Descrição
Conceitos fundamentais em bem-estar animal e a importância de sua proteção e manutenção em animais de produção e companhia.
PROPÓSITO
Compreender o conceito e a prática de bem-estar animal aplicados aos animais de produção e aos animais de companhia.
OBJETIVOS
Módulo 1
Descrever os conceitos gerais de bem-estar animal
Módulo 2
Identificar técnicas de bem-estar para animais de produção
Módulo 3
Reconhecer a importância do bem-estar para animais de companhia
Introdução
Na nossa sociedade, percebemos uma grande dificuldade de se chegar a um meio-termo entre os interesses humanos e o bem-estar dos animais. Desde que os seres humanos passaram a consumir produtos de origem animal, há uma relação de predação na qual os animais permanecem em notória desvantagem. Além disso, a própria aproximação entre humanos e animais de companhia pode gerar impactos em seu bem-estar.
Nesse contexto, vamos aprender a avaliar quando um animal tem qualidade de vida adequada no ambiente em que habita e como podemos adequar os processos, com a finalidade de oferecer o bem-estar físico e psicológico aos animais de produção e de companhia. Além disso, vamos relacionar os dispositivos legais, levando em conta a evidência científica sobre os sentimentos dos animais.
MÓDULO 1
Descrever os conceitos gerais de bem-estar animal
CONTEXTUALIZAÇÃO
Inserir novos conceitos de bem-estar animal (BEA) na rotina de atuação profissional é um dos grandes desafios enfrentados por médicos veterinários e zootecnistas. Conhecer esses conceitos se faz necessário para que esses profissionais tenham uma abordagem crítica sobre as condições nas quais os animais se encontram e possam, então, empregar práticas que melhorem sua qualidade de vida.
O conceito de bem-estar é um tema bastante amplo, mas pode ser resumido no somatório de contribuições para a melhora da vida dos animais. Assim, eles podem usufruir de harmonia com o ambiente em que vivem, além de poderem ter condições físicas e mentais adequadas.
Para isso acontecer, o animal não pode sofrer maus-tratos, sentir medos, dores, aflições ou enfrentar quaisquer situações desagradáveis que causem abalo em sua saúde física ou psicológica. Além disso, o bem-estar requer prevenção de doenças, cuidados médico-veterinários, manejo adequado e instalações que forneçam segurança. Portanto, em termos práticos, o bem-estar animal estabelece o grau no qual as necessidades físicas, psicológicas, fisiológicas, sociais, comportamentais e ambientais dos animais estão satisfeitas.
Documentos legais
Dada a importância e a necessidade das práticas de bem-estar animal, em 2008, por meio da Portaria nº 185, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) estabeleceu a Comissão Técnica Permanente de Bem-estar Animal, que deve coordenar as distintas ações de bem-estar animal indicadas pela Instrução Normativa nº 56/2008, que descreve as Recomendações de Boas Práticas de Bem-Estar para Animais de Produção e de Empenho Econômico (Rebem), abrangendo a produção e o transporte dos animais.
Portanto, a portaria e a instrução servem como documentos norteadores para os profissionais que trabalham com atividades relacionadas à produção animal.
A lei que oferece proteção aos animais é a Lei nº 9.605/1998, que tipifica condutas de abuso, maus-tratos, ferimentos ou mutilações de animais, prevendo pena que varia de dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição de guarda de novos animais.
Lei nº 9.605/1998
Histórico
Desde a década de 1980, a preocupação com o bem-estar animal passou por vários níveis de evolução e, a partir dos anos 2000, começou a fazer parte dos principais meios de comunicação do agronegócio. Porém, o conceito de bem-estar animal foi citado pela primeira vez vários anos antes, em 1965, pelo comitê Brambell, um grupo dentro do Ministério da Agricultura da Inglaterra que tinha como função avaliar as condições em que os animais eram mantidos no sistema de criação intensiva.
FATORES PARA PROMOÇÃO DE BEM-ESTAR
Para que a produção tenha efeitos positivos, é de extrema importância que os animais sejam muito bem tratados e não sofram de estresses. Todos os profissionais que trabalham na cadeia de produção devem ter responsabilidade, ética e transparência para conduzir os seus processos produtivos, com atenção e dedicação ao bem-estar animal.
A maioria das definições sobre BEA referem-se a conceitos que envolvem as condições física, mental e natural dos animais. Em primeiro lugar, o bem-estar físico está relacionado à condição corporal do animal, com o funcionamento biológico, e reflete-se tanto no estado nutricional como no patológico.
Além disso, engloba os cuidados dispensados a esse animal. O nível de conforto oferecido e a sua adaptabilidade ao meio têm extrema importância durante a avaliação do BEA, já que alterações desses parâmetros podem afetar a saúde e a qualidade de vida dos animais.
Ademais, o bem-estar mental tem relação com o bem-estar físico e o natural. Podem ser consideradas:
A emoção
A cognição
A sensação
A percepção
Nesse sentido, deve-se evitar qualquer fator que possa resultar em estresse ao animal. A interação dos humanos com os animais, por exemplo, pode causar medo. Da mesma forma, recintos próximos a barulhos, outras espécies predadoras, odores etc. podem causar desconforto aos animais.
Finalmente, o ambiente em que os animais se encontram exerce grande influência, especialmente quando estão em confinamentos prolongados e sem espaço para desenvolver o seu comportamento natural. Portanto, é fundamental avaliar a arquitetura como um todo, observando-se os materiais de construção usados, as instalações, os espaços para excreções, a temperatura do ambiente interno e externo e os tipos de pisos adequados, para que os animais não se machuquem.
Ainda, para que sejam realizadas avaliações adequadas, fatores como a espécie, o sexo, a raça e a idade não podem ser esquecidos, devido às diferenças de comportamento, fisiologia e necessidades individuais.
