Princípios químicos da Bioquímica. Importância da água para os seres vivos. Bioquímica e
a condição vital. Acidez e basicidade de soluções aquosas. Tamponamento em sistemas
biológicos.
PROPÓSITO
Discutir os conceitos e compreender os princípios bioquímicos é importante para entender
a vida em nível molecular, motivo pelo qual tal disciplina é basilar na formação de
profissionais das áreas da saúde e das ciências biológicas e tecnológicas.
OBJETIVOS
Módulo 1
Reconhecer os princípios químicos da Bioquímica e a
classificação das biomoléculas
Módulo 2
Identificar a diferença entre organismos vivos e matéria
inanimada, bem como a importância da água nos sistemas biológicos
Módulo 3
Identificar acidez, basicidade e a aplicação desses conceitos na
manutenção do pH nos meios biológicos
Introdução
Neste tema, iniciaremos os estudos no fantástico mundo da Bioquímica. Você já parou para
pensar em como é possível um conjunto de moléculas inanimadas, ao interagir entre si,
ser capaz de permitir a manutenção e perpetuação da vida? A resposta para esse
questionamento é dada pela área da ciência conhecida como Bioquímica — como o próprio
nome já sugere, a “química da vida”.
A Bioquímica é uma ciência muito recente, que surgiu em meados do século XX. Tem suas
origens tanto nos conhecimentos da Química como da Biologia, particularmente no
interesse do homem em compreender as transformações que ocorrem nos organismos vivos,
responsáveis por sua origem, crescimento e desenvolvimento.
Os conhecimentos de Bioquímica são fundamentais para os profissionais da área da saúde,
profissionais do ramo da tecnologia e todas as pessoas que tenham curiosidade sobre a
própria vida.
MÓDULO 1
Reconhecer os princípios químicos da
Bioquímica e a classificação das biomoléculas
PRINCÍPIOS QUÍMICOS DA BIOQUÍMICA
O átomo
Para que possamos compreender os princípios químicos da Bioquímica, bem como a
complexidade das biomoléculas que constituem os seres vivos, devemos lançar o olhar, em
primeiro lugar, sobre a partícula microscópica responsável pela formação de toda e
qualquer matéria: o átomo. Por muito tempo, acreditou-se que o átomo
era indivisível, ou
seja, a menor partícula existente. Essa teoria se iniciou na Grécia Antiga, com o
filósofo Leucipo, e foi defendida por Demócrito no período compreendido entre os anos
460 a.C. e 370 a.C.
Leucipo
Leucipo de Abdera foi um filósofo grego. Tradicionalmente, ele é considerado
o mestre de Demócrito de Abdera e, talvez, o verdadeiro criador do atomismo,
que relatava que uma matéria pode ser dividida até chegar a uma pequena
partícula indivisível chamada átomo.
Demócrito
Demócrito foi discípulo e depois sucessor de Leucipo de Abdera. Sua fama
decorre do fato de ele ter sido o maior expoente da teoria atômica ou do
atomismo. De acordo com essa teoria, tudo o que existe é composto por
elementos indivisíveis chamados átomos (do grego "a", negação, e "tomo",
divisível. Átomo = indivisível).
No entanto, com a ascensão da ciência moderna e os avanços tecnológicos, várias teorias
atômicas foram formuladas a fim de explicar o átomo, sua estrutura e suas propriedades,
tais como a teoria de Dalton, Thomson, Rutherford, Rutherford-Bohr e
Schrödinger.
Para saber mais sobre cada modelo, suas diferenças e
respectivas contribuições para a formulação do modelo atômico atualmente aceito, assista
ao vídeo a seguir:
O modelo atômico atualmente aceito é o proposto por Schrödinger. Nele, o átomo apresenta
duas regiões bem definidas:
Clique nas informações a
seguir.Clique nas informações a
seguir.
Formada por uma nuvem de partículas de carga negativa (elétrons) que circunda o
núcleo e que se mantém conectada a ele por meio da força eletromagnética.
Sendo assim, o átomo não é indivisível, mas
constituído por partículas ainda menores (prótons, nêutrons e elétrons) genericamente
denominadas partículas subatômicas.
Átomo e suas partículas
subatômicas.
Dentre as propriedades exibidas pelo átomo, a mais importante é o número de prótons
presentes em seu núcleo. Essa informação recebe o nome de número
atômico, sendo
representada pela letra Z. O número atômico é a identidade de um átomo,
ou seja, é ele
que diferencia o átomo de oxigênio do átomo de platina, por exemplo. É por meio dele que
os elementos químicos (conjunto de um mesmo tipo de átomo) são ordenados na tabela
periódica.
Outra propriedade atômica importante diz respeito ao número de massa,
que é representado
pela letra A. Essa propriedade expressa o somatório do número de
prótons (Z) e o número
de nêutrons de determinado elemento, sendo sua unidade de medida u
(unidade de massa) ou
g/mol. Como os elétrons apresentam massa muito pequena (cerca de 1.840
vezes menor que a
massa dos prótons e nêutrons), assume-se que ela é desprezível e, por isso, não está
inclusa no cálculo da soma das massas. Logo: A = Z + n.
As moléculas
Uma molécula pode ser definida como um conjunto de átomos, iguais ou diferentes, unidos
por meio de ligações do tipo covalente. É uma espécie química eletronicamente neutra,
que consiste na menor unidade que representa uma substância química.
Pareceu confuso? Vamos tomar como exemplo a molécula da água
(H2O).
