Descrição

Conhecer os principais intelectuais e suas matrizes no Brasil imperial, demonstrando como eles direcionaram a própria ideia de país.

Propósito

O processo histórico é feito de transformações e continuidades, portanto, ao se estudar história, é possível entender o presente como o momento de tensão entre o que mudou e o que permaneceu. No caso específico da História do Brasil, revisitar o século XIX, o momento de fundação institucional do país como nação independente, permite entender como se deu a evolução da história brasileira, exercício fundamental para a compreensão do atual momento da realidade nacional.

OBJETIVOS

Módulo 1

Analisar o processo de instauração das missões estrangerias científicas e artísticas que atuaram no Brasil durante o período da Monarquia

Módulo 2

Compreender o funcionamento das culturas religiosas no Brasil durante o período da Monarquia

Módulo 3

Reconhecer os conceitos fundamentais que inspiraram os cientistas brasileiros em atuação no período da Monarquia

Módulo 4

Examinar as relações entre imprensa, intelectuais e a política no Brasil durante o período da Monarquia

Introdução

O Brasil surge como Estado-Nação independente em 1822, sendo exceção institucional no continente americano por dois motivos:

1° Pela manutenção da unidade territorial após o processo de emancipação política. Enquanto a América Espanhola se fragmentou em dezenas de países independentes, a América Portuguesa se manteve unida territorialmente em único país.
2° Enquanto os países hispano-americanos se organizaram institucionalmente no formato republicano, o Brasil adotou a Monarquia.

Segundo José Murilo de Carvalho (2006), a excepcionalidade brasileira se explica pelo processo de formação das elites nacionais, bastante diferente do que aconteceu na América Espanhola. O autor argumenta que o fato de Portugal não ter permitido a instauração de universidades em suas colônias levou as elites locais a cursarem os estudos superiores nas Europa, especialmente na Universidade de Coimbra, situada em Portugal.

Por isso, as elites coloniais luso-brasileiras, submetidas ao mesmo treinamento intelectual e ideológico, estariam comprometidas com a conservação da ordem monárquica e da unidade territorial. Já as elites hispano-americanas foram formadas em universidades localizadas em território colonial, cujo funcionamento foi permitido pela Espanha desde o século XVI, o que teria fragmentado o grupo ideologicamente, reforçando vínculos com municipalidades (cabildos) e fortalecendo tendência a apoiar governos locais.

A Monarquia brasileira, que governou o país entre 1822 e 1889, portanto, foi criada, consolidada e comandada por uma elite compromissada com a conservação da ordem estabelecida, que fez da escravidão e do latifúndio os alicerces da nação. Essa herança, em diversos aspectos, chegou a nós. Estudar a história da Monarquia significa encontrar a matriz do Brasil independente, os fundamentos de nossa trajetória nacional. É exatamente esse o nosso objetivo aqui.

O conteúdo está dividido em quatro partes: primeiro, estudamos as missões estrangeiras científicas e artísticas que atuaram no Brasil Império, buscando entender como elas colaboraram para delinear uma estética nacional e para reivindicar para o Brasil um lugar no concerto dos países considerados civilizados e cientificamente desenvolvidos.

Em seguida, debruçamo-nos sobre as diversas culturas religiosas em circulação no Brasil ao longo do século XIX, com atenção tanto à institucionalidade católica como às práticas da religiosidade popular. Depois, examinamos os conceitos fundamentais que inspiraram as instituições científicas em funcionamento no Brasil oitocentista. Por último, compreenderemos como se deram as relações entre imprensa, política e intelectuais no período.

MÓDULO 1

Analisar o processo de instauração das missões estrangerias científicas e artísticas que atuaram no Brasil durante o período da Monarquia

Missões estrangeiras artísticas no Brasil Império

A colonização da América impactou bastante o imaginário da Europa moderna. O “Novo Mundo” se tornou objeto de fascínio e de curiosidade científica. Artistas, intelectuais e cientistas se lançaram à América, em missões de exploração, com o objetivo de estudar a fauna, a flora e as populações locais, e de pintar imagens da natureza e da sociedade colonial.

Moderna

Adotamos a designação temporal típica da linha do tempo europeia com Antiguidade, Medievo, Modernidade e Contemporaneidade.

A primeira grande missão estrangeira que chegou à América Portuguesa, especificamente em Pernambuco, no século XVII, entre 1637 e 1644, ocorreu no período do governo holandês comandado por Maurício de Nassau. Durante o restante do período colonial, a América Portuguesa não foi visitada por grandes missões estrangeiras, o que fez com que praticamente todo conhecimento disponível sobre a colônia até o século XIX tenha sido produzido pela missão de Nassau.