Liberdade dos animais
Uma das primeiras estratégias utilizadas para avaliar o bem-estar dos animais foi a criação das Cinco Liberdades dos Animais, princípios que visam à avaliação dos animais por meio da inspeção e da observação de seus aspectos físicos, mentais e naturais.
Segundo esses princípios, para que um animal tenha seu bem-estar protegido, ele deve estar:
Livre de fome, sede e desnutrição
O animal deverá ter acesso a água e alimento em quantidade e qualidade adequadas para a sua espécie, a fim de manter a saúde e o vigor.
Livre de desconforto
O ambiente no qual o animal vive deve ser adequado a sua espécie, com oferta de abrigo e de local para descanso, facilidade de locomoção e conforto térmico.
Livre de dor e doença
É necessário atender a todos os critérios de ausência de ferimentos, dores e doenças, garantindo a prevenção, o diagnóstico e o tratamento médico adequados.
Livre para expressar os comportamentos naturais da espécie
Os animais devem usufruir de liberdade para agir de acordo com seu comportamento natural, sendo, para isso, necessário um espaço adequado, instalações adequadas e companhia de outros animais da mesma espécie, favorecendo, assim, a expressão de comportamentos naturais.
Livre de medo e estresse
Os animais não devem ser submetidos a condições que ofereçam sofrimento mental ou físico.
Dessa forma, podemos perceber que o bem-estar dos animais pode ser avaliado a partir da análise desses cinco parâmetros, sendo, portanto, o resultado do somatório de cada liberdade mensurada. Assim, é possível avaliar de forma abrangente os fatores que possam, de alguma maneira, interferir negativamente na qualidade de vida de cada animal.
Conceitos básicos de bem-estar
Definir o conceito de bem-estar animal, devido à complexidade do assunto e à grande divergência observada entre todos os pesquisadores da área, ainda é um desafio.
Atenção
O bem-estar corresponde a um estado em que o animal se encontra em um equilíbrio entre a natureza e o ambiente em que vive. Significa uma alta qualidade de vida do animal, com perfeito funcionamento biológico.
A saúde, considerada individualmente, não é suficiente para caracterizar o bem-estar animal. Trata-se apenas de um dos componentes, já que um animal saudável é uma entre as condições para um adequado bem-estar animal, que deve incluir os aspectos:
Neste vídeo, você conhecerá um pouco sobre os conceitos gerais de bem-estar animal.
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MÓDULO 2
Identificar técnicas de bem-estar para animais de produção
BEM-ESTAR DE ANIMAIS DE PRODUÇÃO
Sensibilidade quanto ao sofrimento
A intensificação da produção animal observada nos últimos anos contribuiu para que as pessoas perdessem parte da sensibilidade em relação ao sofrimento dos animais. Nesse sentido, a World Animal Protection (antes conhecida como WSPA) percebeu a necessidade de resgatar essa sensibilidade perdida, dando ênfase ao sofrimento desnecessário dos animais envolvidos na cadeia produtiva de carne, leite, ovos e subprodutos em geral.
Além disso, a organização estabeleceu o programa Steps, que tem a intenção de empregar as práticas de proteção do bem-estar aos animais de produção. Essa sociedade tem como objetivo trabalhar para melhorar a qualidade de vida dos animais e evitar o seu sofrimento.
O programa Steps foi publicado no Brasil em 2012, com o apoio de diversas instituições, como o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE). O programa estabelece melhorias no bem-estar dos animais de produção.
A capacitação das pessoas para a realização do manejo de animais de produção é um fator que causa grande impacto positivo para o bem-estar desses animais em frigoríficos.
Quando o local dispõe de recursos, informações e procedimentos adequados para a realização do trabalho dos funcionários, ocorre uma mudança de conduta. Isso contribui para o bem-estar dos animais e, consequentemente, melhora a qualidade do produto.
Em contrapartida, a ausência dos recursos disponíveis no ambiente de trabalho é um dos maiores obstáculos, impedindo a excelência de um treinamento e dificultando possíveis mudanças positivas no manejo dos animais.
Atenção
Não é o objetivo do nosso estudo discutir se é necessário ou não o consumo de carne na vida das pessoas.
Porém, é um fato cientificamente comprovado que o excesso faz muito mal para a saúde. Tanto o vegetarianismo (não consumo de carnes) como o veganismo (não consumo de nenhum produto de origem animal) estão crescendo rapidamente em todo o mundo. Isso ocorre tanto por questões éticas e religiosas quanto por uma grande busca pela saúde.
A Índia é o país com maior concentração de vegetarianos, somando 360 milhões de pessoas. Atualmente, o Brasil ocupa o oitavo lugar em todo o mundo em relação à quantidade de pessoas vegetarianas. Portanto, a preocupação com o bem-estar dos animais está atingindo grandes proporções, fazendo com que, de fato, sejam criados parâmetros a fim de poupá-los de sofrimentos desnecessários.
Do ponto de vista estritamente econômico, os animais têm sido vistos apenas como recursos a serem empregados visando à produção e ao lucro. A preocupação atual com o bem-estar animal provém do fato de que a busca pelo aumento da produção de alimento e a necessidade da diminuição do custo de produção acarretaram o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais eticamente inaceitáveis nos sistemas de produção.
Por outro lado, os consumidores estão cada vez mais atentos às formas de produção mais naturais, éticas e que promovam o bem-estar dos animais. Isso se reflete em um conflito entre os interesses dos animais e dos produtores, e cabe à sociedade fazer essa escolha.
Práticas adotadas na criação
Com isso, práticas de enriquecimento ambiental são indicadas nos meios produtivos, para que os animais recebam tratamento mais natural e que garanta o seu bem-estar.
O enriquecimento ambiental traz vantagens para o produtor — observadas por meio da redução de alterações de comportamento, do estresse, das intervenções médicas e da mortalidade — e proporciona aumento das taxas reprodutivas.
