Definição
Conceitos e princípios básicos de anatomofisiologia do sistema respiratório, suas contribuições para o funcionamento integral do corpo humano e para a homeostase.
PROPÓSITO
Apresentar a organização do sistema respiratório e os principais processos relacionados com a troca gasosa, e em especial, com a manutenção das condições ótimas do corpo.
OBJETIVOS
Módulo 1
Descrever a anatomia do sistema respiratório e seus principais componentes
Módulo 2
Identificar os eventos relacionados com a mecânica ventilatória
Módulo 3
Descrever os processos de controle neural da respiração
Módulo 4
Identificar aspectos da fisiologia da aviação e do mergulho
Introdução
O sistema respiratório é responsável por diferentes funções e, entre elas, está a troca gasosa, que permite que o oxigênio necessário para o metabolismo celular seja distribuído pelos tecidos e o gás carbônico seja retirado do ambiente celular e eliminado para o meio externo.
Veremos, neste tema, que a função de fole da caixa torácica é criar as condições necessárias para esse movimento do ar dentro das vias aéreas, dependendo da ação de diferentes grupos musculares.
Quem já perdeu o fôlego sabe que é bem ruim. Um desconforto. Esta era uma das brincadeiras favoritas na infância: apostar quem “segurava” a respiração por mais tempo. Mas os mecanismos da homeostase logo acabavam com a brincadeira. Afinal, quando ficamos de 2 a 3 minutos sem respirar, os sistemas de emergência entram em ação.
Nossos órgãos precisam de oxigênio para funcionar, especialmente nosso cérebro. E quanto maior o esforço maior a necessidade de oxigênio. Então, vamos respirar fundo e começar!
MÓDULO 1
Descrever a anatomia do sistema respiratório e seus principais componentes
Estrutura e funções do sistema respiratório
O sistema respiratório se estende desde as narinas, na cabeça, até os alvéolos, no interior dos pulmões.
Neste trajeto, diferentes e importantes funções são realizadas a partir da entrada do ar no nariz.
O olfato, um dos sentidos que mais modificam o funcionamento do nosso corpo, associado a reações viscerais e emocionais, depende da passagem do ar pelo nariz, assim como a preparação do ar para sua entrada nos pulmões.
O conjunto das estruturas que formam o sistema respiratório pode ser dividido em duas regiões:
Sistema respiratório superior (ou vias aéreas superiores), formado por estruturas da cabeça e do pescoço.
Sistema respiratório inferior (ou vias aéreas inferiores), formado por estruturas do pescoço e tórax.
Do ponto de vista funcional, o sistema respiratório pode ser dividido em uma parte condutora e uma parte respiratória, propriamente dita.
A parte condutora se estende do nariz até os ramos terminais da árvore brônquica.
A parte respiratória está no interior dos pulmões e representa os bronquíolos respiratórios e os alvéolos, estruturas que vamos conhecer mais adiante.
Entre as funções do sistema respiratório, estão:
- A troca gasosa entre o oxigênio (O2) e o gás carbônico (CO2), processo chamado hematose;
- Regulação do pH do sangue;
- Filtração, aquecimento e umidificação do ar que entra nos pulmões;
- Eliminação de água e calor do corpo;
- Olfação (sentido do olfato, percepção dos cheiros ou odores);
- Fonação (produção do som da voz).
O esquema a seguir apresenta a estrutura do sistema respiratório:
Sistema respiratório ‒ Parte superior
Nariz e cavidade nasal
O nariz é a estrutura localizada na face e apresenta duas aberturas — as narinas. Nessa região, a pele apresenta pelos grossos que fazem parte do sistema de filtragem do ar. Na cabeça, a cavidade nasal se prolonga com a faringe e as cavidades associadas.
Essas cavidades são os seios da face ou seios paranasais. Servem de caixa de ressonância para a voz, e seu revestimento de mucosa libera muco. Esse revestimento é semelhante em toda a cavidade nasal.
Essa mucosa também apresenta grande rede de vasos sanguíneos que ajudam a aquecer o ar que entra nos pulmões. Desse modo, a associação dos pelos, a secreção de muco e grande rede vascular superficial permitem filtração, umidificação e aquecimento do ar que entra nos pulmões, diminuindo o risco de irritação. As aberturas posteriores da cavidade nasal para a faringe são as coanas (ou coanos).
O grande espaço da cavidade nasal é dividido em duas metades por uma parede chamada septo nasal, que apresenta uma parte óssea e uma parte cartilaginosa.
Os 2/3 inferiores da cavidade nasal representam a área respiratória, e o 1/3 superior representa a área olfatória. Nessa região, o ar ativa os receptores do olfato durante sua entrada para os pulmões. A redução da olfação é chamada hiposmia, e a perda da olfação é a anosmia. Essas condições podem ser temporárias ou permanentes.
O olfato é importante fator de proteção tanto para o ser humano quanto para os animais. A perda do olfato ou uma grande redução desse sentido pode colocar pessoas em perigo.
Causas de alterações do olfato são infecções respiratórias, gripes e resfriados, rinossinusite crônica, tabagismo.
Você sabia
Além de auxiliarem na filtração do ar que entra nos pulmões, os seios da face, por serem cavidades cheias de ar, tornam a cabeça mais leve e mais fácil de ser sustentada sobre a coluna vertebral.
Faringe
É um órgão tubular com formato aproximado de funil que corresponde a nossa garganta. Serve ao sistema respiratório, dando passagem para o ar, que vai para os pulmões, e para o alimento, que segue em direção ao esôfago, no sistema digestivo.
A cavidade nasal e a cavidade oral (boca) se abrem para a faringe. Além de ser uma passagem para o ar e o alimento, a faringe ainda serve de caixa de ressonância para a voz e contém um órgão linfoide, ou seja, de ação imunológica, que é a tonsila faríngea. Ainda encontramos a tonsila palatina e a tonsila lingual completando um círculo de defesa para o organismo, para o caso de engolirmos ou aspirarmos alguma substância prejudicial ao corpo.
A parte nasal da faringe (nasofaringe) é onde abrem as tubas auditivas, passagens para o ouvido de cada lado da cabeça. Essas passagens permitem compensar a pressão do ar dentro do canal auditivo.
Na parte oral da faringe (orofaringe), encontram-se o par de tonsilas palatinas e o par de tonsilas linguais. A parte mais inferior da faringe corresponde à estrutura da laringe e é chamada parte laríngea (laringofaringe). A laringofaringe e a orofaringe servem aos sistemas respiratório e digestivo.