A água é constituída por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. Esses átomos,
individualmente, não apresentam as características da água. No entanto, quando
combinados, dão origem à molécula da água que representa a menor parte da substância
cujas propriedades já são exibidas.
Molécula da
água.
O nível de complexidade das moléculas varia muito. Existem moléculas relativamente
simples, constituídas por átomos iguais, como é o caso do gás oxigênio (O2)
que nós
respiramos, fundamental para o pleno funcionamento das nossas células. Existem moléculas
mais complexas, como o paclitaxel
(C47H51NO14), produto
natural obtido da casca da
árvore denominada Teixo do Pacífico, que exibe propriedades
antitumorais
importantes,
sendo indicada para o tratamento de diversos tipos de câncer.
Paclitaxel
Molécula do
paclitaxel.
Visando facilitar o entendimento da grande diversidade de moléculas existentes, estas
foram subdivididas de acordo com as suas estruturas e propriedades químicas em dois
grandes grupos: moléculas orgânicas e moléculas inorgânicas, sendo essas classes de
substâncias o objeto de estudo da Química Orgânica e da Química
Inorgânica,
respectivamente.
Antoine
Lavoisier.
QUÍMICA ORGÂNICA X QUÍMICA INORGÂNICA
No fim do século XVIII, os químicos observaram que a composição da matéria viva era
marcadamente distinta daquela presente no mundo inanimado. O cientista e pesquisador
Antoine Lavoisier notou a relativa simplicidade química do “mundo mineral” em comparação
com a complexidade da química presente nos animais e vegetais. Anos mais tarde, a
química mineral passou a ser chamada de Química Inorgânica, e a química
dos seres vivos
passou a ser denominada de Química Orgânica.
Mas, afinal, qual a diferença entre elas?
Química Orgânica
Tem como principal alvo de estudo os compostos de
carbono, que são centrais para a vida na Terra. Não apenas somos
constituídos, em grande parte, de compostos orgânicos, mas também
somos alimentados por eles e os empregamos em diversos setores da
nossa vida, seja na medicina, bioengenharia ou nanotecnologia. A
roupa que vestimos; o combustível que permite a geração de energia;
os medicamentos que tratam processos patológicos, todos estão sob o
escopo da Química Orgânica.
Química Inorgânica
Já a Química Inorgânica é responsável pelo estudo
dos outros compostos que não apresentam cadeia carbônica. Em sua
maioria, são compostos de origem mineral, sendo classificados como
ácidos, bases, sais e óxidos.
Estrutura da hemoglobina, molécula orgânica
responsável
pelo transporte de O2
em nosso corpo.
Estrutura do sal de cozinha, NaCl, composto de
natureza
inorgânica.
Sendo assim, existe uma grande diferença quanto às propriedades físico-químicas
apresentadas pelos compostos orgânicos e inorgânicos, tais como: condutividade elétrica;
solubilidade; temperatura de fusão e temperatura de ebulição. Essas diferenças ocorrem
porque os compostos orgânicos são, em sua maioria, compostos moleculares, enquanto os
inorgânicos são iônicos.
Agora que nós já sabemos que a química dos organismos vivos se desenvolve ao redor do
átomo de carbono, vamos olhar mais de perto as características desse átomo tão essencial
para a vida no planeta.
CARBONO
O carbono, representado pelo símbolo C, é um dos elementos químicos mais
versáteis da
natureza.
Você
sabia
Você sabia que aproximadamente 20% da nossa massa
corporal é formado por carbono e que ele é o 4º elemento mais abundante no
Universo?
Um aspecto interessante a respeito do carbono é que ele apresenta alotropia, ou seja,
esse elemento químico pode ser encontrado sob diferentes formas. Hoje, já se conhecem
cinco formas alótropas do carbono: grafite, diamante, fulereno, nanotubo e nanoespuma.
Todas essas substâncias são constituídas unicamente por carbono. Porém, a forma como os
átomos de carbono se combinam gera substâncias muito distintas, como o grafite (que
usamos no lápis para escrever) e o diamante (pedra preciosa de alto valor econômico).
Alótropos
do carbono, onde: a) diamante; b) grafite; c) lonsdaleíta; d/f)
fulerenos;
g) carbono amorfo; e h) nanotubo.
O carbono é um não metal, de número atômico (Z) 6 e número de massa
(A) 12,
apresentando-se na forma sólida à temperatura ambiente. Ele tem seis elétrons em sua
eletrosfera, e essas partículas negativas estão distribuídas em duas camadas (ou
níveis): dois elétrons ocupam a primeira camada, que é mais próxima do núcleo, e outros
quatro elétrons ocupam a segunda camada, que é a mais externa. Seguindo o Princípio de
Aufbau, os elétrons do carbono têm distribuição eletrônica
1s2 2s2 2p2. Como o carbono
apresenta quatro elétrons na camada de valência (camada 2), é classificado como um
elemento tetravalente, ou seja, pode formar quatro ligações químicas
para atingir a
estabilização conferida pela presença de oito elétrons na camada de valência (Regra do
Octeto) e, portanto, a estabilidade eletrônica — como um gás nobre.
Justamente por essa capacidade em formar quatro ligações, o carbono pode se conectar a
outros átomos de carbono, originando, assim, as cadeias carbônicas, que podem ser
curtas, médias, longas, lineares, cíclicas, ramificadas ou aromáticas. Vale ressaltar
que as ligações carbono-carbono podem ser simples, duplas ou triplas. Além disso, o
carbono pode, ainda, combinar-se quimicamente a outros átomos, gerando uma infinidade de
compostos, sejam de natureza orgânica, sejam de natureza inorgânica.