Uma maneira de promover o enriquecimento ambiental é disponibilizar objetos como pedaços de madeira, cordas, pedras, escadas e pneus. Outra forma é por meio da alimentação diversa, variando os alimentos do cotidiano, com a oferta de frutas ou legumes ora congelados, ora pendurados, cortados ou inteiros, alternando os horários, como nos fins de tarde ou à noite.
Há também os enriquecimentos sensoriais, utilizando-se essências em brinquedos para gustação ou ervas, como canela e camomila, por exemplo. A inserção de música nos ambientes é outro aspecto sensorial do enriquecimento ambiental, e tem se mostrado eficaz tanto para animais como para tratadores.
Atenção
A criação de animais confinados, por exemplo, reduz o trabalho do produtor, facilita seu manejo e diminui a perda energética.
No entanto, aumenta o sofrimento do animal, incrementa problemas sanitários, facilita a transmissão de enfermidades e agrava problemas de comportamento animal. Tudo isso diminui o bem-estar animal.
Nesse contexto de confinamento, há algumas possibilidades para melhorar o bem-estar. Para ruminantes, por exemplo, podem ser utilizados blocos nutricionais, que, além de fornecer dietas mais ricas, enriquecem o ambiente e reduzem o estresse dos animais confinados.
Na criação de animais de produção, a descorna (remoção dos chifres) e a mochação (queima dos botões que irão gerar os chifres) são uma prática comum que diminui os machucados causados por comportamentos agressivos, comuns na criação conjunta desses animais. Essa prática afeta o comportamento natural dos animais e é fonte de muito sofrimento, devendo ser evitada para garantir o bem-estar dos animais de produção.
Outro fator comum na produção de animais para abate é a criação conjunta sem levar em consideração os comportamentos das espécies. No caso da avicultura, por exemplo, a criação de aves em alojamentos únicos pode levar a comportamentos agressivos, como a bicagem de penas e o canibalismo. Assim, em muitos casos, é realizada a debicagem, que consiste na remoção de parte do bico dessas aves para minimizar tais problemas. A debicagem é uma prática que diminui o bem-estar animal, porém ainda é muito utilizada pela indústria de produção.
Outra prática comumente utilizada e que diminui o bem-estar dos animais é a grade de amamentação de suínos. Uma das situações mais problemáticas na criação de suínos é o espaço disponível para o parto e o cuidado dos leitões recém-nascidos. Ainda são comuns as gaiolas individuais, com utilização de gradeamento para amamentação, que visam evitar o esmagamento dos filhotes. Nesses espaços, as matrizes não conseguem se movimentar e interagir com os leitões e são submetidas a grande sofrimento.
Outra prática comum é a transferência de leitões de ninhadas distintas para a creche, fazendo a mistura de duas leitegadas de 9 a 12 semanas. Tem sido observado que essa mistura provoca agressividade e inquietação. Manter os leitões nos mesmos lotes desde a maternidade promove o comportamento mais natural entre eles.
Por muito tempo, o bem-estar dos animais e a alta produtividade foram considerados antagônicos, porém estudos têm demonstrado que o estresse excessivo e o sofrimento dos animais têm efeito negativo na produtividade e na qualidade dos alimentos. Quando o bem-estar é pobre, pode haver quedas na produção de ovos e leite, na reprodução e no crescimento, aumento da incidência de doenças e produção de carne de qualidade inferior.
No entanto, a relação entre a produtividade e o bem-estar não é linear, e o aumento do bem-estar dos animais pode representar aumento de custo na exploração, sendo que a magnitude desse custo é muito variável e depende, entre outras coisas, da mudança que se pretende fazer, da situação de cada país, bem como do ponto de partida em relação ao bem-estar dos animais em geral.
Transporte dos animais de produção
Um dos pontos críticos à manutenção do bem-estar de animais de produção é o transporte para o abatedouro. O treinamento, o comprometimento e a capacitação dos funcionários responsáveis por realizar o transporte dos animais são de extrema importância para que seja protegido o bem-estar animal e, portanto, para que os animais transportados cheguem em boas condições físicas e mentais ao frigorífico.
Para isso, vários cuidados durante o transporte devem ser observados. Dentre eles:
A velocidade do meio de transporte deve ser moderada e constante, para que os animais não se machuquem ou se estressem.
As curvas devem ser realizadas cuidadosamente.
Deve-se evitar paradas bruscas ou reduções.
Deve-se evitar paradas durante o percurso, porque elas dificultam a ventilação dos animais e aumentam muito o tempo do transporte, estressando os animais.
Caso seja muito necessário realizar a parada, que seja feita em terreno plano e na sombra.
Caso ocorra um acidente durante o percurso, o transportador deve avisar o responsável pelo BEA imediatamente.
Atenção
Os animais acidentados gravemente durante o transporte deverão ser abatidos de forma humanitária no local.
Animais com incapacidades ou dificuldades na locomoção ou com qualquer ferimento que os submeta a sofrimentos também deverão fazer parte do abate emergencial. Nesse caso, a transferência dos outros animais para o abatedouro deve ser realizada o mais rápido possível, pois os animais não poderão permanecer no compartimento de carga, principalmente se estiverem expostos ao sol.
Atenção
É de extrema importância a avaliação do grau de severidade das lesões dos animais que se feriram no acidente para que eles tenham um encaminhamento diferenciado dos demais. Caso não seja possível a remoção do animal de dentro do veículo acidentado, desde que não ofereça riscos ao operador, o abate será realizado no local, com a pistola e posterior sangria.
O veículo que irá transportar os animais deve ter as seguintes características:
O caminhão a ser utilizado para o transporte dos animais deve ter no máximo dois pisos.
Ao chegar à propriedade para carregar os animais, o caminhão deve ter sido previamente higienizado e desinfetado, evitando, assim, a exposição a eventuais agentes contaminantes.
