílabas fracas. Na palavra “borboleta”, temos uma sílaba forte, bor, com um acento secundário (uma espécie de tônica um pouco mais fraca); uma sílaba fraca, bo; a sílaba mais forte de todas, que é a tônica da palavra, le; e finalmente outra sílaba fraca, ta. Veja que há alternância, evitando os choques de acentos mencionados (SANDALO; TRUCKENBRODT, 2002).
Verifique um exemplo com sequência de palavras
Ao pronunciarmos o constituinte nominal “café quente”, fazemos um ajuste para evitar que as sílabas tônicas fé, de “café”, e quen, de “quente”, fiquem juntas.
Para isso, fazemos o deslocamento do acento de fé para ca na palavra “café”. A retração do acento.
Assim pronunciamos cáfe, e não café. Com a transferência de acento, criamos a alternância e evitamos o choque.
Então, ca fica forte com o deslocamento; fé fica fraca; quen continua forte; e te continua fraca.
Porém, o interessante sobre essa regra fonológica, que ajusta os acentos para evitar o choque, é que ela leva em conta a estrutura sintática, não se aplicando sob certas circunstâncias. Por exemplo, na frase “café queima”, não fazemos a transferência do acento para a primeira sílaba de café, apesar de, não transferindo o acento, ficarmos com duas sílabas fortes (tônicas) adjacentes.
café quente
Aqui, um choque acontece dentro de um constituinte nominal, que define um sintagma fonológico (uma unidade da estrutura prosódica de uma sentença), e a regra que desloca acento se aplica.
café queima
Um acento se encontra no constituinte nominal sujeito da sentença (“café”, que será um sintagma fonológico), e o outro acento está no predicado (“queima”, que é outro sintagma fonológico). Nesse caso, o choque acontece na fronteira entre dois sintagmas fonológicos, e a regra não se aplica.
No final das contas, o que encontramos, portanto, são regras fonológicas que precisam “ver” a estrutura sintática. Assim sendo, a componente sintática tem de preceder a fonológica.
No lado da semântica, fica claro que a interpretação que damos a uma frase é crucialmente dependente da estrutura sintática dessa frase. Isso mostra que a componente sintática também deve preceder a componente semântica em nossa competência (Figura 1).
Mas a Figura 1 não expressa o que fazemos quando formulamos ou processamos sentenças. Não é um modelo de desempenho, como já dissemos. O que ele expressa é o que o falante sabe sobre sua língua – ou seja, repetindo, é um modelo de competência.
Assista ao vídeo com os comentários sobre gramática gerativo-transformacional.
Até aqui, você estudou o Gerativismo, teoria linguística elaborada por Chomsky, e seus principais conceitos, como gramática gerativo-transformacional, competência e desempenho e Língua-E e Língua-I. Confira, agora, o que você aprendeu com as atividades a seguir.
Verificando o aprendizado
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MÓDULO 2
Reconhecer o conceito de gramática universal e suas diferentes formulações
Gramática universal
A gramática universal é o estágio inicial da faculdade da linguagem, como já mencionado no módulo anterior.
Mas o que está incluído na gramática universal, uma vez que esse estado inicial não é uma “folha de papel em branco” (tabula rasa)?
Nas décadas de 1960 e 1970, Chomsky e os gerativistas defendiam que as línguas eram sistemas de regras particulares.
As regras seriam aprendidas pelos falantes a partir dos dados, mas a gramática universal, o estado inicial da faculdade de linguagem na mente deles, fornecia aos indivíduos certas restrições sobre os tipos de regras linguísticas possíveis.
Uma das restrições mais importantes é a seguinte:
As regras das línguas nunca levam em conta (pelo menos não somente) a ordem das palavras numa sentença, mas uma estrutura de constituintes subjacente a essa ordem (uma estrutura de fato hierárquica, em que constituintes estão contidos em outros constituintes).
O que isso significa? Vejamos o caso clássico da posição do auxiliar do inglês em perguntas polares.