A faringe termina no esôfago, parte do tubo digestivo que leva o alimento até o estômago.
Sistema respiratório ‒ Parte inferior
Laringe
É a primeira estrutura da parte inferior do sistema respiratório. A laringe é um empilhamento de cartilagens unidas por ligamentos e apresenta diferentes funções. Ela serve de passagem para o ar que entra e sai dos pulmões, e também é o órgão fonador, ou seja, aquele que produz a voz (fonação). Afinal, é na laringe que se encontram as pregas ou cordas vocais. Acima delas, existe um par de pregas vestibulares (pregas vocais falsas).
Isso porque é na laringe que se encontram as pregas vocais ou cordas vocais. Acima delas, existe um par de pregas vestibulares (pregas vocais falsas).
Ainda na laringe, encontramos a epiglote, uma estrutura formada por cartilagem, que tem formato semelhante a uma folha.
A epiglote serve de divisor de águas. Está situada próxima à abertura da laringe. Quando engolimos (deglutição), ela se fecha para que o alimento ou líquido não seja levado para dentro do pulmão (reflexo de deglutição).
Você sabia
Para produção da voz, as pregas vocais se fecham e vibram na passagem do ar. Quando respiramos, elas se abrem para o ar entrar nos pulmões.
As pregas vocais podem sofrer processos inflamatórios ou infecciosos.
Uma consequência de doenças nas pregas vocais é a rouquidão. Causas frequentes de rouquidão são o abuso do cigarro, a presença de substâncias irritantes ou poluentes no ar que entra nos pulmões, além do mau uso frequente da voz. Essas situações podem levar ao aparecimento de nódulos nas pregas vocais e até mesmo o câncer.
Traqueia
É um órgão tubular oco, formado pelo empilhamento de anéis incompletos de cartilagem com formato aproximado da letra C. A traqueia tem cerca de 15 cm a 20 cm de comprimento no adulto, cerca de 2 cm de diâmetro e continua da laringe. Está posicionada na vertical à frente do esôfago. Em sua extremidade inferior, a traqueia termina em bifurcação, dando origem aos brônquios primários ou brônquios principais.
Esses anéis incompletos se abrem em sentido posterior e são completados por uma faixa de musculatura lisa, ou seja, de músculo involuntário (que não está sob o controle da nossa vontade). Os anéis de cartilagem são importantes para manter a passagem do ar aberta durante os movimentos da respiração. Existem entre 16 a 20 anéis cartilaginosos.
A parede muscular da traqueia permite uma discreta variação de seu diâmetro durante a respiração.
A traqueia é revestida por mucosa respiratória, onde encontramos células produtoras de muco e cílios. A ação dos cílios e do muco protege o tubo de passagem do ar, evitando, principalmente, a entrada de poeiras e bactérias.
O muco retém essas partículas, e o movimento dos cílios (batimentos) as empurra, como uma vassoura, para fora da traqueia. Por fim, na garganta, elas são eliminadas pela tosse.
Na região onde a traqueia se bifurca, dando origem aos brônquios principais, existe uma projeção da última cartilagem da traqueia chamada de carina. Nessa região, temos o ponto mais sensível da mucosa respiratória para disparar o reflexo da tosse.
A partir da carina, o diâmetro dos tubos vai se reduzindo a cada nova divisão, dando ao conjunto a aparência de galhos de uma árvore: a árvore brônquica ou bronquial.
Por meio do procedimento chamado traqueostomia, é feita uma abertura cirúrgica na traqueia e colocado um tubo para facilitar a entrada de ar ou diminuir o trajeto do ar até os pulmões. Esse procedimento é realizado especialmente em pacientes em centros de terapia intensiva, que utilizam ventiladores mecânicos (respiradores) por longo tempo (ver figura).
Árvore bronquial
Os anéis incompletos de cartilagem e a parede posterior membranosa da traqueia são encontrados nos ramos da árvore brônquica até os bronquíolos, estruturas com 1 mm de diâmetro ou menos. Nos bronquíolos, são gradativamente substituídos por placas de cartilagem que, nos últimos ramos, desaparecem.
Atenção
Quanto menor a quantidade de cartilagem, maior a quantidade de musculatura lisa (involuntária), o que torna perigosas as situações nas quais esses músculos se contraem, porque fecham a passagem do ar, como acontece nas crises de asma. É o broncoespasmo.
Embora existam pequenas diferenças entre as ramificações do lado direito e esquerdo, a ramificação pode ser descrita para ambos os lados da seguinte forma:
Você sabia
Muitas reações alérgicas provocam a contração dos músculos dos brônquios e bronquíolos. Essa contração é chamada broncoespasmo. Quando isso acontece, o diâmetro da passagem do ar diminui e pode ser tão grave que leva a pessoa à morte se não houver socorro. As causas podem ser substâncias irritantes como cigarro, solventes, tintas e até medicamentos. Infecções e inflamações respiratórias também podem causar broncoespasmo, assim como os exercícios.
Muitas vezes, quando um adulto ou uma criança se engasga e tosse, é comum encontrar quem bata nas costas para ajudar, mas isso não é suficiente para resolver o problema. Pode, inclusive, ser muito grave, porque facilita a aspiração daquilo que causou o engasgo. O correto é realizar a manobra de Heimlich, demonstrada na imagem.
Pulmões
Os pulmões são órgãos pareados com formato aproximado de triângulo, com a base voltada para baixo e o ápice voltado para cima. Ocupam a maior parte do espaço da cavidade intratorácica, e, entre eles, encontra-se o coração. A presença do coração faz com que haja pequenas diferenças entre o pulmão direito e o esquerdo.
Os pulmões são estruturas elásticas de coloração rosada e de aspecto esponjoso pela presença dos alvéolos, sacos microscópicos cheios de ar.
Cada pulmão se apoia sobre metade do músculo diafragma, um músculo em formato de paraquedas aberto e que separa a cavidade torácica da cavidade do abdome.
Os pulmões são envolvidos por uma membrana formada por duas camadas ou dois folhetos. Essa membrana é a pleura (ver figura).
Os dois folhetos que formam a pleura são chamados de:

Pleura parietal, que se adere à parede torácica.

Pleura visceral, que se adere ao tecido pulmonar.
Entre esses folhetos, existe um espaço virtual, a cavidade pleural, preenchida por pequena quantidade de líquido, o líquido pleural. Esse líquido é necessário para que os folhetos da pleura deslizem um sobre o outro na respiração sem produzir atrito, que causaria dor.