Devem ser respeitadas as dimensões mínimas e máximas de transporte dos animais nos veículos utilizados. O produtor deve conhecer e atender as indicações particulares, que incluem veículos adequados, espaço e medidas de segurança para cada espécie de animal que está sendo transportada.
O transporte deve ser efetuado com calma, de preferência durante a noite, sempre aproveitando as horas de menor temperatura. O cuidado deve ser redobrado quando o transporte for feito em estradas não pavimentadas ou irregulares.
Quando o transporte exceder a duração de três horas, devem ser adotados cuidados especiais.
O primeiro passo importante para que todo o processo de abate saia corretamente e se obtenha qualidade do produto é o manejo dos animais, que já tem início antes mesmo da entrada do animal no caminhão para transporte.
O manejo pré-abate não é caracterizado somente pelas boas condições físicas que o animal apresenta, mas também por uma viagem curta que ofereça conforto, para que, consequentemente, o animal não apresente estresses desnecessários.
Nos últimos anos, após uma série de investimentos em treinamentos dos profissionais encarregados pelo transporte, foi percebida uma considerável melhora na adoção de boas práticas, reduzindo significativamente as ocorrências de mortes e amenizando o sofrimento dos animais.
A duração do transporte dos animais tem ligação direta com as condições físicas e psicológicas. A temperatura, o tipo de veículo, a movimentação durante o trajeto, o embarque e o desembarque, o horário e o uso de equipamentos adequados influenciam no abate, porque, quando realizados da maneira errada, acarretam sobrecarga para o animal e consequentes problemas no produto final.
Abate dos animais de produção
Felizmente, a preocupação dos consumidores de produtos animais com a forma como os animais são criados, transportados e abatidos está crescendo a cada dia. Isso faz a indústria se sentir pressionada, aumentando o entendimento da senciência (capacidade de ter percepções conscientes do que lhe acontece e do que o rodeia) dos animais e dando mais ênfase à qualidade ética da produção, incluindo o momento anterior ao abate.
A qualidade ética no manejo de pré-abate tem princípios que devem ser observados:
Instalações que reduzam ao máximo o estresse.
Equipe comprometida e cuidados com o manejo dos animais.
Equipamentos apropriados e com a manutenção em dia, ajustados de acordo com a espécie a ser trabalhada.
Processo eficaz de insensibilização, que induz a imediata perda da consciência, de modo a não permitir a possibilidade de recuperação, para não ocorrer sofrimento até a morte do animal.
Para que o programa de BEA seja efetivo, é necessário que todos os profissionais envolvidos estejam completamente comprometidos com os preceitos do bem-estar animal.
O Brasil, por ser um país exportador, é signatário da OIE, que estabelece diretrizes mundiais para o abate humanitário no sentido de assegurar que os animais de produção não sofram durante o período de pré-abate e abate. Segundo essas diretrizes:
Somente os animais em boas condições físicas poderão ser transportados; são considerados não aptos para o transporte os animais enfermos, lesionados ou débeis.
A contenção dos animais não deverá ser feita com barulhos excessivos ou qualquer tipo de pressão.
Os manejadores deverão compreender o comportamento dos animais.
Animais que se machucaram durante o transporte e estejam sem condições de se movimentar deverão ser abatidos de forma humanitária e imediatamente.
Fica proibido o uso de objetos que causem dor ou injúria nos animais.
O abate deverá ser realizado de maneira humanitária, com equipamentos adequados para cada espécie.
Os veículos utilizados para transporte deverão estar em bom estado de conservação, limpos e adequados para o peso e o volume transportados.
O equipamento alternativo de emergência para insensibilização deve estar disponível para o caso de o primeiro método não ser eficaz.
Animais conscientes não poderão ser arrastados ou forçados a fazer movimentos caso não estejam em boas condições físicas.
Além de todas as exigências nacionais, existem também exigências internacionais, que são embasadas em boas práticas de manejo, com a finalidade de minimizar o distresse (estresse excessivo dos animais, que causa sofrimento) durante as etapas do processo de abate.
Dentre os requisitos estipulados, destacam-se:
Todos os estabelecimentos de abate devem ser acompanhados por um profissional responsável pelo BEA (bem-estar animal).
Esse profissional deverá realizar a fiscalização direta, intensificando as prioridades na rotina e determinando ações que supram todas as necessidades de bem-estar do animal.
Qualificação da mão de obra, com treinamentos em bem-estar animal intensificados e atualizados.
Registro de treinamentos de bem-estar animal e os respectivos treinamentos de reciclagem.
Os equipamentos deverão ter toda a manutenção em dia.
Os registros de monitoramento deverão ser completos.
ETAPAS DO ABATE DE BOVINOS, SUÍNOS E AVES
Bovinos
Etapa 1 – Boxe de insensibilização
O boxe de insensibilização promove
o isolamento entre bovinos para que seja efetuada a
insensibilização. Consiste em uma estrutura que restringe a movimentação do animal,
garantindo maior precisão no disparo da pistola.
Essa etapa só pode ser iniciada a partir do momento em que todos os operadores estejam prontos para fazer a insensibilização. Portanto, deve ocorrer de maneira precisa e rápida. Dessa forma, faz-se importante a capacitação do operador e a manutenção em dia dos equipamentos para funcionarem de maneira correta.
Atenção
Durante a passagem do animal pelo boxe, não se deve empurrar nem gritar, porque isso deixa o animal em aflição, podendo ocasionar problemas sérios, como fraturas provocadas por tumultos ou erros na insensibilização.
Etapa 2 – Insensibilização
Quando a insensibilização é realizada de maneira adequada, o animal fica inconsciente, possibilitando que o restante do processo seja realizado sem sofrimento.
Os instrumentos que podem ser utilizados são:
Contudo, para frigoríficos exportadores (União Europeia) que atendem ao Regulamento da Comunidade Europeia (CE) 1099/2009, relativo à proteção dos animais no momento da occisão (abate), não está autorizada a utilização da pistola não penetrativa para o abate de animais ruminantes acima de 10 kg de peso vivo.