No inglês, a sentença declarativa em (A) tem uma versão interrogativa em (B), onde John e o auxiliar na terceira pessoa, has (tem, em português), trocam de ordem:
Uma regra para a formação da interrogativa em (B) perfeitamente compatível com (A) seria: para formar uma interrogativa polar em inglês, inverta a ordem do primeiro verbo auxiliar que aparece na sequência de palavras da contraparte declarativa com o que vem antes desse verbo.
Interrogativa polar
Ocorre quando se elabora uma pergunta que requer uma resposta para o conteúdo comunicado nessa indagação, podendo essa resposta ser uma confirmação ou não da informação ou do conteúdo que não estava tão claro para quem faz a pergunta.
A regra diz, então, para tomar o primeiro verbo em (A), has, e invertê-lo de posição com o que vem antes, John, para gerar (B). Observe que essa é uma regra que só olha para a ordem dos elementos na frase – procura o primeiro verbo auxiliar na sequência de palavras.
A frequência de perguntas polares nas conversas dos falantes de inglês é muito baixa; a maioria absoluta das ocorrências de perguntas polares é perfeitamente compatível com a regra enunciada acima. É, portanto, uma regra que descreve a maioria absoluta dos dados que supostamente uma criança recebe na fase de aquisição.
No entanto, não é a regra correta.
Se ela se aplicar à frase (A) a seguir, por exemplo, tomará o verbo auxiliar be na terceira pessoa do singular, is (é, em português), não o verbo has, e gerará a saída incorreta em (B). A pergunta polar correta é apresentada em (C).
A primeira é:
Por que a língua inglesa não possui a regra baseada somente na ordem como a postulada acima?
A segunda pergunta é:
Se a regra proposta acima é compatível com a imensa maioria dos dados, por que as crianças em fase de aquisição nunca cometem erros em seu comportamento linguístico compatíveis com tal regra?
Por que as crianças nunca produzem coisas como (B) durante a fase de aquisição? Por que elas nunca supõem uma regra baseada somente na ordem das palavras, já que ela é compatível com a imensa maioria dos dados – e é mais simples do que a regra verdadeira?
A resposta de Chomsky às duas perguntas será:
Porque o estado inicial da faculdade da linguagem, a gramática universal, só admite regras dependentes de estrutura, nunca regras exclusivamente dependentes da ordem linear dos itens. Ou seja, nossa mente já vem equipadas com o conhecimento de que as regras nas línguas naturais devem levar em conta estruturas hierárquicas de constituintes na sua formulação, mas não exclusivamente a ordem das palavras na sentença. A regra correta envolve uma noção estrutural, a de sujeito sentencial, uma categoria que pode incluir até outro verbo dentro de si, em uma oração relativa, como vemos em (A), e a inversão se dará entre o auxiliar que concorda com o sujeito e esse sujeito, como vemos em (C).
Até o final dos anos 1970, os gerativistas supunham que a gramática universal incluía um conhecimento sobre os tipos de regras linguísticas possíveis, não o conhecimento das regras particulares das línguas em si, que só poderiam ser aprendidas a partir dos dados linguísticos, como é o caso da regra de inversão do auxiliar inglês que discutimos acima. Tratava-se de um conhecimento sobre as categorias universais, como nomes e verbos, e um critério para a avaliação de gramáticas alternativas em relação aos dados linguísticos disponíveis.
Essa dotação facilita a aquisição da linguagem, pois diminui o número de hipóteses que a criança precisa formular na aquisição das regras de uma língua.
Mas o que isso quer dizer?
Lembre-se do exemplo anterior, da inversão do auxiliar do inglês em perguntas polares.
Uma vez que as crianças em fase de aquisição já sabem que as regras devem fazer referência à estrutura de constituintes, e não somente à ordem das palavras, elas não formularão uma regra que procura pelo primeiro verbo numa sequência de itens (como a regra errada que propusemos antes), e não precisarão confrontar essa regra com os dados relevantes – que, nesse caso, são escassos – para excluí-la. Ora, com menos regras para testar, seu trabalho é diminuído de maneira drástica.