Atenção
Qualquer condição que aumente a quantidade desse líquido causa dor e desconforto durante a respiração. Um grande aumento da quantidade de líquido no espaço pleural é chamado derrame pleural.
Cada pulmão é dividido em lobos, e cada lobo é subdivido em segmentos. A divisão em lobos é diferente no pulmão direito e esquerdo. O pulmão direito apresenta três lobos, e o pulmão esquerdo apresenta apenas dois, mas ambos apresentam 10 segmentos pulmonares.
Essa divisão em lobos e segmentos é acompanhada pela ramificação da árvore bronquial.
Brônquios lobares são as ramificações dos brônquios primários que entram em cada lobo pulmonar.
Brônquios segmentares são as subdivisões dos brônquios lobares que entram nos segmentos pulmonares.
Alvéolos
Na extremidade dos bronquíolos terminais, ramificam-se os bronquíolos respiratórios: as primeiras estruturas respiratórias propriamente ditas. Ao redor dos bronquíolos respiratórios, encontramos sacos microscópicos de parede muito fina: os alvéolos.
No interior dos alvéolos, existe uma pequena quantidade de líquido alveolar que mantém suas paredes umedecidas e protegidas do ar. Essa camada de líquido cria uma tensão superficial que proporciona aos alvéolos a tendência a se fechar ou colabar, impedindo a entrada do ar.
O colabamento dos alvéolos não acontece, porque o líquido alveolar apresenta um composto chamado surfactante, que reduz a tensão superficial do líquido alveolar.
Os sacos alveolares estão envolvidos por vasos de diâmetro microscópico, os capilares sanguíneos.
Através dessa rede de capilares arteriais e venosos, o sangue que chega aos pulmões, rico em CO2, sofre o processo de hematose e deixa os pulmões como sangue oxigenado, ou seja, rico em O2.
A troca entre O2 e CO2 entre o ar nos alvéolos e o sangue se dá por difusão através da parede dos alvéolos e da parede dos capilares sanguíneos. Esse conjunto é chamado membrana respiratória.
Para saber mais sobre surfactante, assista ao vídeo a seguir.
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MÓDULO 2
Identificar os eventos relacionados com a mecânica ventilatória
Mecânica da ventilação
A função básica do sistema respiratório é promover a troca gasosa, que garante o abastecimento de O2 para os tecidos realizarem adequadamente suas funções. O fornecimento de O2 depende da constante entrada e saída do ar dos pulmões.
A respiração envolve dois movimentos diferentes do ar:
O movimento de entrada, que é a inspiração.
O movimento de saída do ar, que é a expiração.
Esses eventos dependem de fatores relacionados com a estrutura do corpo e com os próprios gases respiratórios. Alternados, esses movimentos representam o ciclo respiratório.
Os movimentos da respiração dependem da variação da pressão do ar dentro dos pulmões em relação à pressão atmosférica (Patm). Essa pressão do ar é chamada pressão intrapulmonar (PIP) ou pressão alveolar (Palv).
As mudanças de pressão do ar obedecem à Lei de Boyle.
A Lei de Boyle estabelece que a pressão de um gás é inversamente proporcional ao seu volume dentro de um sistema fechado.
A pressão de referência é a atmosférica, a quantidade de força exercida pelos gases do ar ambiente. Ao nível do mar, essa pressão é de 760 mmHg.
Na inspiração, a pressão intrapulmonar diminui, ficando abaixo da pressão atmosférica. Essa diferença de pressão faz com que o ar entre nos pulmões.
Na expiração, acontece o processo inverso.
Essa variação da pressão intrapulmonar é resultado da ativação dos músculos inspiratórios que distendem os pulmões, fazendo com que a pressão interna caia e o ar entre.
Atenção
A inspiração é sempre um processo ativo, depende sempre da ação dos músculos inspiratórios, seja em repouso, seja durante um esforço.
O músculo diafragma é o principal músculo da inspiração, auxiliado pelo grupo dos músculos intercostais externos (ver figura). É responsável por quase todo o esforço inspiratório.
Durante a inspiração em repouso, o músculo diafragma puxa os pulmões para baixo, ao mesmo tempo em que as costelas se movem para cima por ação dos músculos intercostais externos, o que aumenta o diâmetro do tórax.
Essa expansão dos pulmões faz cair a pressão alveolar (Palv) para 758 mmHg, abaixo do valor da pressão atmosférica, de 760 mmHg, e o ar entra nos pulmões.
Comentário
A expressão “alça de balde”, muitas vezes, é utilizada para descrever o movimento das costelas durante a inspiração, porque elas se deslocam para cima e para frente.
Na respiração em repouso, o diafragma desce cerca de 1 cm, o que produz uma diferença de pressão de 1 a 3 mmHg, e permite a entrada de cerca de 500 ml de ar nos pulmões.
Em caso de necessidade, na respiração forçada, o diafragma pode baixar até 10 cm, o que permite a entrada de até 3 L de ar.
Se maior quantidade de ar é necessária para aumentar o aporte de O2, outros músculos entram em ação. São os músculos inspiratórios acessórios, músculos do pescoço e do tronco.
Com a expiração, ocorre algo diferente. Em repouso, a expiração é um processo passivo, resultado do aumento da pressão alveolar e da resposta elástica do tecido pulmonar.
A expiração em repouso se inicia assim que a contração do diafragma termina. A resposta elástica da parede torácica e do tecido pulmonar acontece pela ação de duas forças: retração das fibras elásticas do tecido pulmonar e tensão de superfície do líquido alveolar. A respiração forçada torna a expiração processo ativo, com contração da musculatura expiratória.
Durante a expiração forçada, os músculos expiratórios entram em ação. Esses músculos são a musculatura abdominal e os músculos intercostais internos. Os músculos abdominais, quando se contraem, empurram as vísceras para cima, e elas deslocam o diafragma para cima, facilitando o esvaziamento pulmonar.
Fatores que interferem na ventilação pulmonar
Diferentes fatores internos do pulmão interferem na ventilação.
O primeiro desses fatores é a complacência pulmonar, entendida como a maior ou menor facilidade de distensão da parede torácica e dos pulmões.
Dois fatores estão diretamente relacionados à complacência: a elasticidade do tecido pulmonar e a tensão superficial nos alvéolos.
A elasticidade do tecido pulmonar é resultado da quantidade de fibras elásticas encontradas no tecido pulmonar nos alvéolos. A redução da tensão superficial nos alvéolos ocorre por ação do surfactante, sobre o qual discutiremos mais adiante.