As pistolas de dardos não penetrantes, em sua maioria, possuem a ponta do dardo em forma de cogumelo, fazendo com que o crânio do animal sofra uma depressão sem perfuração, resultando em perda da consciência. Quando os animais pesam acima de 10 kg, o dano ao cérebro é menor e, devido a isso, o período de inconsciência pode ser mais curto, havendo o grande risco de o animal acordar antes mesmo da realização da sangria.
Atenção
A importância da contenção animal deve-se à necessidade de garantir o disparo na posição e na região corretas. Assim, garante-se que o abate ocorra de maneira adequada e eficaz. Para essa contenção, são utilizados boxes de atordoamento mecânico ou automatizado, em que ocorre a contenção da cabeça do animal. Esse procedimento é mais indicado porque limita o movimento corporal. Por isso, é de grande importância que o funcionário responsável seja comprometido com sua função, pois falhas nesse processo podem acarretar grande sofrimento aos animais.
O termo em hebraico kosher, cuja tradução é “bom” e “próprio”, refere-se a alimentos preparados de acordo com as leis judaicas de alimentação, denominadas kashrut. Essas leis exigem que os animais sejam abatidos de acordo com um ritual denominado Shechita, cujo objetivo é que o abate seja realizado somente por um especialista.
Segundo essa lei, a opção de abate é a eliminação do máximo de sangue possível do animal, por meio de degola, que é o corte das artérias carótidas e veias jugulares. Todavia, nesse processo não há insensibilização prévia à degola, portanto não são atendidas as exigências éticas e técnicas para manutenção do bem-estar animal.
Etapa 3 – Ejeção do bovino para a área de vômito
Após a
insensibilização, é realizada a abertura do piso e da lateral do boxe onde o
animal está, para colocá-lo em cima de uma grade, diminuindo o impacto do animal contra
o piso. Em seguida, o animal é levado para a área de vômito, onde ficam os animais
insensibilizados.
Atenção
Na área de vômito, não é permitido mais de um animal por boxe, para garantir que todos passem para a sangria devidamente inconscientes e livres de qualquer dor.
Por isso, o tempo é um fator crucial. Os sinais de insensibilização deficiente são reflexos, vocalizações, contração dos membros e movimentos oculares.
Etapa 4 – Sangria
Consiste na perda de sangue e na morte
do animal. O procedimento consiste na realização de uma incisão nos grandes vasos que
emergem do coração (artérias carótidas e cerebrais).
Dessa forma, o coração fica impedido de bombear o sangue e ocorre o choque hipovolêmico, seguido da morte do animal. O tempo entre a insensibilização e a sangria é de 60 segundos.
Suínos
Etapa 1 – Área suja
A área suja é onde os animais passam por um
chuveiro para efetuar a limpeza de sujidades e fezes que possam estar aderidas no
animal. Essa etapa ocorre antes de os animais passarem pela insensibilização. Destaca-se
que é proibido o uso de varas e objetos que possam provocar lesão nos animais.
Outro ponto importante é o jejum de 16 horas de alimento dos suínos antes do abate. O fornecimento de água deve ser mantido sem restrições. Outro procedimento realizado para favorecer o relaxamento dos animais é deixá-los em galpões com luzes apagadas no dia anterior ao abate.
Atenção
Segundo especialistas, essa prática contribui significativamente para a redução das taxas de mortalidade durante o período de transporte e aumenta a rapidez do processo de evisceração, possibilitando, assim, maior segurança alimentar.
Etapa 2 – Insensibilização
Consiste na instantânea e completa
inconsciência e é realizada por meio de choque elétrico, com voltagem de 350 a 750 volts
e baixa amperagem, de 0,5 a 2 amperes.
Esse procedimento é realizado atrás da orelha do animal, nas fossas temporais, e dura em média de seis a dez segundos.
Para que o animal não seja submetido a uma quantidade de choques em excesso, é de extrema importância o bom preparo do profissional responsável por realizar o procedimento de insensibilização. O excesso de choques pode causar queimaduras e dores desnecessárias.
Atualmente, existem alguns frigoríficos que realizam a insensibilização por inalação de gás CO2 em altas concentrações. Nesse tipo de procedimento, a função neural do animal fica enfraquecida, causando hipóxia (baixa concentração de oxigênio) e hipercapnia (aumento do gás carbônico no sangue). O pH cerebral cai para 6,5 (valor normal é de 7,4) e ocorre a perda da consciência do animal, desaparecendo os reflexos à dor. Caso o animal continue inalando, ele virá a óbito.
Etapa 3 – Sangria
Segundos após a insensibilização, os animais são
encaminhados para o procedimento de sangria para a remoção total do sangue. Em seguida,
é feita a escaldagem, procedimento em que o animal é colocado em um tanque com água
aquecida. Com isso, prepara-se a carcaça para a remoção dos pelos.
A sangria é a técnica de abate dos suínos que só deverá ser realizada após se ter a certeza de que os animais estão completamente insensibilizados. Deve ser feita imediatamente após a insensibilização, garantindo que o sangue escoe por completo, antes que o animal volte à consciência.
O procedimento de sangria pode ser feito com o animal na horizontal ou na vertical. O tempo entre a insensibilização e o início da sangria deve ser de, no máximo, trinta segundos. Nesta técnica, é feita uma secção dos grandes vasos com uma faca, perfurando o peito do animal.
Atenção
A sangria deve ocorrer por pelo menos três minutos e devem ser retirados, aproximadamente, 50% do sangue do animal. Durante a sangria, não é recomendada a manipulação do animal.
Aves
Etapa 1 – Pendura
A pendura é um processo automatizado que permite abates de muitas aves em tempo reduzido. Porém, existem vários fatores que causam dor extrema ao animal:
Compressão.
Distresse, pelo fato de o animal estar de cabeça para baixo.