Os linguistas gerativistas, estudando diversas línguas diferentes, perceberam que muitas regras que eles propunham para descrever as línguas estudadas compartilhavam princípios bastante abstratos. Era comum que, nessas pesquisas, conjuntos de regras fossem substituídos por princípios mais gerais nas descrições que esses linguistas faziam. Perceberam, ainda, que esses princípios, bastante abstratos e gerais, ou estavam presentes em todas as línguas ou variavam de forma limitada entre as línguas.
Assim, a concepção de língua, como conjunto de regras particulares, começou a ser substituída pela de língua como conjunto de princípios com a possibilidade de variação paramétrica (princípios universais da linguagem presentes com alguma variação em diferentes línguas). A gramática universal, o estado inicial da faculdade da linguagem, passa, então, a ser entendido de outro modo: incluirá princípios universais (que valem para todas as línguas, como é o caso da restrição sobre regras discutida acima) e princípios que variam de maneira restrita, os parâmetros. Os dados linguísticos disponíveis na fase de aquisição mostram às crianças como elas devem fixar esses parâmetros. Uma Língua-I será essencialmente uma combinação específica de fixações paramétricas, atingida ao final da fase de aquisição.
Gramática universal: princípios e parâmetros
O livro Lectures on Government and Binding, publicado em 1981, reúne um conjunto de palestras ministradas por Noam Chomsky na Universidade de Pisa, em 1979. Baseado em estudos realizados por vários linguistas confrontando famílias de línguas, Chomsky conduz uma discussão bastante detalhada do parâmetro pro-drop e suas consequências. Esse livro é considerado um marco inicial da teoria de princípios e parâmetros, que redefine o que é língua, o que é gramática e o que é gramática universal.
Pro-drop
Redução da expressão inglesa pronoun-dropping para se referir à possibilidade de se omitir o sujeito numa sentença.
O que é o parâmetro pro-drop? O que é parâmetro? O que é princípio?
Um princípio será uma propriedade universal, encontrada em todas as línguas. Um importante princípio das línguas naturais humanas (talvez a sua propriedade mais importante) é o princípio do encaixe, que dá conta da chamada recursividade linguística.
O princípio do encaixe nos diz que podemos encaixar constituintes dentro de constituintes. Por exemplo, nos exemplos a seguir, estamos encaixando orações relativas (entre colchetes) dentro de orações relativas:
A
Pedro arrumou um gato.
B
Pedro arrumou um gato [que só gosta de comida enlatada].
C
Pedro arrumou um gato [que só gosta de comida enlatada [que seja importada do Japão]].
Podemos encaixar subordinadas dentro de subordinadas, como você pode ver a seguir:
Pedro disse [que Maria contou [que Augusto concluiu [que Manuela acredita [que a vida é bela]]]].
Apesar de restrições em uma ou outra construção específica, todas as línguas admitem algum tipo de encaixe – e, por isso, trata-se de um princípio, uma propriedade universal.
O princípio do encaixe é muito importante, pois permite que as línguas humanas usem meios finitos (um número finito de palavras e um número finito de princípios ou regras de combinação dessas palavras) para gerar um número infinito de sentenças.
Outro exemplo de princípio é o princípio C da teoria da ligação. Observe as sentenças a seguir.
A
Ele disse que João tomou sorvete na praça.
B
João disse que ele tomou sorvete na praça.
Na sentença A, o pronome ele não pode referir-se a João, mas, na sentença B, pode.
A restrição em A é uma propriedade universal das línguas: será verificada tanto no português quanto no chinês ou no kaigang (língua indígena brasileira do tronco Jê falada em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul). Também é uma restrição que não faz referência à ordem dos constituintes, apesar de parecer que sim – atendendo, portanto, à exigência de que regras ou restrições sempre se apliquem sobre constituintes hierarquicamente organizados.