A complacência pulmonar pode ser reduzida pela presença de cicatrizes no tecido pulmonar, e as causas mais frequentes são lesões provocadas por:
- Tuberculose;
- Enrijecimento da caixa torácica;
- Fraqueza ou paralisia dos músculos intercostais;
- Doença articular na junção das costelas com a coluna vertebral;
- Deformidade da coluna vertebral na região torácica.
Outro fator importante é a perda de fibras elásticas no tecido pulmonar. Uma situação que apresenta essa característica é o enfisema pulmonar, porque o tabagismo de longa data leva à destruição das paredes dos alvéolos. Isso cria espaços cheios de ar dentro do pulmão, e esse ar não participa da respiração.
O segundo fator é a tensão superficial do líquido alveolar, resultado da interface líquido-ar no interior dos alvéolos. Essa tensão de superfície é parcialmente responsável pela tendência dos alvéolos de colabar. Entende-se colabar como o fechamento dos alvéolos no fim da expiração. Os alvéolos colabados obrigam a um maior esforço na inspiração seguinte.
A função essencial do surfactante é reduzir a tensão superficial nos alvéolos, facilitando a próxima inspiração. É um composto de fosfolipídios e lipoproteínas. A redução ou alteração do surfactante torna a respiração difícil.
Essa condição caracteriza a chamada síndrome da angústia respiratória, que afeta recém-nascidos prematuros. Podemos dizer que o surfactante diminui o esforço respiratório pela diminuição da tensão superficial alveolar.
O terceiro fator é a resistência das vias aéreas. Já sabemos que, para o ar entrar nos pulmões durante a inspiração, é preciso criar uma diferença de pressão entre o ar alveolar e o ar ambiente. Mas o fluxo de ar precisa vencer a resistência das vias respiratórias, principalmente daquelas de menor diâmetro, como os bronquíolos.
Na inspiração, com o os pulmões são distendidos, o diâmetro dos tubos respiratórios aumenta e faz diminuir a resistência à passagem do ar.
Na expiração, o diâmetro das vias respiratórias diminui, o que faz aumentar a resistência à passagem do ar.
Outros fatores interferem no diâmetro dos ramos da árvore brônquica: a contração e o relaxamento da musculatura dessas estruturas. Quando inspiramos, um comando nervoso faz esse músculo relaxar, o que facilita o aumento do diâmetro das vias respiratórias. Em algumas situações, essa musculatura contrai e causa uma redução do diâmetro das vias aéreas.
Relaxamento da musculatura = broncodilatação
Contração da musculatura = broncoconstrição
Qualquer situação que reduza o diâmetro das vias aéreas, especialmente dos bronquíolos, aumenta a resistência à passagem do ar. Essa redução pode ser causada por obstrução devido à presença de secreção ou corpo estranho (broncoconstrição).
Para saber mais sobre Lei de Boyle, assista ao vídeo a seguir.
Padrões respiratórios
Já sabemos que a respiração se compõe de um ciclo respiratório de inspiração e expiração, o qual acontece pela diferença de pressão entre o ar alveolar e o ar ambiente. A inspiração é sempre um processo ativo com ativação de músculos inspiratórios.
O uso desses músculos determina padrões respiratórios. São descritos dois padrões:
Padrão costal ou torácico
Padrão mais superficial, em que a musculatura concentra a respiração no movimento das costelas. São utilizados, basicamente, os músculos intercostais internos.
Padrão diafragmático ou abdominal
Padrão de respiração profunda, considerado o mais adequado. Representa a respiração correta, “de barriga”. Aqui, a ação muscular principal é do diafragma, que empurra as vísceras do abdome para baixo e projeta a barriga para frente, se a pessoa está em pé, ou para cima, se a pessoa está deitada.
É frequente encontrar um padrão respiratório misto associando o padrão diafragmático ao padrão costal. Os movimentos respiratórios podem ser modificados para cantar e tocar um instrumento de sopro ou para falar.
A respiração em repouso é chamada eupneia e tem uma frequência considerada normal para o adulto em repouso: de 12 a 18 ciclos respiratórios por minuto. Um ciclo respiratório consiste em uma inspiração e uma expiração.
Atenção
Frequência Respiratória (FR) = ciclo/min
A Frequência Respiratória (FR) normal em repouso varia com a idade.
Adulto saudável em repouso – FR = 12 a 18 ciclos/min
Criança até 2 anos saudável em repouso – FR = 25 a 32 ciclos/min
Recém-nascido saudável em repouso – FR = 30 a 60 ciclos/min
Considerando a respiração do adulto em repouso, dizemos que o aumento da FR acima de 18 ciclos/min caracteriza a condição de taquipneia, e a diminuição da FR abaixo de 12 ciclos/min caracteriza a condição de bradipneia.
Uma situação que pode ser provocada voluntariamente é a apneia: a parada da respiração. Esta, por nossa vontade, pode acontecer no mergulho livre ou em situações de emergências para evitar a inspiração de fumaça e vapores tóxicos ou interromper a olfação.
Vejamos outras condições da respiração:
É a condição que aumenta a profundidade da respiração ou sua duração. Em geral, a hiperventilação é utilizada para diminuir a quantidade de gás carbônico (CO2) no sangue.
É a condição que diminui a profundidade da respiração ou sua duração, de modo que não haja oferta suficiente de ar para a função respiratória. Em geral, a hipoventilação é acompanhada da diminuição de oxigênio (O2).
Outros tipos de respiração (respiração modificada)
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MÓDULO 3
Descrever os processos de controle neural da respiração
Controle neural
A ventilação alveolar, ou seja, a quantidade de ar que entra e sai dos alvéolos durante a respiração, é controlada pelo sistema nervoso para manter os níveis adequados de oxigênio (O2) e gás carbônico (CO2) no sangue.
Essa quantidade de gases respiratórios é a pressão parcial desses gases (O2 e CO2), calculada de acordo com a Lei de Dalton, que conheceremos mais adiante.
Na respiração em repouso, durante um ciclo respiratório, são movimentados 500 ml de ar nos pulmões.
Essa quantidade de ar é chamada volume corrente.
Já sabemos que a Frequência Respiratória (FR) normal em repouso é de 12 ciclos/minuto.
Assim, em 1 minuto, o volume de ar mobilizado é de 500 X 12 = 6000 ml/min.