Tentativa de fuga devido às dores provocadas pelas lesões.
Essa é uma etapa potencialmente dolorosa para a ave, em que comumente ocorrem lesões hemorrágicas. A dor no processo de pendura está diretamente relacionada ao tamanho das pernas do animal. Os machos têm pernas mais longas e grossas, então a pressão do gancho é aumentada. As aves têm em torno de 21 receptores de dores nas pernas. Assim, à medida que a pressão aumenta, maior é a dor das aves.
Atenção
Uma das mais recentes inovações é a utilização do atordoamento a gás no abate de frangos, tendo como agente o CO2, um gás anestesiante. Esse processo faz com que as aves fiquem inconscientes, relaxando seus músculos, beneficiando diretamente a qualidade e o rendimento do processo e zelando pelo seu bem-estar.
Porém, mesmo com esse método, a realização da pendura é feita normalmente, ocasionando extrema dor aos animais.
Etapa 2 – Insensibilização
No Brasil, o método de insensibilização mais usado é o elétrico, ou eletronarcose em cubas de imersão. O processo consiste em pendurar as aves, ainda conscientes, pelas pernas, que estão ligadas à nória (equipamento que transporta as aves em todas as etapas) em movimento.
Os animais são imersos em uma cuba com água eletrificada para serem submetidos à perda da consciência imediata. Esse sistema elétrico é mais utilizado porque o custo é bem mais baixo quando comparado ao da insensibilidade por gás.
Atenção
A alta voltagem apenas causará insensibilização, não a parada cardíaca. Assim, pode ocorrer o retorno da consciência caso a ave não passe pela sangria rapidamente.
Etapa 3 – Sangria
A sangria é realizada seccionando-se os grandes
vasos que emergem do coração da ave, em um corte preciso. O processo deve perdurar por
no mínimo três minutos. O tempo de permanência da ave em estado de inconsciência e
sangria é curto.
A sangria é indicada em 100% dos casos, mesmo quando é feita a eletroforese seguida de parada cardíaca, porque não é possível garantir quando a ave está realmente morta. Em seguida, o animal irá para o tanque de escaldagem.
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MÓDULO 3
Reconhecer a importância do bem-estar para animais de companhia
BEM-ESTAR DE ANIMAIS DE COMPANHIA
[...] Animal de companhia pode ser definido como “um animal domesticado ou criado em cativeiro, cujas necessidades físicas, emocionais, comportamentais e sociais possam ser cumpridas em casa, ou numa relação de proximidade diária com seres humanos” (American Society for the Prevention of Cruelty to Animals, 2018).
Ter um animal de estimação está entre as melhores escolhas que um ser humano pode fazer, inclusive para melhorar a sua saúde. A convivência com eles ajuda no tratamento da depressão, da ansiedade, do estresse e até das doenças cardiovasculares. Porém, uma das grandes dificuldades encontradas atualmente diz respeito à humanização. Essa postura que os humanos vêm adotando está causando sobrecargas nos animais, que acabam não reconhecendo mais a sua própria essência e podem desenvolver problemas comportamentais devido ao excesso de cuidados por parte dos tutores.
Quando nos referimos aos cães, muitos passam a mudar os comportamentos normais da espécie, como, por exemplo:
Assim como os animais de produção, os animais de companhia (pets) também seguem a escala das Cinco Liberdades. Essas necessidades dão ênfase ao bem-estar físico, mental e natural dos animais. Elas exigem que o responsável pelo animal esteja familiarizado com as necessidades da espécie sob seus cuidados.
Dentre todas as responsabilidades que um tutor deve ter com seus animais, a castração é uma das mais importantes. Os benefícios para machos e fêmeas, cães e gatos, adultos ou filhotes são inúmeros. Além dos vários pontos positivos à saúde animal, a responsabilização dos tutores evita a superpopulação, inexistindo a possibilidade de crias indesejáveis e de filhotes abandonados.
Os benefícios oferecidos pela castração vão desde a prevenção de alguns tipos de cânceres até a diminuição do estresse em demarcar territórios (machos) e a possibilidade de uma gravidez psicológica e fragilidade na saúde que o cio provoca nas fêmeas. O aumento da expectativa de vida trazida pela castração já é cientificamente comprovado.
Além disso, a castração evita a superpopulação de animais de rua, que não têm suas necessidades básicas atendidas e são submetidos a extremo sofrimento. Assim, a castração é um importante instrumento na busca do bem-estar animal.
Diferentes espécies animais são tidas como companhia ao homem, sendo que as mais populares são o cão e o gato. Em alguns casos, mesmo animais comumente observados como de produção podem ser encontrados servindo como de companhia. No caso de cães e gatos, tem sido muito mais comum verificar as discussões sobre bem-estar mescladas a assuntos como abandono, maus-tratos e controle populacional.
Os movimentos de proteção animal vêm ganhando força há alguns anos no Brasil e, paralelamente, também ganham força os grupos e profissionais que buscam estabelecer e aplicar os princípios do BEA.
Na última década, houve uma mudança significativa na importância dos animais de companhia em relação ao indivíduo e à família, sendo criado até mesmo o termo “família multiespécie” para denotar famílias que agregam um animal de companhia em seu núcleo. Um conceito mais emocional e subjetivo vem sendo atribuído cada vez mais ao animal.
Se, por um lado, isso favoreceu a preocupação com o bem-estar dos animais de companhia, por outro, houve certa banalização da sua presença, culminando em abandono ou destrato diante de insatisfações do tutor ou de quaisquer problemas que o animal venha apresentar. Além disso, seu comportamento natural vem sendo suprimido por uma crescente atribuição de caracteres nitidamente comuns ao gosto e às necessidades do homem.