Exemplos de cadeias carbônicas.
É muito comum que as cadeias carbônicas apresentem em sua estrutura outros
elementos
químicos, como hidrogênio (para formação dos hidrocarbonetos), oxigênio (originando
diversos grupos funcionais, como hidroxila, carbonila e carboxila) e nitrogênio
(formando algumas funções, como amina, amida e nitrila). Esses átomos combinados,
juntamente a outros, como enxofre e fósforo, originam as biomoléculas, tão fundamentais
para o pleno funcionamento dos organismos vivos.
Princípio de Aufbau
Princípio de Aufbau ou princípio da estruturação é útil para determinar a organização dos
elétrons nos átomos. Esse princípio assume como premissa que, em uma hipotética
construção da eletrosfera de um átomo, os primeiros elétrons seriam adicionados aos
orbitais atômicos dos níveis com energias mais baixas antes de serem alocados em níveis
mais altos.
HIDROGÊNIO
O hidrogênio, representado pelo símbolo H, é o elemento mais abundante
no Universo. Com
número atômico 1, esse elemento apresenta apenas 1 próton e um 1 elétron. O hidrogênio é
uma exceção à regra do octeto, isso porque ele se estabiliza com apenas dois elétrons em
sua camada de valência, motivo pelo qual tal átomo não pertence a nenhum grupo da tabela
periódica.
Já discutimos que o número de massa (A) corresponde à soma de prótons e
nêutrons no
núcleo de um átomo. No caso do hidrogênio, o número de massa pode ser diferente, de
acordo com a espécie em questão:
Elementos com o mesmo número atômico (Z), porém com número de massa (A) diferente.
Na Terra, a maior parte do hidrogênio se encontra na forma de compostos químicos. Quando
combinados com átomos de carbono, formam a classe dos hidrocarbonetos, e, quando
conectados ao átomo de oxigênio, originam a água. Quando o hidrogênio não participa da
constituição de um composto químico, é encontrado exclusivamente sob a forma molecular
H2, que é um gás inflamável, incolor, inodoro e insolúvel em
meio aquoso.
NITROGÊNIO
Com número atômico 7, o nitrogênio (representado pelo símbolo N)
apresenta sete elétrons
(dois na primeira camada e cinco na camada de valência). Como o nitrogênio tem cinco
elétrons na camada de valência, ele é trivalente, ou seja, pode formar
três ligações
químicas para alcançar o octeto completo. Essas ligações podem ser simples, duplas ou
triplas. Já o número de massa do nitrogênio vai depender do isótopo em questão, uma vez
que existe nitrogênio-14 e nitrogênio-15.
Esse elemento químico está presente em muitos compostos de interesse industrial, sendo
empregado na produção de propelentes, explosivos, fertilizantes e muitos medicamentos.
Quando combinado com o átomo de carbono, o nitrogênio pode originar funções químicas
importantes, como as aminas e as amidas, que constituem proteínas e ácidos nucleicos —
biomoléculas fundamentais dos organismos vivos.
Exemplos de funções químicas
nitrogenadas.
OXIGÊNIO
Elemento químico representado pelo símbolo O, o oxigênio tem número
atômico 8, número de
massa 16 e oito elétrons. Como tem seis elétrons na camada de valência, o oxigênio é
divalente, ou seja, é capaz de formar duas ligações covalentes para
alcançar o octeto
completo.
Em condições normais de temperatura e pressão, dois átomos de oxigênio se ligam para
originar o gás O2, tão essencial para a vida na Terra, uma vez que é
empregado no
processo de respiração celular e, consequentemente, na obtenção de energia pelos seres
vivos. Contudo, vale ressaltar que esse elemento, além de formar o O2,
origina também o
O3, composto conhecido como ozônio, sendo a forma alotrópica do oxigênio.
O oxigênio se combina também com átomos de carbono, formando diversas funções químicas,
como álcool, fenol, éter, amidas, ácidos carboxílicos, cetonas, aldeídos, dentre outras.
Dessa maneira, tal elemento é um constituinte muito importante das biomoléculas, como
proteínas, ácidos nucleicos, carboidratos e lipídios — assunto que veremos no próximo
tópico.
Exemplo
de funções químicas oxigenadas.
BIOMOLÉCULAS
As biomoléculas são compostos de carbono que estão presentes nas células dos seres vivos.
A maior parte das biomoléculas consiste em hidrocarbonetos polifuncionalizados, ou seja,
apresentam uma variedade de grupos funcionais, gerando, assim, diferentes famílias de
compostos orgânicos, que, em geral, apresentam, em sua estrutura química:
swap_horizArraste para os
lados.Arraste para os lados.
Carbono (C)
Hidrogênio
(H)
Oxigênio (O)
Nitrogênio
(N)
Enxofre (S)
Fósforo (P)
Individualmente, as biomoléculas seguem todas as leis da física e da química que regem a
matéria inanimada. A grande diferença é que, em meio biológico, essas biomoléculas atuam
em conjunto com uma grande organização, conferindo as características tão especiais e
únicas dos seres vivos.
Essas moléculas biológicas são macromoléculas, polímeros de alto peso molecular,
construídas a partir de precursores menores e mais simples — “unidades monoméricas”.
Sendo assim, as principais biomoléculas são classificadas da seguinte maneira:
Clique nas barras para ver
as informações.Objeto com interação.