Sabemos que nem todo o volume de ar inspirado é aproveitado nos alvéolos. Cerca de 70% do volume corrente é aproveitado, ou seja, 350 ml.
Então, em 1 minuto, a ventilação alveolar é de 350 X 12 = 4200 ml/min.
Cada ciclo respiratório acontece por ação dos músculos inspiratórios, em repouso, e por ação dos músculos inspiratórios e expiratórios na respiração forçada. Esses músculos são ativados pelo sistema nervoso para atender às necessidades do corpo.
Atenção
Durante o exercício físico, por exemplo, o volume de ar necessário pode aumentar em 15 vezes no adulto saudável, mas, em atletas de elite em atividade de resistência, esse aumento pode ser de 30 vezes.
Para que isso aconteça, o sistema nervoso utiliza diferentes estruturas que vamos conhecer agora.
Centro respiratório
É um grupo de neurônios (células nervosas) localizados a cada lado na base do encéfalo, dividido em três conjuntos funcionais distribuídos por duas regiões distintas: o bulbo e a ponte.
O centro respiratório bulbar recebe esse nome, porque está localizado na região chamada bulbo. Ele é dividido em dois grupos funcionais:
Ativa a musculatura inspiratória. Durante a respiração em repouso, esse núcleo estimula o músculo diafragma por meio de nervos frênicos e ativa os músculos intercostais externos por meio de nervos intercostais.
Essa estimulação é feita em pulsos, dura aproximadamente 2 segundos e cessa. Segue um intervalo de 3 segundos, quando acontece a expiração, que, em repouso, é um processo passivo. Dessa maneira, produz-se o ritmo respiratório básico.
Permanece inativo durante a respiração em repouso e pode ativar a musculatura inspiratória e expiratória na respiração forçada.
Recebe estimulação do GRD para ativar os músculos inspiratórios acessórios (do pescoço e do tórax) e, de modo independente, ativa os músculos expiratórios, os intercostais internos e os abdominais.
Assim, a respiração forçada depende da ação integrada dos núcleos GRD e GRV.
O Grupo Respiratório Pontinho (GRD) ou pneumotáxico recebe esse nome, porque está localizado na região chamada ponte. Controla a frequência e o padrão respiratórios, regulando a ação do GRD e, com isso, controla a intensidade da inspiração
Como sua estimulação limita a inspiração, indiretamente, esse grupo atua no aumento da FR.
O GRP atua na inspiração e na expiração com ação de regulação, modificando o ritmo básico da respiração durante o repouso, o sono e a atividade física.
Pelo reflexo de Hering-Breuer, o volume corrente não excede 1500 ml em adultos durante o exercício, por exemplo.
Embora a função respiratória seja regulada de modo involuntário, por causa de conexões do córtex cerebral com o GRD, é possível modificar a respiração voluntariamente. Isso acontece no mergulho livre, que é realizado em apneia (parada respiratória), quando tentamos impedir que fumaça ou substância irritante entre nas vias aéreas, ou mesmo quando cantamos.
Mas essa interrupção da respiração é bastante breve, porque o cérebro apresenta receptores que medem o nível de oxigenação do sangue e obrigam a retomada da respiração. Além disso, áreas relacionadas às emoções também atuam sobre o centro respiratório.
A imagem a seguir apresenta os conjuntos funcionais do grupo de neurônios:
Reflexo de Hering-Breuer
É um reflexo de proteção que impede que o pulmão seja excessivamente insuflado. Pequenos receptores nervosos na parede dos brônquios e bronquíolos detectam o excesso de insuflação e mandam um sinal de alerta para o GRD, que interrompe a inspiração.
Quimiorreceptores
Quimiorreceptores são estruturas nervosas sensitivas, localizadas na artéria aorta próximo ao coração (receptores periféricos) ou em região profunda do cérebro (receptores centrais).
Esses receptores são sensíveis ao aumento da pressão parcial de gás carbônico (PCO2) e de íons hidrogênio (H+) e à diminuição da pressão parcial de oxigênio (PO2).
A PCO2 no sangue arterial é de 40 mmHg. O mais discreto aumento desse valor ativa os quimiorreceptores centrais, que, por sua vez, estimulam o GRD. Por fim, o GRD aumenta a frequência e a profundidade da respiração.
Esse padrão respiratório rápido e profundo é chamado hiperventilação, que aumenta a PO2 e diminui a PCO2.
O aumento da PCO2 é chamado hipercapnia, e a redução da PCO2 é chamada hipocapnia.
Atenção
Os quimiorreceptores reagem mais prontamente ao aumento da PCO2 do que à queda da PO2.
A PO2 no sangue arterial tem valor de 100 mmHg, e suas alterações causam respostas bastante diferentes em relação à PCO2.
Ocorrendo queda da PO2 no sangue arterial até valores de 60 mmHg, os quimiorreceptores periféricos são estimulados e ativados e atuam sobre o GRD. Mas a queda da PO2 diminui o funcionamento dos quimiorreceptores centrais e do GRD, que envia menos estímulos ativadores para os músculos inspiratórios."
Atenção
Se essa queda continua, a respiração pode parar por completo, levando a um desmaio e mesmo ao óbito. A queda da PO2 é chamada hipóxia.
Existem diferentes tipos de hipóxia, como estudaremos mais adiante.
O tabagismo prejudica a respiração por diferentes motivos:
- A nicotina provoca diminuição do diâmetro dos brônquios e bronquíolos, aumentando a resistência das vias aéreas.
- O monóxido de carbono se liga à hemoglobina em uma ligação forte e faz com que as hemácias percam capacidade de transporte de oxigênio.
Além disso, as substâncias do cigarro são irritantes para as vias aéreas e aumentam a produção de muco, ao mesmo tempo que destroem os cílios que funcionam como vassoura para limpeza das vias aéreas. A secreção acumulada obstrui em parte o fluxo aéreo.
O tabagismo de longa data também provoca destruição das fibras elásticas do tecido pulmonar, acabando com as paredes de alvéolos, o que cria grandes áreas cheias de ar que não participa da troca gasosa.
Sistema límbico
É um circuito neuronal que inclui áreas muito profundas e primitivas do cérebro e está relacionado à manifestação das emoções.
Em geral, as situações cotidianas que causam estado de ansiedade ou estresse emocional modificam a respiração, aumentando sua frequência e profundidade. Isso pode acontecer, por exemplo, nas relações interpessoais – como participar de uma entrevista – ou nas tarefas do trabalho – como fazer uma apresentação para a equipe.