Veja que, na sentença a seguir, o pronome átono o vem antes do nome próprio João; no entanto, a correferência entre o pronome o e o nome próprio João é permitida. Logo, não é o fato de o pronome vir antes do nome que proíbe a correferência.
O rapaz que o viu disse que João tomou sorvete na praça.
Você verá mais sobre esse princípio no último módulo, mas é importante mostrar, com os dois exemplos citados, que há leis universais que as línguas obedecem, independentemente das culturas a que essas línguas estão ligadas ou de suas histórias. Essas leis serão chamadas de princípios.
O que é parâmetro pro-drop
Vamos começar nossa discussão por ele.
Algumas línguas, como o inglês e o francês, não permitem orações sem um sujeito expresso (desde que o verbo não esteja no modo imperativo). Isso quer dizer que sempre deve haver um sujeito expresso na sentença, mesmo que esse sujeito não se refira a nada. Na sentença em inglês a seguir, cujo verbo descreve um fenômeno da natureza, temos um pronome neutro, it, como sujeito da sentença.
Esse pronome não se refere a nada no mundo; está lá somente para realizar uma função sintática obrigatória. A mesma exigência não se aplica ao português e ao espanhol, como vemos em (B) e (C):
Uma língua pro-drop permite (obriga em certos casos), portanto, que a função sintática de sujeito fique sem uma expressão fonológica para ela. Línguas que não são pro-drop, como o francês e o inglês, não o permitem.
A propriedade pro-drop traz consigo outras propriedades para o sistema linguístico. Por exemplo, permitem a posposição do sujeito (Chegou a encomenda ainda há pouco); as que não são pro-drop não permitem.
É importante entender que, segundo a teoria de princípios e parâmetros, o estado inicial da faculdade de linguagem dos seres humanos, sua gramática universal, é dotado de um princípio relativo à realização dos sujeitos das sentenças nas línguas e que esse princípio tem duas opções paramétricas: ou uma língua é pro-drop ou não.
Propriedade pro-drop
Há outras propriedades que acompanham a propriedade pro-drop, mas não trataremos delas neste tema; tampouco falaremos de como e por que essas propriedades estão ligadas, pois a argumentação é muito complexa e inviável para um tema que introduz os conceitos de Chomsky.
O adquirente da língua, a criança em fase de aquisição, conhecerá previamente essas duas opções, e fixará uma ou outra a depender dos dados que recebe: se ela perceber que a língua que está adquirindo tem muitas frases sem o sujeito expresso, ou com posposição do sujeito, ou com expletivos nulos, entre outras coisas, ela fixará pro-drop positivamente; se ela não encontrar nenhuma dessas coisas, ou encontrar muito poucos exemplares dessas coisas, somente em construções marcadas, ela fixará o parâmetro pro-drop negativamente
Outro parâmetro é o da ordem entre núcleo e complemento. Esse parâmetro nos diz qual é a ordem entre núcleos e complementos de constituintes sintáticos que uma língua apresenta.
O que é um núcleo de um constituinte sintático?
Os constituintes sintáticos têm sempre um elemento que “pede” outros e que define qual é a categoria do constituinte inteiro. Por exemplo, um verbo transitivo pede um complemento verbal, um objeto, e a combinação desse verbo com seu complemento será um sintagma verbal. Uma preposição pede um complemento, um objeto (ela nunca pode ocorrer sozinha), e a combinação dessa preposição com seu complemento será um sintagma preposicional, e assim por diante.
O que o parâmetro da ordem diz é o seguinte: ou os núcleos estão à direita dos complementos ou à esquerda deles. O português é uma língua de núcleo à esquerda; já o japonês, à direita. Ou seja, enquanto no português verbos e nomes ficarão à esquerda de seus complementos, conjunções ficarão à esquerda de orações, auxiliares ficarão à esquerda dos verbos principais e existirão preposições, no japonês, essas ordens serão todas invertidas, e teremos posposições, e não preposições. Esse parâmetro tem impacto dramático na ordem final dos constituintes na sentença.