Proteínas
Longos polímeros de aminoácidos. Algumas proteínas
apresentam atividade
catalítica e, portanto, funcionam como enzimas, acelerando a velocidade das
reações químicas em meio biológico. Outras servem como elementos
estruturais; receptores de sinais ou, ainda, transportadores, permitindo a
passagem de substâncias através da célula.
Estrutura genérica de um
aminoácido.
Ácidos nucleicos (DNA e RNA)
São polímeros de nucleotídeos. Sua principal função é
armazenar e transmitir
a informação genética.
Estrutura química de um
nucleotídeo.
Polissacarídeos
São polímeros de açúcar simples (monossacarídeos). Dentre
suas principais
funções, podemos destacar o armazenamento de energia para a célula, bem como
elemento extracelular estrutural, funcionando como sítio de ligação
específico para determinadas proteínas.
Estrutura química da glicose, um
monossacarídeo.
Lipídios
São formados a partir de ácidos graxos (ácidos carboxílicos de cadeia longa).
Funcionam como elementos estruturais de membranas e pigmentos, como reserva
de energia e participam de sinais intracelulares.
Estrutura química de um ácido
graxo.
Verificando o
aprendizado
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E, com isso:
Reconheceu os princípios
químicos da Bioquímica e a classificação das biomoléculas.
Identificar a diferença entre organismos
vivos e matéria inanimada, bem como a importância da água nos sistemas
biológicos
A BIOQUÍMICA E A CONDIÇÃO VITAL
Como vimos anteriormente, os seres vivos são formados por moléculas que não têm vida.
Tais moléculas, quando isoladas e analisadas de forma individual, seguem as mesmas leis
da física e da química que descrevem a matéria
inanimada, ou seja, sem vida. A partir
desse ponto, surge o seguinte questionamento: ora, se os
organismos vivos, como eu e
você, são constituídos de moléculas inanimadas,
por que a matéria viva é tão diferente
da matéria não viva, que também é formada por moléculas
inanimadas?
Para responder a essa questão, inicialmente se faz necessário entender a diferença entre
os organismos vivos e a matéria inanimada, bem como os fatores que caracterizam a
condição vital.
O ser vivo é qualquer organismo que tem vida. Os animais, as plantas, os fungos, as
algas, os protozoários e as bactérias são exemplos de seres vivos. Já a matéria
inanimada é aquela que não tem vida. Isso engloba a matéria que nunca teve vida, como a
argila, as rochas e a água, ou que deixou de ter vida em algum momento.
Matéria
Matéria é tudo aquilo que tem massa e ocupa um lugar no espaço, podendo ser líquida,
sólida ou gasosa.
Um exemplo é a madeira:
Quando em forma de árvore, é um ser vivo
pertencente ao reino vegetal.
Contudo, ao ser cortada e processada,
aquela
madeira passa a ser matéria sem vida — inanimada.
Alguns fatores caracterizam a condição vital, ou seja, distinguem os organismos vivos de
outras coleções de matéria inanimada. Dentre esses fatores, podemos destacar:
Clique nas barras para ver
as informações.Objeto com interação.
Complexidade química e organização microscópica
A partir da organização funcional das unidades monoméricas (nucleotídeos,
aminoácidos, açúcares e ácidos graxos), as biomoléculas poliméricas, como
DNA, RNA, proteínas, polissacarídeos e lipídios, são formadas com uma
complexidade química muito grande, sendo importantes na formação e no
funcionamento de complexos supramoleculares que constituem as células —
unidades altamente organizadas e fundamentais dos seres vivos.
Em contraposição, a matéria inanimada é constituída por uma mistura ao acaso
de componentes químicos simples, sem uma estrutura altamente organizada,
como nos seres vivos.
A figura ilustra a complexidade
da célula animal.
Objetivos e funções definidas para cada componente
Cada parte componente de um organismo vivo apresenta um objetivo ou uma
função específicos. Isso acontece não apenas para as estruturas
macroscópicas — como as folhas e os troncos nos vegetais ou corações e
pulmões nos animais —, mas também para as estruturas intracelulares
microscópicas (como a membrana plasmática, a mitocôndria, o núcleo) e
substâncias químicas individuais (como os ácidos nucleicos, as proteínas, os
lipídios e os carboidratos).
Existe toda uma interação entre os componentes químicos no
organismo vivo.
Alterações em um componente resultam na coordenação ou em alterações
compensatórias em outro. Assim, nos organismos vivos, é válido perguntar
qual a função de determinada estrutura ou molécula. No entanto, essa mesma
pergunta a respeito de um agregado de matéria inanimada não se aplica, uma
vez que não há funções definidas para os componentes e tampouco interações
entre eles.
Sistemas para extrair e converter a energia do meio ambiente
Os organismos vivos apresentam a capacidade de extrair e transformar a
energia presente no meio ambiente, seja a energia luminosa, a energia
térmica ou a energia dos alimentos, para construir e manter suas estruturas
complexas, além de realizar os trabalhos mecânico, químico, osmótico e
elétrico. Já a matéria inanimada não tem essa capacidade; diferente disso,
tende a decair para um estado mais desordenado e instável para alcançar um
equilíbrio com seu meio ambiente.
Capacidade de autorreplicação e automontagem
Um dos atributos mais importantes dos organismos vivos é a sua capacidade de
efetuar autorreplicação precisa, propriedade que pode ser encarada como a
verdadeira quintessência da condição vital. A reprodução sexuada e
assexuada, os processos de mitose e meiose e a capacidade de montar as
estruturas são tipicamente inerentes aos seres vivos. Uma única bactéria
colocada em um meio nutricional estéril, por exemplo, pode originar um
bilhão de novas células-filhas idênticas em 24 horas.