Segundo a Resolução nº 1.027, de 10 de maio de 2013, a realização de algumas cirurgias, como caudectomia (corte de cauda), conchectomia (corte de orelha), cordectomia (corte de cordas vocais) e onicectomia (retirada das garras do gato) são práticas proibidas na Medicina Veterinária, uma vez que causam sofrimento e alteram o comportamento desses animais. Precisamos ter em vista que a seleção de características físicas dos pets não justifica o sofrimento causado e é proibida por lei.
Seleção artificial de cães e gatos
Outra questão muito importante no que se refere aos animais domésticos é a sua seleção artificial.
De modo a atender a uma demanda mercadológica, diversas características são selecionadas, como caracteres físicos e comportamentais. Nesse processo, é feito o cruzamento de matrizes que apresentam as características desejadas, o que, muitas vezes, envolve o cruzamento de animais com parentesco próximo, o que pode resultar na cumulação de mutações genéticas indesejadas e genes recessivos que manifestam doenças.
Ademais, a seleção dessas características e desses comportamentos não é feita de forma responsável.
Resolução nº 1.027, de 10 de maio de 2013
Conheça a legislação: https://www.semesp.org.br/wp-content/uploads/2013/06/resCFMV_n1027_10_06.pdf
Atenção
A maior parte dos criadouros e canis não exclui do processo de seleção características indesejáveis, pois isso envolveria a exclusão de alguns indivíduos da linha reprodutiva, o que diminuiria a margem lucrativa da produção. Assim, a seleção artificial de cães e gatos, na maioria das vezes, provoca a seleção de doenças e características indesejadas, pois é feita de forma irresponsável.
Cães da raça pug são muito demandados no mercado de compra de animais de estimação. No entanto, têm uma série de problemas de saúde, como questões respiratórias, hipotireoidismo e doenças de pele que resultam da seleção artificial de suas características.
Eutanásia
Outra questão bastante polêmica e que deve ser levada a sério é a necessidade de eutanásia de animais domésticos. Em diversos momentos, o acúmulo de doenças e problemas físicos impõe aos bichos domésticos dor e sofrimento intensos, sendo indicada a eutanásia profilática.
No entanto, além de adotar a eutanásia para diminuir o sofrimento e propiciar o bem-estar, os métodos utilizados devem ser responsáveis e atender à legislação pertinente, de modo a não causar ainda mais dor e sofrimento. Ademais, acrescenta-se que a eutanásia deve ser indicada por profissional habilitado, de modo a evitar que seja feita desnecessariamente.
Posse responsável
A posse responsável pode ser compreendida como uma série de ideias que ajudam os tutores e responsáveis por animais a compreenderem suas necessidades. Ou seja, é um conjunto de regras básicas que deverá ser seguido por quem é responsável por um animal, independentemente do porte, com a finalidade de garantir a saúde física e mental das espécies.
Portanto, a posse responsável pode ser compreendida, ainda, como a condição na qual o responsável compromete-se com o bem-estar, assumindo uma série de responsabilidades e deveres voltados às necessidades físicas, psicológicas e ambientais de seu animal de companhia.
Mesmo para esses animais, a prevenção de possíveis riscos, como transmissão de doenças e agressão a terceiros, também deve ser avaliada.
A falta de planejamento na aquisição de um animal acarreta sérios problemas. Um exemplo comum é a compra impulsiva estimulada por comerciantes que objetivam somente auferir lucros explorando a comercialização do animal (BRASIL, 2017). Para muitos criadores, animais são expostos como se fossem mercadorias e não despertam neles nenhum vínculo afetivo. Esse impulso inicial pode resultar em abandono posterior.
Os profissionais da área devem conhecer e orientar os proprietários no processo de tomada de decisão no que tange à compra e à adoção de um animal de estimação.
Atualmente, existem cinco passos a serem seguidos por todos aqueles que se disponibilizam a ter um animal sob sua responsabilidade:
Para a adoção, é de extrema importância que o processo seja iniciado antes de o animal adentrar a residência da família. Em primeiro lugar, é necessário que todos os residentes estejam de comum acordo quanto à adoção. Em seguida, ocorre a escolha da espécie a ser adotada.
Nos dias atuais, os animais mais adotados são cães e gatos. Com base nisso, deve-se ter em mente que a expectativa de vida gira em torno de 12 anos. Contudo, avanços da Medicina Veterinária têm aumentado significativamente essa expectativa. Pensando nisso, é preciso saber se todos estarão dispostos a colaborar com os cuidados necessários ao animal durante todo o seu período de vida.
Outro fator muito importante a ser pensado é se o animal poderá acompanhar a família durante as férias. O uso de avião para as férias é muito normal; sendo assim, deve-se pensar previamente sobre o porte do animal e o valor a ser pago para que ele possa acompanhar a família na viagem aérea. Caso a família se desloque para lugares onde não há a possibilidade de levar o animal ou as viagens sejam muito prolongadas, é necessário pensar em qual lugar o animal irá ficar, não esquecendo que, se for um local comercial, deve-se procurar referências para atestar que o bem-estar do animal será mantido.
Cuidar bem de um animal vai muito além de fornecer alimentos de qualidade e água limpa. Os pets precisam de carinho, brincadeiras, conforto e cuidados veterinários. Os profissionais da área devem conhecer essas questões e orientar corretamente seus clientes sempre que forem procurados antes da adoção de um animal.
A população leiga, no geral, não conhece as diferenças comportamentais entre filhotes e animais adultos. No entanto, o profissional da área deve estar apto a explicar as vantagens da adoção ou compra de um animal adulto em relação a um filhote. A maioria das famílias opta por ter um filhote, pois tem um maior apelo emocional, porém esquecem que levar um filhote para casa exige todo um treinamento para o animal conhecer o novo mundo e se adaptar ao ambiente familiar. Um filhote exige mais dedicação e tempo quando se trata da parte de educação. Portanto, é preciso muita paciência e disponibilidade com filhotes, já que eles não sabem onde fazer as suas necessidades e com o que podem brincar, além de disporem de uma energia muito grande, que deve ser extravasada.