A seguir, apresentamos uma sentença em português e como seria ela na ordem de uma língua com o parâmetro da ordem fixado de outro modo, como acontece no japonês:
A
Pedro perguntou se João tinha tomado sorvete.
B
Pedro João sorvete tomado tinha se perguntou
Mais uma vez, o valor do parâmetro será fixado a partir dos dados. A criança em fase de aquisição sabe que todo constituinte sintático tem um núcleo e que a relação linear entre o núcleo e o complemento se apresentará numa das duas opções acima (dois conhecimentos inatos fornecidos pela gramática universal). Identificando os núcleos dos constituintes e seus complementos, ela conseguirá fixar o parâmetro com poucos dados linguísticos.
A existência de dois parâmetros na gramática universal possibilita a existência de quatro línguas distintas. Cada língua (gramática) particular será uma combinação específica de fixações paramétricas. Se todos os parâmetros tiverem somente duas opções, o número de gramáticas possíveis será calculado pela fórmula simples dois elevando ao número de princípios com opções paramétricas fornecidos pela gramática universal.
Assim, se a gramática universal incluir, digamos, vinte parâmetros, ela possibilitará a existência de pelo menos 1.048.576 gramáticas (línguas) distintas. Hoje, mais ou menos 6 mil línguas distintas são faladas no mundo inteiro.
Assista ao vídeo com os comentários sobre Princípios e Parâmetros, com exemplos do parâmetro pro-dop.
Depois de estudar o conceito de gramática universal e suas diferentes formulações, confira o que você já consegue reconhecer desses conceitos realizando as atividades a seguir.
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MÓDULO 3
Relacionar as implicações da gramática universal à aquisição da linguagem
O argumento da pobreza do estímulo
O argumento da pobreza do estímulo fundamenta a orientação racionalista no estudo da aquisição da linguagem humana. Ele se baseia no fato de que os conhecimentos linguísticos que os falantes adultos têm de sua língua excedem bastante as informações contidas nos dados linguísticos a que foram expostos durante a aquisição dessa língua.
De maneira mais precisa, a questão é que várias gramáticas diferentes (vários sistemas de regras ou de princípios diferentes) são compatíveis com os dados que servem de estímulos linguísticos primários para as crianças em fase de aquisição. Se os falantes, portanto, só aprendessem a partir dos dados linguísticos, esperaríamos que eles não atingissem consistentemente a gramática da língua falada no entorno. Porém, eles atingem essa gramática.
Logo, não podem aprender somente a partir da experiência.
Para que essa ideia fique mais clara, retomemos o princípio C da teoria da ligação, visto no Módulo 2, quando estudávamos a noção de princípio na gramática universal. Vamos também retomar os mesmos exemplos:
- Ele disse que João tomou sorvete na praça.
- João disse que ele tomou sorvete na praça.
Como você viu antes, algo impede a correferência entre o pronome e o nome próprio “João” em A, ou seja, “ele” e “João” não se referem à mesma pessoa. No entanto, em B, existe a correferência, pois “João” e “ele” se referem à mesma pessoa.
O problema relevante aqui é que os dados linguísticos primários recebidos pelas crianças em fase de aquisição são compatíveis tanto com uma gramática que não inclua o princípio C quanto com uma gramática que o inclua.
Mesmo que as crianças em fase de aquisição não encontrem situações em que “ele” e “João” se refiram à mesma pessoa em sentenças semelhantes à A, nada as obriga a supor que essa correferência não poderá acontecer em outros contextos de fala, ou com verbos novos para ela, ou qualquer outra coisa que possamos imaginar. Contando somente com os dados linguísticos (positivos) que a criança recebe, ela jamais terá elementos suficientes para aprender que a falta de correferência observada em frases semelhantes à A decorre de uma restrição que vale sempre, independentemente do contexto.
Assista ao vídeo com os comentários sobre o argumento da pobreza de estímulo na aquisição da linguagem.
Além do argumento da pobreza do estímulo em aquisição da linguagem
A tese nativista (ou inatista) é também reforçada por diversos achados observacionais e experimentais em aquisição da linguagem.