O sistema límbico tem relação funcional com estruturas que controlam as funções viscerais. Dessa maneira, sentimentos são traduzidos em emoções por modificação de diferentes funções do corpo.
Exercício e respostas neurais
Quando realizamos exercícios físicos, acontece uma resposta do sistema circulatório em conjunto com o sistema respiratório. Isso ocorre porque o coração passa a bombear o sangue com mais intensidade, aumentando o fluxo para os pulmões.
O exercício físico aumenta o consumo de O2 e, em consequência, a produção de CO2. No início do exercício, a respiração aumenta muito rápido e, gradativamente, vai se adaptando, de modo que o aumento da respiração segue de forma mais lenta.
O tipo de exercício influencia as mudanças da respiração.
O exercício moderado torna a respiração mais profunda.
O exercício mais vigoroso e intenso também aumenta a Frequência Respiratória.
O aumento inicial e brusco da respiração é consequência da ativação do GRD. Parte dos estímulos que ativam o GRD tem origem em receptores nos músculos e nas articulações.
O aumento gradativo da respiração que se segue é consequência da ativação dos quimiorreceptores, causada pela discreta diminuição da PO2 e pelo discreto aumento da PCO2 em resposta ao aumento do consumo de O2 pelos músculos.
Ao fim do exercício, acontece o inverso. A respiração, inicialmente, sofre uma redução brusca e segue reduzindo até o nível de repouso.
Para saber mais sobre os benefícios do exercício físico, assista ao vídeo a seguir.
Outros fatores
Dor
A dor em pontada, dor rápida e intensa de curta duração, provoca breve apneia. A dores de maior duração provocam aumento da FR, e algumas dores viscerais (originadas nos órgãos) podem reduzir a FR.
Temperatura corporal
A elevação da temperatura corporal, por febre ou por exercício físico, aumenta a FR. O inverso é verdadeiro, e o contato brusco com água fria causa breve apneia.
Irritação das vias respiratórias
A presença de irritantes físicos ou químicos no interior das vias respiratórias provoca rápida apneia e reflexo de tosse ou espirro.
Pressão Arterial
Alterações bruscas da Pressão Arterial (PA) causam modificações da FR. Aumento brusco da PA causa redução da FR. O inverso é verdadeiro.
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MÓDULO 4
Identificar aspectos da fisiologia da aviação e do mergulho
Leis e fatos relacionados aos gases respiratórios
Duas situações de extremos, a aviação e o mergulho, são marcadas por variações importantes das pressões dos gases respiratórios. Essas variações trazem consequências profundas para o funcionamento do corpo e, muitas vezes, representam risco à homeostase e à sobrevivência.
Dois postulados precisam ser lembrados para compreender essas condições: Lei de Dalton e Lei de Henry.
Com base nos princípios apresentados, podemos compreender que:
Lei de Dalton
Estabelece que a pressão parcial de um gás dentro de uma mistura de gases, como o ar atmosférico, é igual à pressão exercida por esse gás individualmente.
Lei de Henry
Postula que o volume de um gás dissolvido em um líquido é proporcional à pressão parcial do gás sobre o líquido e sua solubilidade. Assim, a quantidade de um gás dissolvido em um líquido é diretamente proporcional à sua pressão parcial sobre o líquido e à facilidade de dissolver em água, por exemplo.
Quanto maior a pressão de um gás em um líquido e quanto mais alta sua solubilidade, maior é a quantidade de gás dissolvido.
A troca entre oxigênio (O2) e gás carbônico (CO2), entre o ar nos alvéolos e o ar atmosférico, acontece por difusão passiva: da maior para a menor concentração. Quanto maior essa diferença, maior será a velocidade de difusão.
Como o ar alveolar apresenta menos O2 e mais CO2 do que o ar atmosférico que chega a cada inspiração, é fácil compreender esse processo de troca. Esses valores são 13,6% e 20,9% para O2, e 5,2% e 0,04% para CO2, respectivamente.
O ar atmosférico é uma mistura de gases que se comportam de acordo com a Lei de Dalton, que já conhecemos. Essa mistura gasosa é formada por nitrogênio (N2), oxigênio (O2), argônio (Ar), gás carbônico (CO2), vapor de água (H2O) e outros gases.
Como sabemos, a pressão atmosférica (Patm) é igual a 760 mmHg, o que representa a soma da pressão de cada um desses gases.
Individualmente, no ar atmosférico, temos:
PN2 = 597,4 mmHg ou 78,6%
PO2 = 158,8 mmHg ou 20,9%
PCO2 = 0,3 mmHg ou 0,04%
Atenção
A solubilidade do CO2 é 24 vezes maior no sangue do que a solubilidade do O2. Apesar de o N2 prevalecer na composição do ar atmosférico, ao nível do mar, sua solubilidade é baixa. Conforme a pressão total do ar aumenta, também aumenta a pressão parcial de todos os gases da mistura. Isso é especialmente perigoso quando se respira ar comprimido, como no mergulho autônomo.
Fisiologia da aviação
As condições a que a aviação submete os seres humanos são variadas.
A aviação comercial é diferente da aviação militar, e ambas são distintas do voo espacial.
Em comum, elas apresentam os efeitos da alta altitude e da baixa pressão dos gases. Ainda podemos somar a essas condições as forças de aceleração e a ausência de gravidade.
Quanto maior a altitude, menor a pressão atmosférica e, assim, menor a pressão parcial dos gases dessa mistura.
Nos alvéolos, a PO2 diminui ainda mais pela presença do CO2. Com a variação da PO2, a saturação de O2 (SO2) também varia no sangue. Aqui, vamos discutir apenas sobre as condições do sangue arterial.
Nas grandes altitudes e nas altitudes extremas, usa-se, por segurança, suplemento de oxigênio puro.
A tabela a seguir apresenta as variações de pressão do ar de acordo com a altitude:
Saturação
É a quantidade de gás dissolvida em um líquido. O líquido tende a buscar o equilíbrio na solubilidade de um gás. Assim, a mesma quantidade de gás que escapa do líquido é a mesma que entra e se dissolve no líquido.
| Altitude (m) |
Patm (mmHg) |
PO2 ar atm (mmHg) |
PCO2 ar alveolar (mmHg) |
PO2 ar alveolar (mmHg) |
|---|---|---|---|---|
| Nível do mar | 760 | 159 | 40 | 104 |
| 3 mil | 523 | 110 | 38 | 67 |
| 9 mil | 226 | 47 | 24 | 18 |
| 12 mil | 141 | 29 | - | - |
| 15 mil | 87 | 18 | - | - |
É indiscutível que, para a aviação, o fator mais importante é a redução da PO2, que leva o corpo à situação de hipóxia. No caso de afetar o piloto, coloca em risco sua capacidade de tomar decisões e ameaça a segurança dele, da tripulação e dos passageiros, da aeronave e até mesmo das pessoas e estruturas em terra.