Embora cada bactéria seja uma cópia fiel da original, sua
construção é direcionada inteiramente da informação contida dentro do
material genético da célula original.
Mecanismos para perceber e responder às alterações no meio ambiente
Os seres vivos apresentam a capacidade de se adaptar de acordo com as
alterações no meio ambiente, ajustando-se constantemente a essas alterações,
visando à melhor adaptação de sua química interna — fenômeno que não é
observado na matéria inanimada.
História de mudança evolutiva
Os seres vivos estão sujeitos aos processos evolutivos, ou seja, sofrem
modificações ao longo do tempo para sobreviver a novas circunstâncias. Um
dos fatores que causam a evolução é o aparecimento de mutações, modificações
que surgem na molécula de DNA, levando ao surgimento de novas
características no organismo. O resultado da evolução é uma enorme
diversidade de formas de vida, aparentemente muito diferentes, mas
fundamentalmente relacionadas por meio da sua ancestralidade compartilhada.
Tal capacidade de mutação não é observada nos seres inanimados.
Presença de grande quantidade de água
A água é a substância mais abundante nos sistemas vivos. Cerca de 70% do peso
da maioria dos organismos vivos são oriundos da água. Os organismos vivos
surgiram em meio aquoso, de forma que o curso da evolução foi moldado pelas
propriedades do meio contendo água. Justamente pelo fato de a água ser tão
essencial à vida, o nosso próximo tópico será dedicado ao estudo químico e
às propriedades biológicas dessa substância.
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DA ÁGUA
A molécula da água, representada pela fórmula H2O, apresenta uma estrutura
química
bastante simples, na qual um átomo de oxigênio forma duas ligações covalentes com dois
átomos de hidrogênio.
Clique nas setas para ver
o conteúdo.Objeto com interação.
A figura ilustra como os
átomos se conectam para formar a molécula da água.
Devido à presença de dois pares de elétrons não compartilhados no
átomo de oxigênio, a molécula da água apresenta uma geometria do
tipo angular, de forma que os átomos de hidrogênio formam entre si
um ângulo de 104,5°. Isso ocorre devido à repulsão eletrônica desses
pares de elétrons livres no oxigênio com os elétrons compartilhados
que formam a ligação química covalente O-H na molécula da água.
O esquema ilustra a
polaridade na molécula da água.
O oxigênio, por ser um átomo muito mais eletronegativo quando
comparado ao hidrogênio, atrai para si os elétrons que formam a
ligação covalente O-H. Assim, surge uma carga parcial negativa
(δ-)
sobre o oxigênio e uma carga parcial positiva (δ+) sobre
os
hidrogênios, isso porque eles ficam deficientes em elétrons. Por
esse motivo, a molécula da água tem característica
polar — formam-se
dois polos bem distintos: um mais negativo, rico em elétrons (na
região do oxigênio), e outro positivo, deficiente em elétrons (na
região onde estão os hidrogênios).
Justamente por essa natureza polar, a molécula da água é genericamente conhecida como
solvente universal, devido a sua elevada capacidade de dissolver
diversas substâncias
(solutos), como sais, gases, ácidos nucleicos, proteínas e açúcares. Contudo, é
importante destacar um preceito importante da química: “Semelhante dissolve
semelhante”.
Sendo assim, a água, por ser polar, tem alta capacidade de dissolver substâncias também
de caráter polar. Essas substâncias polares que se dissolvem bem em água são denominadas
hidrofílicas (hidro = água; philos = amigo), ou seja,
são “amigas” da água.
No entanto, moléculas apolares que não apresentam carga ou polos em sua
estrutura química
(como é o caso dos óleos e gorduras) não têm qualquer afinidade pela água e, portanto,
não se dissolvem nesse solvente, formando uma camada separada da água ou gotículas
imiscíveis. Essas substâncias apolares são chamadas hidrofóbicas
(hidro = água; phobia =
aversão), ou seja, não “gostam” da água.
A figura ilustra a
separação das fases orgânica (apolar) e aquosa (polar).
Além das moléculas hidrofílicas (que têm afinidade pela água) e hidrofóbicas (que não têm
afinidade pela água), existem ainda as moléculas anfipáticas. Essas
substâncias contêm
regiões polares e apolares na mesma estrutura. Sendo assim, quando na presença de água,
sua região hidrofílica (polar) interage favoravelmente com a água e tende a se
dissolver. Já a região hidrofóbica (apolar) se agrega para não ficar exposta ao contato
com a água, formando bicamadas ou micelas.
Composto anfipático em
solução
aquosa.
Diversas biomoléculas são anfipáticas, como: proteínas, pigmentos, algumas
vitaminas,
esteróis e fosfolipídios de membrana. As estruturas dessas moléculas são estabilizadas
por interações hidrofóbicas entre as suas regiões apolares, e essa característica é
muito importante no organismo vivo.
INTERAÇÕES MOLECULARES DA ÁGUA
Vimos que a água é uma molécula que apresenta dipolos elétricos (um negativo, na região
onde se encontra o oxigênio, e o outro positivo, onde estão os hidrogênios). Como
resultado disso, ocorre uma atração eletrostática entre o átomo de oxigênio
(δ-) de uma
molécula de água e o hidrogênio (δ+) de outra molécula de água. Essa
atração/interação
entre duas moléculas de água recebe o nome de ligação de hidrogênio. É por meio das
ligações de hidrogênio que as moléculas de água interagem num copo
d’água, nos rios, nos
oceanos e no nosso corpo.