A primeira coisa que se observa é que a produção linguística das crianças em fase de aquisição não é mera imitação do comportamento linguístico dos adultos. Ela está sujeita a limitações do estágio, da fase correspondente em que a criança está na aquisição.
As crianças, muitas vezes, regularizam flexões de verbos irregulares e produzem coisas como eu sabo, ainda que nunca tenham ouvido tal forma regular em seu ambiente linguístico. Logo, não estão imitando o comportamento de alguém neste caso.
Além disso, mesmo que tentem imitar os adultos, as crianças estão limitadas pela fase de aquisição em que se encontram. Se, em determinada fase da aquisição, as crianças usam de modo inconsistente (ou simplesmente não usam) preposições, conjunções e verbos auxiliares, continuarão fazendo isso mesmo ao tentar reproduzir a frase de um adulto com todos esses itens.
Tampouco as crianças aprendem as formas corretas de sua língua por meio de correções dos adultos, que, na visão dos behavioristas, seriam reforços negativos a determinados tipos de comportamentos linguísticos.
Por que isso acontece?
Leia os textos na sequência e entenda esses comportamentos linguísticos:
Em primeiro lugar, os adultos não costumam corrigir aspectos formais, erros gramaticais das sentenças que as crianças produzem, mas corrigem essencialmente os problemas na expressão de suas mensagens. Ou seja, as correções são muito mais voltadas para o que as crianças queriam dizer e não conseguiram do que para o fato de elas não terem usado um auxiliar correto ou tenham criado uma flexão verbal inesperada. Além disso, é comum que as crianças não deem atenção a esse tipo de correção. Não é implausível imaginar que, ao corrigir uma criança que disse eu sabo, explicando para ela que não é eu sabo, mas eu sei, ela responda: não, mamãe, sou eu que sabo!
Em segundo lugar, um fato atestado experimentalmente em aquisição infantil são os períodos críticos. Uma gama de estudos experimentais mostra coisas extraordinárias sobre janelas de aquisição de tipos específicos de conhecimentos linguísticos. A existência de tais janelas sugere um programa biológico de desenvolvimento da aquisição da linguagem em interação com os estímulos linguísticos recebidos e reforça obviamente a tese nativista.
Em terceiro lugar, é preciso dizer que a existência de determinados tipos de universais linguísticos favorece a visão nativista. Por exemplo, tomemos mais uma vez o princípio C da teoria da ligação. Não há qualquer impedimento lógico para a existência de uma língua cuja gramática viole esse princípio em algum recanto ou capital do mundo. No entanto, nenhuma língua estudada até agora faz isso. A única resposta plausível para isso é que o princípio C é uma propriedade da espécie humana, e, portanto, nenhuma língua natural humana o violará.
Em quarto e último lugar, existem as seguintes evidências para a existência de um estado inicial rico da faculdade da linguagem e talvez de um programa biológico de desenvolvimento específico para essa cognição específica, complementando o argumento da pobreza do estímulo:
- Mesmo quando as condições de exposição aos dados linguísticos são restritas ou anormais, a aquisição de uma língua sempre acontece com crianças normais;
- Essa aquisição obedece aos mesmos estágios independentemente da língua-alvo, ou seja, se a criança está no processo de aquisição do português, do alemão, do árabe ou do japonês;
- A aquisição é relativamente rápida e eficaz.
Gramática universal e aquisição da linguagem
Como vimos anteriormente, o estado inicial da faculdade da linguagem, chamado na literatura gerativista de gramática universal, é bastante rico. Isso facilita a aquisição de qualquer língua natural humana, justamente porque todas as línguas possíveis (gramáticas) já existem, pelo menos virtualmente, na mente dos seres humanos normais desde o nascimento.
Vários estudos experimentais com crianças, conduzidos por pesquisadores americanos, apresentam resultados importantes para a visão nativista, em particular para a teoria de princípios e parâmetros. Algo interessante apontado por esses estudos é que os “erros” cometidos pelas crianças em fase de aquisição são, em sua maioria, “acertos” em outras línguas.