Muitas pessoas desconhecem as vantagens de adotar um animal já adulto, que já tem as características comportamentais estabelecidas devido a sua maturidade. Além de o nível de energia já ter estabilizado, o animal adulto tem mais facilidade para entender o que é ensinado e se adequar às regras familiares. Profissionais da área devem estar preparados para explicar e esclarecer essas questões.
Mesmo sendo escolhidos cães ou gatos, existe uma grande barreira a ser enfrentada. Infelizmente, o abandono de animais é uma realidade cruel e ainda muito presente, que provoca grande sofrimento aos animais, além de um impacto enorme na sociedade devido a doenças zoonóticas (transmitidas de animais para humanos), além de possíveis acidentes automobilísticos.
As necessidades de adequação do animal ao ambiente, o que inclui a higiene, a socialização, a segurança e o enriquecimento ambiental, independem da raça escolhida, tendo em vista que são questões básicas que irão favorecer o bem-estar animal. A higiene é primordial para o bem-estar não só do animal, mas de toda a família. Condições sanitárias adequadas diminuem a propagação de doenças e garantem a saúde dos pets e das pessoas.
Ainda, a escolha do animal deve levar em conta as características do ambiente onde ele irá viver. Não é apropriado colocar um animal de grande porte em uma casa pequena; também não é indicada a criação de um animal típico de inverno em locais quentes. Nesse sentido, é importante que o ambiente atenda às necessidades fisiológicas do animal, que envolvem, por exemplo, a área disponível e o clima adequado.
Devemos falar, ainda, da necessidade de estímulos e atividades que variam de acordo com as espécies. Algumas espécies de animais precisam de muitos estímulos e atividades diárias para gastar a energia. Outras espécies, por sua vez, precisam de menos tempo de atividade diária. Na posse responsável, o proprietário deve estar disponível para estimular a espécie de acordo com suas necessidades. O estímulo inadequado pode influenciar no BEA e causar alterações comportamentais, por exemplo. É muito comum que animais pouco estimulados se lambam excessivamente e realizem automutilação.
Nesse caso, o enriquecimento ambiental, com a inclusão de estímulos no ambiente, pode ser uma alternativa bastante interessante. Fornecimento de brinquedos e desafios que distraiam os animais é uma ótima alternativa.
Atualmente, há diversas instituições que realizam um trabalho muito sério resgatando animais abandonados, fazendo a castração e doando-os para famílias responsáveis.
Se a opção for por um animal de raça, é de extrema importância pesquisar sobre criadores sérios, que realmente amem os animais. Infelizmente, a maioria se preocupa apenas com o lucro, não prezando pelo mínimo bem-estar dos animais.
Quanto ao conforto e à saúde, devemos nos lembrar de que estamos falando de seres sencientes (dotados de sensações e de sentimentos). Portanto, os animais precisam estar protegidos de perigos e sensações que causem medo. Eles gostam da companhia da família, e isso garante o bem-estar e os mantém calmos. Devem ser feitas visitas periódicas ao médico veterinário com fins profiláticos e terapêuticos. A vacinação evita uma diversidade de doenças e, por isso, torna-se um protocolo obrigatório para proteger os animais. As vermifugações também são importantes para a qualidade de vida dos pets.
Além da questão vacinal e de vermifugação, é importante salientar que ectoparasitas podem estar em todos os lugares e causar problemas sérios de saúde nos animais de companhia. Por isso, o mercado de pets disponibiliza uma infinidade de medicamentos a fim de proteger o seu animal. Outro ponto que o tutor deve ter em mente são os gastos com a alimentação do animal. No mercado pet atual, há variadas marcas de rações e petiscos para os animais de companhia.
Pensando em uma forma de auxílio para a educação do novo membro da família, o adestramento é uma medida que pode fazer toda a diferença para adaptar o animal ao novo ambiente.
Em resumo, adestrar é condicionar o animal a responder a estímulos, fazendo-o entender como agir de acordo com determinados comandos ou sinais. Sabe-se que os adestramentos mais eficazes realizados atualmente são aqueles em que o profissional ensina o proprietário a dar os comandos para o animal. Portanto, é uma experiência mais eficaz quando realizada pelos três atores (profissional, proprietário e animal), dispostos a atingir o sucesso com mais rapidez.
Adestramentos que ofereçam estímulos dolorosos, como choques e pancadas, não são aceitos. Qualquer método que ofereça medo e pavor aos animais não é indicado. Temos que pensar que, dentro dos objetivos do BEA, devemos garantir que os animais estejam livres de dor, doença, desconforto, medo e estresse.
O adestramento pode ser muito interessante para garantir o BEA, pois diminui a ansiedade nos animais e traz conforto. No entanto, as técnicas utilizadas devem atender aos princípios do BEA, não sendo aceitáveis as que causem sofrimento durante processo.
Neste vídeo, você conhecerá um pouco sobre a importância do bem-estar para animais de companhia.
Verificando o aprendizado
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Conclusão
Considerações Finais
No decorrer dos nossos estudos, vimos a dificuldade de conciliar o BEA com os interesses financeiros e alimentares humanos. Foi possível perceber que os animais têm senciência. Assim, os procedimentos servem apenas para minimizar o sofrimento, contudo não é possível extingui-lo completamente.
Aprendemos os principais conceitos de BEA levando em conta os aspectos físico, mental e natural dos animais. Outro ponto importante foi perceber que o BEA não diz respeito apenas aos animais de produção, sendo de interesse para animais de companhia e todos os demais. Portanto, somos responsáveis por minimizar as ações humanas que causam sofrimentos desnecessários aos animais.
Podcast
CONQUISTAS
Você atingiu os seguintes objetivos:
Descreveu os conceitos gerais de bem-estar animal
Identificou técnicas de bem-estar para animais de produção
Reconheceu a importância do bem-estar para animais de companhia