Interações
do tipo ligação de hidrogênio entre moléculas da água.
O mesmo raciocínio é válido na interação da água com as biomoléculas nos sistemas
biológicos. Imaginemos uma proteína. Anteriormente, estudamos que a proteína é
constituída por aminoácidos, que apresentam, em sua estrutura química, as funções ácido
carboxílico (-COOH) e amina (-NH2). A água facilmente interage com esses
compostos, uma
vez que forma ligações de hidrogênio com os aminoácidos constituintes da proteína,
substituindo, assim, as ligações de hidrogênio soluto-soluto e formando novas interações
soluto-água.
O
esquema ilustra as ligações de hidrogênio entre um aminoácido
genérico e
moléculas de água.
Podemos prever também a interação da água com compostos inorgânicos. Vamos
imaginar a
adição do sal de cozinha (cloreto de sódio, NaCl) a um copo contendo água. O mosaico
cristalino do cloreto de sódio é rompido à medida que a água se aproxima dos íons
Na+ e
Cl-. As cargas iônicas do sódio e do cloreto são parcialmente neutralizadas,
isso porque
a água forma uma camada ao redor desses íons, conhecida como camada de
solvatação.
Os íons sódio carregados positivamente (Na+) são rodeados pelas cargas
parciais negativas
do oxigênio na molécula da água, enquanto os íons cloretos carregados negativamente
(Cl-) são rodeados pelas cargas parciais positivas dos hidrogênios da água. À
medida que
o processo continua, todos os íons do sal de cozinha são envolvidos pela camada de
solvatação, resultando, assim, na dissolução completa do sal em água.
O
esquema mostra a camada de solvatação no processo de dissolução do sal
de cozinha em água.
Agora que já estudamos as propriedades químicas da água, bem como suas
interações
moleculares com diversos tipos de substâncias, nosso próximo passo será compreender as
funções desse composto tão fundamental à vida nos sistemas biológicos.
FUNÇÕES BIOLÓGICAS DA ÁGUA
A água é fundamental para todos os seres vivos, pois desempenha importantes funções nos
sistemas biológicos, tais como:
Transporte de substâncias
Participação em reações químicas
Termorregulação
Lubrificação
Equilíbrio osmótico
Equilíbrio ácido-base
Clique nas setas para ver
o conteúdo.Objeto com interação.
A água exerce papel primordial no transporte de nutrientes, oxigênio
e sais minerais para as células, isso porque é o principal
componente do plasma sanguíneo. Além disso, proporciona a eliminação
de diversas substâncias do nosso organismo, uma vez que a urina
produzida pelo sistema renal é basicamente constituída por água.
Além do transporte e da eliminação de substâncias do nosso corpo, a
água participa de outros processos fisiológicos importantes, como a
digestão (na composição do suco gástrico e da saliva) e a proteção
de estruturas, atuando como verdadeiro lubrificante, como é o caso
da lágrima (evita o ressecamento das córneas); do líquor ou líquido
cefalorraquidiano presente entre as meninges, que protege o sistema
nervoso de danos causados por impactos; do líquido sinovial,
presente entre as articulações ósseas; e do líquido amniótico, que
protege o embrião em desenvolvimento.
Outra função que torna a água essencial à manutenção da vida é a sua
capacidade de evitar variações bruscas na temperatura dos
organismos. Desempenha tal papel devido a suas propriedades físicas,
que incluem: alto valor de calor específico, alto valor de calor
latente de vaporização e alto valor de calor latente de fusão.
Saiba mais
Em termos gerais, essas propriedades físicas significam
que a água realiza a termorregulação. Quando o nosso corpo
esquenta muito, as
glândulas sudoríparas eliminam suor, e a água que compõe o suor evapora, levando
consigo tanto o calor da pele como o calor do sangue localizado abaixo da pele,
impedido, assim, que a temperatura do corpo se eleve muito.
Passe o mouse para ver o
conteúdo.Objeto com interação.
A osmose, que consiste nessa movimentação da água através de uma membrana semipermeável,
é um fator essencial na vida da maioria das células. Isso porque a membrana plasmática
que delimita a célula e separa o conteúdo intracelular do meio externo é uma membrana
semipermeável que permite a passagem da água para igualar a osmolaridade nos dois
compartimentos.
Uma célula, em meio isotônico, não ganha nem perde água, pois se encontra em equilíbrio
osmótico. No entanto, quando está em meio hipertônico (mais concentrado que o
citoplasma), essa célula perde água, uma vez que a água sai do citoplasma, que apresenta
menor concentração de solutos e vai para o meio externo.
Já em uma solução hipotônica (meio menos concentrado que o citoplasma), a água migra do
meio externo para o interior da célula. Se não houver um mecanismo de controle, essa
movimentação da água para dentro da célula irá distender a membrana plasmática, e a
célula pode se romper — fenômeno conhecido como lise osmótica.
Para se aprofundar no assunto, assista ao vídeo a seguir:
Além da sua importância na manutenção do equilíbrio osmótico, a água exerce influência
também no equilíbrio ácido-base, tão importante nos sistemas biológicos. Trataremos
sobre esse assunto com mais detalhes no próximo módulo.
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E, com isso:
Identificou a diferença entre
organismos vivos e matéria inanimada, bem como a importância da água nos sistemas
biológicos.