Existem diferentes causas de hipóxia, e quase todas podem representar risco na aviação comercial ou militar, especialmente em aeronaves não pressurizadas.
Tipos de hipóxia
Acontece por oferta reduzida ou insuficiente de oxigênio no ar alveolar, o que resulta em menos O2 nos tecidos. Em geral, pode ser resultado de obstrução de vias aéreas por secreção ou corpo estranho, por exemplo.
Para a aviação, está relacionada, em especial, com a menor PO2, que diminui proporcionalmente ao aumento da altitude.
Dificuldade de transportar O2 suficiente para os tecidos.
Está relacionada a fatores do sangue, e não do ar, como condições que afetam a hemácia. É possível haver redução ou disfunção de hemácias. Pode ser causada por anemia, hemorragia ou envenenamento por monóxido de carbono (CO).
Associada ao fluxo de sangue que se torna insuficiente para transportar o oxigênio até os tecidos.
Em geral, está relacionada com doenças cardíacas, choque ou obstrução de vasos arteriais.
Em aviação, pode estar vinculada ao aumento das forças G positivas e às baixas temperaturas.
Está relacionada à dificuldade das células para utilizar o oxigênio que chega pelo sangue.
É uma alteração da respiração celular. A causa comum é o uso de drogas, como narcóticos, bebida alcóolica e alguns venenos.
Estudos sobre acidentes aéreos demonstraram que o consumo de 280 ml de bebida alcóolica durante o voo acrescenta 600 metros de altitude à altitude real e pode trazer consequências nocivas.
Conhecendo melhor a hipóxia, podemos concluir que voos em grande altitude, em aeronaves não pressurizadas e sem suplemento de O2, representam uma situação de grande risco.
Os sintomas de hipóxia podem variar de indivíduo a indivíduo de acordo com características pessoais, estado de saúde e condicionamento. Entre esses sintomas, estão:
- Euforia e dificuldade de concentração;
- Lentidão de movimentos e falta de coordenação motora;
- Perda da autocrítica e aumento da autoconfiança;
- Dor de cabeça e sonolência;
- Aumento da respiração e sensação de falta de ar (dispneia);
- Diminuição da capacidade visual e tontura;
- Diminuição da capacidade visual.
Tempo de consciência útil
Considerando a situação da hipóxia na aviação, é preciso discutir sobre o chamado Tempo de Consciência Útil (TCU).
O Tempo de Consciência Útil é o período que o piloto e a tripulação têm para tomar decisões e realizar tarefas capazes de salvar a vida deles e dos passageiros, a aeronave e até mesmo evitar um acidente em terra.
O TCU é o tempo que o piloto tem para, por exemplo, colocar a máscara de O2 e baixar a altitude da aeronave, entre outras manobras que possam ser necessárias.
Quanto mais próximo o final do TCU, menor é a capacidade mental e física do piloto e da tripulação para tomar decisões.
Esta é uma janela de oportunidade que se torna mais estreita à medida que aumenta a altitude. A despressurização rápida reduz o TCU à metade.
A tabela a seguir apresenta a relação entre o tempo dessa janela de oportunidade e o aumento da altitude:
| Altitude | Tempo |
|---|---|
| 4.500 m | 30 minutos |
| 5.500 m | 20 a 30 minutos |
| 7.500 m | 3 a 5 minutos |
| 10.000 m | 30 a 60 segundos |
| 12.000 m | 15 a 20 segundos |
| 15.000 m | 9 a 15 segundos |
Esse tempo varia de acordo com aspectos individuais, condição de saúde e condicionamento físico, como já mencionado.
A aviação comercial utiliza faixa de altitude entre 9 mil e 13 mil metros, com altitude média de 11 mil metros. Nessa altitude, o avião trafega pela estratosfera (11 a 50 mil metros de altitude), onde o ar é bastante rarefeito, pobre em (O2) e rico em ozônio (O3). Aqui, a temperatura pode atingir – 50°C. Essa opção se deve à estabilidade da atmosfera e à economia de combustível pela menor resistência à aeronave.
Para a criação de uma atmosfera interna segura, a pressurização da aeronave é obrigatória a partir da altitude de voo de 3 mil metros.
A suplementação de oxigênio durante o voo comercial obedece a normas nacionais e internacionais.
Somada às mudanças de altitude, a velocidade de pressurização e despressurização durante a decolagem e a aterrissagem pode trazer desconforto a alguns passageiros por causa da diferença de pressão, por exemplo, dentro e fora do ouvido.
É possível que eles tenham sensação de ouvido “tampado”, alteração da audição, náusea. Mascar chiclete, fazer a manobra de descompressão e engolir saliva ajudam a aliviar o desconforto. Esses eventos são mais comuns nas pessoas que realizam voos gripadas.
Fisiologia do mergulho
Em oposição ao que acontece na aviação, a maior preocupação no mergulho é com os aumentos da pressão ambiente à medida que aumenta a profundidade.
O tipo de mergulho praticado também tem consequências diferentes para o corpo humano.
Outras leis e outros fatos relacionados aos gases respiratórios
À medida que a profundidade aumenta, o ar precisa ser fornecido sob alta pressão, o que eleva a pressão do ar alveolar e sua interface com o sangue.
Essa condição é chamada hiperbarismo.
A cada 10 metros de profundidade de descida, a pressão ambiente exercida sobre o mergulhador aumenta em 1 atm (760 mmHg).
A 20 metros de profundidade, a pressão é de 3 atm, e, a 40 metros, essa pressão é igual a 5 atm.
Já conhecemos a Lei de Boyle, que afirma: em um sistema fechado, o aumento da pressão causa redução inversamente proporcional ao volume dos gases.
Assim, temos o seguinte resultado:
| Profundidade (m) | Pressão (atm) | Volume (L) |
|---|---|---|
| 0 (nível do mar) | 1 | 1 |
| 10 | 2 | 0,5 |
| 20 | 3 | 0,333 |
| 40 | 5 | 0,2 |
| 50 | 6 | 0,1667 |
| 60 | 7 | 0,1429 |
| 90 | 10 | 0,1 |
Para saber mais sobre as respostas à profundidade, assista ao vídeo a seguir.