Já se sabia que os erros das crianças são bastante restritos. O dado relevante das pesquisas de autores norte-americanos, como Charles Yang (2002), é que uma criança em processo de aquisição em um ambiente de falantes de inglês pode construir frases seguindo regras da gramática do chinês, por exemplo, mas nunca frases obedecendo a regras ou princípios que não encontramos em nenhuma língua.
Note que uma regra gramatical do chinês não está, certamente, nos dados de inglês que a criança recebe. Portanto, ela não aprende essa regra dos dados. Yang (2002) explica esse fato usando a teoria de princípios e parâmetros: as crianças, de posse das variações paramétricas fornecidas pela gramática universal, vão atribuindo continuamente pesos probabilísticos para os valores de um parâmetro ao longo do período de aquisição, com base nos dados linguísticos que recebem.
Vejamos uma situação que pode ajudar a entender essa questão.
Durante algum tempo, as produções linguísticas de uma criança em ambiente anglófono (falantes nativos do inglês) podem ocorrer sem sujeito expresso, como se o parâmetro pro-drop (que permite a omissão do sujeito) fizesse parte da língua inglesa. É interessante o fato de que todas as crianças em fase de aquisição, de qualquer língua, produzam sentenças sem sujeito expresso. Segundo a teoria de Yang (2002), isso acontece porque a criança ainda não possui evidência suficiente para atribuir alta probabilidade à ligação negativa do parâmetro. A criança ainda não considera altamente provável que a sua língua seja uma língua que não é pro-drop.
A pesquisa demonstra que o espaço de erros possíveis que as crianças podem cometer durante a aquisição é restrito pela variação paramétrica fornecida pela gramática universal.
Os estágios da aquisição da linguagem e o período crítico
A aquisição é um processo uniforme entre as diferentes línguas, ou seja, o desenvolvimento independe da língua-alvo da aquisição.
A partir dos seis meses de idade, as crianças balbuciam. Entre o oitavo e o nono mês, elas estão produzindo sons da língua que vão adquirir. Esses sons ainda são desprovidos de significado: algumas sílabas CV (consoante-vogal), por exemplo, repetidas. É um período em que a criança restringe o seu inventário de sons – inicialmente amplo – ao dos sons da língua-alvo da aquisição. Porém, já conseguem identificar a prosódia da língua que estão adquirindo e distingui-la da de outras línguas.
Em algum momento do final do primeiro ano ou início do segundo ano de vida, as crianças começam a produzir sentenças de uma só palavra. Esse período é chamado de estágio holofrástico (holofrase: palavra com o sentido de uma frase ou sentença).
No início do terceiro ano de vida (aos dois anos de idade), já são produzidas sentenças curtas com mais palavras, mas ainda imperfeitas na utilização do vocabulário gramatical: estágio telegráfico. Neste estágio, a produção linguística da criança envolve basicamente palavras de classes abertas (nomes, verbos, adjetivos, advérbios) e o uso de palavras funcionais (como artigos, conjunções, preposições etc.) é bastante inconsistente ou não acontece.
Atenção
Tanto no estágio telegráfico quanto no estágio holofrástico (com frases de uma única palavra), a criança demonstra que sua produção está aquém de sua competência.
No estágio em que suas frases se resumem a uma palavra somente, fica claro que elas querem dizer muito mais do que a palavra isoladamente veicula, como se aquela palavra x estivesse incluída em uma frase como quero x ou faça x. Além disso, experimentos controlados revelaram que as crianças são capazes de distinguir agentes e pacientes de sentenças simples com verbos transitivos, o que mostra claramente que sua competência linguística naquele momento excede o que ela produz – que ainda não são frases.
O desenvolvimento gramatical das crianças ao longo do terceiro ano de vida é espantoso. Quando chegam aos três anos, já formam frases usando perfeitamente os itens funcionais que não usavam adequadamente; suas frases já se assemelham muito, do ponto de vista gramatical, às frases produzidas pelos adultos, com subordinação e outras estruturas sofisticadas.