Identificar acidez, basicidade e a
aplicação desses conceitos na manutenção do pH nos meios biológicos
ACIDEZ E BASICIDADE DE SOLUÇÕES AQUOSAS
Em um momento anterior, estudamos as características químicas da água e vimos algumas de
suas funções biológicas. Embora muitas propriedades desse solvente possam ser explicadas
em termos da molécula de água não carregada, uma pequena porção da água se ioniza de
forma reversível, produzindo íon hidrogênio (H+) e íon hidroxila
(OH-), como pode ser
visualizado no Esquema 1.
Esquema 1. Autoionização da água.
Essa equação química consiste no processo conhecido como
autoionização
da água. Embora
comumente se represente o produto de ionização da água como H+, prótons
livres não
existem em solução. O que de fato ocorre é uma transferência direta do H+ de
uma
molécula de água para outra molécula de água próxima, formando o íon hidrônio ou
hidroxônio (H3O+), como ilustra a Esquema 2, a seguir.
Esquema 2. Autoionização da água em solução, com
formação de H3O+ e OH-.
Essa leve tendência da água em se ionizar é de suma importância para as
funções e para a
estrutura das biomoléculas, uma vez que os íons formados (H3O+ e
OH-) influenciam
fortemente as interações e as propriedades dos componentes celulares, incluindo as
proteínas (especialmente as enzimas), os lipídios e os ácidos nucleicos.
ACIDEZ E BASICIDADE
Os conceitos de acidez e basicidade foram inicialmente propostos pelo químico Arrhenius.
De acordo com ele, uma substância ácida aumenta a concentração do íon hidrônio
[H3O+] na
presença de água. Como característica comum, as substâncias ácidas apresentam o átomo de
hidrogênio ligado a um átomo eletronegativo. Já as substâncias de natureza básica,
quando dissolvidas em água, aumentam a concentração dos íons hidroxilas [OH-]
no meio
(Esquema 3).
Esquema 3. Exemplos de ácido e base de
Arrhenius.
Em 1923, os pesquisadores Brönsted-Lorwry propuseram, independentemente, um novo conceito
para definir ácidos e bases. De acordo com eles, ácidos são espécies capazes de doar
prótons (H+) e bases são espécies aceptoras de prótons. Com essa definição,
os ácidos de
Arrhenius e de Brönsted-Lowry são idênticos. Porém, as bases de Brönsted-Lowry englobam
todas as espécies químicas que apresentam um par de elétrons livres para receber o
próton. Essas bases podem ser tanto carregadas negativamente como neutras, não ficando
restritas apenas aos hidróxidos metálicos, como na definição de Arrhenius.
No conceito de Brönsted-Lowry, a água apresenta caráter anfótero, ou
seja, ora funciona
como um ácido (doando próton), ora funciona como base (recebendo próton). O que vai
determinar seu caráter é o meio em que ela se encontra. Na presença do ácido clorídrico
(HCl),
a água funciona como uma base, pois recebe um próton do HCl. No entanto, quando reage
com a amônia (NH3), é a água quem doa um próton, atuando, assim, como um
ácido, e a
amônia, como base (Esquema 4).
Esquema 4. Ilustra o caráter anfótero da água.
A capacidade que um ácido apresenta em sofrer ionização é chamada força do
ácido. Em
outras palavras, a força dos ácidos é a medida da quantidade de íons hidrônios que o
ácido produz em água. O ácido clorídrico, por exemplo, em meio contendo água,
dissocia-se completamente, gerando uma quantidade muito grande de
H3O+.
Por esse motivo, o HCl é considerado um ácido forte (como vimos no Esquema 3). No
entanto, o vinagre (ácido acético), quando em água, sofre uma dissociação parcial,
produzindo pequena quantidade de íons hidrônios, e, por isso, é considerado um ácido
fraco (Esquema 5).
Esquema 5. Dissociação do ácido acético, um
ácido fraco, em meio aquoso.
O mesmo raciocínio se aplica à força das bases: bases
fortes se dissociam
totalmente em meio aquoso, enquanto bases fracas geram pequenas quantidades de íons
hidróxido (OH-) ou outro tipo de íon básico em água.
ESCALA DE pH
Uma maneira de medir a concentração de H+ e, consequentemente, de
OH- em qualquer solução
aquosa é pela escala de pH. É por meio dela que é feita a classificação das soluções em
ácidas, neutras ou básicas (alcalinas). Por definição:
pH = -log [H+]
A sigla pH, que significa potencial hidrogeniônico, consiste em uma escala
numérica que
varia de 0 a 14, à temperatura de 25 °C. Se o valor do pH for igual a 7 (que é o pH da
água), a solução é neutra, ou seja, a concentração de íons H+ é igual à
concentração de
íons OH-. No entanto, caso o valor de pH seja menor que 7, a solução é
ácida — isso
significa que a concentração de H+ é maior que a concentração de
OH-. Inversamente,
soluções com pH acima de 7 são básicas/alcalinas e, nesse caso, a concentração de
OH- é
maior do que a concentração de H+.
Escala
de pH.
Atenção
Valores abaixo de 0 e acima de 14 são possíveis, contudo
são raros.
Em resumo:
Note que a escala de pH é logarítmica, e não aritmética.
Teoria na prática
Vamos imaginar duas soluções genericamente chamadas de A e
B, a 25 °C e com volumes
iguais. A solução A tem pH igual a 3 e a solução B
apresenta pH igual a 4. Qual a diferença na concentração de H+ entre essas duas
soluções?
Clique no botão para ver a
resolução.Objeto com interação.