Tipos de mergulho
Mergulho livre ou em apneia
Mergulho sem uso de equipamento de suplementação de oxigênio.
Mergulho autônomo
Mergulho com uso de equipamento de suplementação de oxigênio. A mistura nos cilindros de suplementação pode ser a ar comprimido ou a hélio.
O mergulho autônomo é classificado como mergulho raso até a profundidade de 50 metros.
O mergulho profundo é aquele realizado além da profundidade de 50 metros.
Comentário
A maioria dos mergulhos comerciais é realizada em profundidades de 50 a 90 metros. Nessa faixa de profundidade, é obrigatório o uso de Mistura Respiratória Artificial (MRA).
São chamados de mergulho de intervenção.
Algumas situações levam ao mergulho profundo para além de 90 metros. Nessas situações, é preciso treinamento específico e desenvolvimento de mergulho saturado com uso de câmara de vida. A profundidade extrema é de até 300 metros.
Em algumas situações especiais ou perigosas, é obrigatório o mergulho dependente, ou seja, com uso de mangueira ou umbilical para fornecimento da mistura respiratória.
Mergulho em apneia
Nesta modalidade de mergulho, todas as respostas do corpo são de adaptação à economia de oxigênio (O2) pela apneia. O fluxo de sangue é desviado em favor das vísceras nobres: cérebro, coração e pulmões.
Antes do início do mergulho, é realizada uma hiperinsuflação para aumentar o estoque de ar nos pulmões, o que aumenta a pressão intratorácica e permite estratégias de compensação das pressões. Conforme a profundidade aumenta, a pressão externa aumenta, e a pressão intratorácica, inicialmente alta, equilibra-se.
Iniciam-se, então, as compensações do sistema circulatório, reduzindo o fluxo sanguíneo das extremidades para os órgãos nobres. A Pressão Arterial tende a diminuir com a frequência cardíaca.
O mergulho vai consumindo o O2 estocado sem renovação por conta da apneia. A duração do mergulho será inversamente proporcional à taxa de metabolismo do mergulhador.
Como no início do mergulho foi feita uma hiperventilação, houve aumento do estoque de O2 e redução de CO2. Essa manobra desativa parcialmente o sistema de alarme dos quimiorreceptores, que reagem ao aumento da PCO2. Por isso, o mergulhador ganha fôlego.
Mas, conforme o O2 vai sendo consumido sem renovação, começam novas estratégias de compensação, e dispara o alarme no cérebro. Inicialmente, os vasos sanguíneos do cérebro dilatam para tentar aumentar a chegada de O2, mas, por causa da apneia, isso não acontece. O cérebro, então, desliga o sistema, e o mergulhador desmaia.
Nesse momento, a apneia voluntária é interrompida, e o sistema de emergência faz o mergulhador desacordado respirar, realizando uma inspiração profunda, o que causa afogamento.
Mergulho autônomo
O mergulho autônomo elimina os riscos da apneia, mas traz a necessidade de outras adaptações do corpo humano ao tempo aumentado na profundidade, expondo o corpo à alta pressão e à baixa temperatura. Além disso, a limitação da visão e da mobilidade acrescenta novas variáveis aos riscos potenciais.
A necessidade de respirar ar comprimido ou outra mistura respiratória sob pressão nos lembra do postulado da Lei de Henry sobre a solubilidade dos gases em meio líquido.
Uma das mais danosas consequências é a dissolução do N2, agora diluído no sangue sob grande pressão, que penetra nos tecidos humanos e a eles se liga. A preferência do N2 é por tecidos que contenham algum percentual de lipídeos, como sistema nervoso, tecido adiposo, músculos e articulações.
Na profundidade de 30 metros e com pressão de 4 atmosferas, bastam 17 minutos de exposição para que se iniciem os efeitos de toxidade do N2. É a narcose por nitrogênio.
Seus sinais iniciais podem ser euforia e excesso de autoconfiança. Conforme o mergulho continua, uma maior quantidade de N2 se liga aos tecidos, o que, no sistema nervoso, leva à dificuldade de transmissão dos impulsos nervosos.
Surgem alterações como:
- Redução da capacidade visual e auditiva;
- Redução da destreza manual e coordenação motora;
- Discreta paralisia facial;
- Aumento do tempo de reação;
- Dificuldade para obedecer a ordens.
Conforme a pressão externa vai diminuindo em direção à superfície, os gases vão sendo descomprimidos dentro dos tecidos por causa da pressão, que altera sua solubilidade.
É o mesmo que acontece quando abrimos uma garrafa de champanhe. No momento que retiramos a rolha, a pressão no interior da garrafa diminui, e o gás diluído na bebida escapa para a atmosfera.
Viajar de avião após longos períodos de mergulho ou após mergulho profundo aumenta o risco de doença descompressiva, porque o corpo vai da pressão aumentada para a pressão diminuída. É recomendado evitar viajar de avião nas primeiras 12/24 horas após mergulhos repetitivos.
Doença descompressiva
Formação de bolhas de gases no sangue que ocorrerá durante a subida de retorno à superfície, se não forem respeitadas as normas de descompressão adequadas ao tempo e à profundidade do mergulho. Essa situação está relacionada à Lei de Henry.
No corpo humano, tais bolhas podem causar dor, inchaço, embolia (obstrução por bolha), tontura e sintomas semelhantes aos provocados pelo Acidente Vascular Cerebral.
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Conclusão
Considerações Finais
Como vimos, o sistema respiratório é responsável por uma variedade de funções que, em conjunto, contribuem para a homeostase e para adaptação do corpo humano a diferentes demandas, seja por conta da atividade cotidiana, por esforços físicos, seja pelo desafio de sobreviver em condições ambientais desfavoráveis, como as grandes altitudes e as grandes profundidades.
As diferentes estratégias de adaptação do sistema respiratório a uma oferta inadequada de oxigênio demonstram a busca do corpo pelo equilíbrio do meio interno.
Fatores externos relacionados a hábitos de vida podem prejudicar severamente esses mecanismos de adaptação.
Podcast
CONQUISTAS
Você atingiu os seguintes objetivos:
Descreveu a anatomia do sistema respiratório e seus principais componentes
Identificou os eventos relacionados com a mecânica ventilatória
Descreveu os processos de controle neural da respiração
Identificou aspectos da fisiologia da aviação e do mergulho