Além desse andamento uniforme, observado independentemente da língua, uma gama variada de pesquisas tem mostrado que há um período crítico para a aquisição da linguagem, que termina no início da puberdade.
Segundo Lenneberg (1967), é neste período que a lateralização cerebral se completa, ou seja, é na puberdade que o processo que leva à distribuição das funções entre os hemisférios cerebrais termina. É por isso que, entre outras coisas, danos físicos na região do cérebro responsável pela linguagem após a puberdade produzem perdas permanentes das capacidades linguísticas da vítima. Havendo, portanto, um período crítico, alguém que não tenha sido exposto a dados linguísticos nesse período não adquirirá uma gramática.
Diversos casos documentados, referentes às chamadas crianças selvagens, evidenciam que, se uma pessoa não for exposta a dados linguísticos até o início da puberdade, não conseguirá internalizar uma gramática, mesmo que consiga aprender um vocabulário relativamente rico. Um desses casos mais triste e dramático é o da menina Genie, uma californiana que foi mantida em cativeiro pelo pai dos 20 meses aos 13 anos de idade, sofrendo maus-tratos, ficando subnutrida e sem contato linguístico com ninguém. No caso de Genie, ela aprendeu um vocabulário variado, mas não conseguia produzir frases bem formadas com esse vocabulário. De fato, a pesquisa mostrou que a linguagem que ela aprendeu se manifestava no hemisfério direito, não no esquerdo, como acontece com a imensa maioria dos falantes de qualquer língua.
Os fatos apresentados acima são evidências importantes a favor de um desenvolvimento biologicamente definido de uma cognição específica – a da linguagem – e favorecem uma abordagem que combina orientação racionalista com ciências naturais (e com a metodologia das ciências naturais), como é o caso da abordagem gerativa para o estudo da linguagem.
Por fim, é importante esclarecer que, mesmo tendo uma determinação biológica, a aquisição depende da experiência deflagradora. Ou seja, mesmo que haja todo um programa biológico (uma dotação genética) seguido pela criança no processo de aquisição, mesmo assumindo que a aquisição conte com um estágio inicial bastante rico, não há aquisição sem experiência. Assim, a internalização de uma gramática resulta de uma interação complexa entre um programa biológico pré-definido e especificamente linguístico e a experiência linguística.
Confira seu conhecimento sobre a relação entre as implicações do conceito de gramática universal e o processo de aquisição da linguagem.
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Conclusão
Considerações Finais
Você aprendeu que a linguística gerativa se propõe a descrever as línguas naturais de maneira muito precisa e acurada, além de explicar como essas línguas são adquiridas.
Um dos conceitos estudados, o argumento da pobreza do estímulo, mostra que a orientação empirista das abordagens tradicionais é insuficiente para explicar a riqueza e a complexidade dos conhecimentos linguísticos dos adultos. Por isso, o Gerativismo adota uma orientação nativista ou inatista e propõe que o estado inicial da faculdade da linguagem é rico.
O Gerativismo de Chomsky chama de gramática universal o estado inicial da faculdade da linguagem. Atualmente, os gerativistas propõem que a gramática universal inclua princípios (propriedades universais) e parâmetros (variações limitadas para alguns desses princípios). Essa proposta tem a capacidade de explicar a rapidez, a facilidade e o sucesso na aquisição da linguagem por parte das crianças, além de explicar a grande variedade das línguas do mundo.
A gramática gerativa chomskyana se mantém como uma das principais vertentes da pesquisa linguística, produzindo descrições minuciosas de línguas pouco ou muito investigadas, possibilitando estudos interdisciplinares com a Biologia, Psicologia e as Neurociências.
Podcast
CONQUISTAS
Você atingiu os seguintes objetivos:
Descreveu o conceito de gramática gerativo-transformacional.
Reconheceu o conceito de gramática universal e suas diferentes formulações.
Relacionou as implicações da gramática universal à aquisição da linguagem.