As duas soluções, A e B, diferem no pH apenas uma unidade. Porém, como a escala é
logarítmica, isso significa que a solução A (pH = 3) tem dez vezes mais íons H+
quando comparada à solução B, cujo pH = 4.
MÉTODOS DE AFERIÇÃO DO pH
A medida do pH é um dos procedimentos mais importantes e frequentemente empregados no
contexto da Bioquímica. Isso porque o seu valor afeta diretamente a estrutura e
atividade de macromoléculas biológicas importantes, além de ser muito útil também no
diagnóstico médico de vários processos patológicos (como acidoses e alcaloses
metabólicas).
Assista a seguir como e de que maneira o pH do meio
biológico (ácido e básico) influencia a ionização das macromoléculas:
Existem dois principais métodos para medir o valor do pH:
Qualitativo
Que emprega os indicadores ácidos-bases.
Quantitativo
Por meio do uso de um equipamento denominado pHmetro (peagâmetro).
Indicadores ácidos-bases.
Os indicadores ácidos-bases são substâncias que mudam de cor à medida que ocorre
alteração no pH do meio. Entre os indicadores mais utilizados em laboratório, estão a
fenolftaleína, que se apresenta incolor em meio ácido e rosa em meio
básico, e o papel
de tornassol, que adquire coloração vermelha na presença de ácidos e azul
na presença de
bases.
Já as determinações precisas de pH em laboratório são realizadas por meio do instrumento
denominado pHmetro. Nele, um eletrodo de vidro seletivamente sensível à
concentração de
H+, mas insensível a outros cátions, mede a condutividade elétrica da solução
e a
converte para a escala dos valores de pH.
pHmetro
digital.
Compreender os conceitos relacionados ao pH é de grande importância, uma vez que
praticamente todos os processos biológicos são dependentes dele. As células e os
organismos mantêm um pH constante e específico, possibilitando a manutenção das
biomoléculas em seu estado iônico ótimo e, assim, funcionando plenamente. Usualmente,
esse valor é ao redor do pH 7 (neutro).
Nos organismos multicelulares, o pH dos fluidos extracelulares também é fortemente
regulado, e essa constância do pH é alcançada devido à ação dos tampões
biológicos,
assunto que veremos em detalhes no tópico a seguir.
SISTEMA TAMPÃO
É um sistema aquoso que tende a resistir às alterações no pH mesmo quando pequenas
quantidades de uma substância ácida (H+) ou básica (OH-) são
adicionadas. Geralmente, o
sistema tampão consiste em um ácido fraco (doador de H+) e sua base conjugada
(aceptor
de H+).
Dois tampões biológicos são especialmente importantes: sistema fosfato e sistema
bicarbonato. O sistema de tamponamento fosfato, que atua no
citoplasma de todas as
células, consiste no ácido H2PO4- (doador de próton) e
em sua base conjugada HPO4-2
(aceptor de próton), como mostra o Esquema 6.
Esquema 6. Tampão fosfato.
O sistema tampão fosfato é efetivo em pH próximo a 6,86. Sendo assim, tende a resistir às
alterações de pH no intervalo entre 5,9 e 7,9. Por esse motivo, é tão importante nos
fluidos biológicos, já que a maioria dos compartimentos citoplasmáticos apresentam pH no
intervalo de 6,9 a 7,4.
Outro sistema de tamponamento essencial nos organismos multicelulares é o sistema
bicarbonato, que atua evitando variações bruscas de pH no
plasma sanguíneo. Esse sistema
consiste em ácido carbônico (H2CO3) e sua base conjugada, o íon
bicarbonato (HCO2-)
(Esquema 7).
Esquema 7. Tampão bicarbonato.
O plasma sanguíneo humano normalmente apresenta um pH próximo a 7,4. Se
muitos íons H+ se
formarem, ocorrerá uma alteração no equilíbrio representado no Esquema 7, de maneira que
a reação será deslocada para a esquerda, pois o íon bicarbonato
(HCO3-) absorverá o H+
formado, gerando ácido carbônico (H2CO3).
Saiba mais
Se as concentrações de H+ diminuírem no
plasma, o
equilíbrio químico será deslocado para a direita, de forma que o ácido
carbônico (H2CO3) se dissociará, gerando H+
para a solução. É dessa maneira
que o sistema tampão evita as variações no pH, mantendo-o constante.
Esse controle biológico do pH nas células e nos fluidos do corpo, exercido pelos
sistemas de tamponamento, é de importância central em todos os aspectos do
metabolismo e das atividades celulares nos seres vivos.
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E, com isso:
Definiu acidez, basicidade e a
aplicação desses conceitos na manutenção do pH nos meios biológicos.
Neste tema, vimos que a ciência da Bioquímica tem como principal objetivo explicar, em
termos moleculares, as estruturas, os mecanismos e os processos químicos compartilhados
por todos os seres vivos. Apesar de sua aplicação em diversas áreas do conhecimento
(área da saúde, ciências biológicas e área tecnológica), a preocupação final da
Bioquímica é explicar a própria vida, sendo, por isso, tão multidisciplinar e
fascinante.
Podcast
CONQUISTAS
Você atingiu os seguintes objetivos:
Reconheceu os princípios
químicos da Bioquímica e a classificação das biomoléculas
Identificou a diferença entre
organismos vivos e matéria inanimada, bem como a importância da água nos sistemas
biológicos
Definiu acidez, basicidade e a
aplicação desses conceitos na manutenção do pH nos meios biológicos