Em 1801, chegou à América Portuguesa a primeira missão que contava com autorização real. O chefe era o naturalista alemão Frederico Guilherme Siebe, que durante seis anos desenvolveu estudos geológicos e botânicos na Bacia Amazônica, de onde levou coleções para serem expostas na Europa.

O ano de 1808 é um divisor de águas na história brasileira, não apenas no aspecto político, mas também no intelectual e científico. Fugindo das guerras napoleônicas que na época desestabilizavam o sistema internacional europeu, o Estado português se instaurou em sua colônia americana.

No livro A longa viagem da biblioteca dos reis, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz mostra o tamanho da empreitada administrativa que foi a transferência da burocracia portuguesa do centro do Império para a colônia, o que na prática provocou o total realinhamento das forças políticas luso-brasileiras. O território até então dominado virou sede do poder, o que fortaleceu algumas frações das elites locais e o enfraquecimento das elites portuguesas.

Junto com a corte real chegou também um conjunto de reformas estruturais a fim de adaptar o centro administrativo da colônia às necessidades de uma dinastia europeia. Entre essas reformas, podemos destacar a criação de instituições artísticas, culturais e científicas que além de entreterem a corte, tinham o interesse de produzir um conhecimento sobre o Brasil, imagens do Brasil que fossem capazes de vender para o mundo a narrativa de uma civilização tropical.

Pela primeira vez se cogita seriamente a criação ensino superior e das (quando o próprio governo faz vir, em 1816, uma missão de artistas da França) e a sistematização do estudo da flora nativa (com a fundação do Real Horto mais tarde, em 1819, denominado Real Jardim Botânico). De Portugal, atraíram-se, desde 1810, alemães que haviam sido contratados pelo governo português.

(OBERACKER, 1999, p. 120)

Devido ao alinhamento com a Inglaterra na conjuntura das guerras napoleônicas, foram artistas, intelectuais e cientistas ingleses os primeiros a visitarem a América Portuguesa e a produzirem textos e obras sobre o que viram por aqui. Entre as principais produções inglesas sobre o Brasil nesse período, podemos destacar:

Guerras Napoleônicas

Ao fim da Revolução Francesa, assume o poder o general Napoleão Bonaparte com a missão de modernizar a França e manter os ganhos revolucionários. Entre as táticas para tal está o expansionismo militar em prol da proteção e o estímulo à indústria nacional francesa, tendo como inimigo a Inglaterra. Nesse movimento, Portugal se vê particularmente afetado, tanto por suas colônias como pela histórica relação com os ingleses.

1

Travels in Brasil (1816) produzido por Henrique Koster que, entre 1809 e 1820, viveu no Nordeste.

2

Os textos escritos pelo comerciante João Luccok, que residiu no Rio de Janeiro entre 1808 e 1810, de onde fez viagens pelo Nordeste e pelo Sul da América Portuguesa.

3

Os textos de Maria Graham que explorou a América Portuguesa entre 1821 e 1823, descrevendo os costumes populares luso-brasileiros, deixando escritos que ainda servem como fonte de pesquisa para historiadores e sociólogos.

4

Os estudos desenvolvidos por João Mawe, naturalista e geólogo que pesquisou as condições dos distritos das minas de ouro e diamantes.

Maria Graham

Os escritos de Maria Graham estão registrados em seu livro Journal of a voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823.

João Luccok

Você pode encontrar os textos de João Luccok no livro Linha de esplendor sem fim, de Halford Edward Luccok, publicado pela Junta Geral de Edução Cristã da Igreja Metodista do Brasil em 1950.

É importante citar também o botânico francês Augusto de Saint-Hilaire, que entre 1816-1822 percorreu o território, descrevendo com precisão o Rio de Janeiro, o Espírito Santo, as Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Fato é que, durante o Período Joanino, as fronteiras brasileiras estiveram mais abertas aos estudiosos e artistas europeus, criando, assim, certa tradição de missões estrangeiras que se aprofundaria ao longo do século XIX. Entre todas essas missões, certamente destaca-se aquela que passou a ser chamada de “missão francesa”, que ficou no Brasil entre 1816 e 1831.

Seguindo as orientações de Antônio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca, D. João aceitou a ideia de receber um grupo de artistas vindo da França, cuja tarefa seria, segundo o decreto de 12 de agosto de 1816, estabelecer uma Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, a fim de difundir conhecimentos aos homens destinados aos empregos públicos, administração dos Estados, promovendo ainda o progresso da agricultura, mineralogia, indústria e comércio, mas, sobretudo, fornecer “socorro estético” que permitiria fazer do Brasil um reino mais rico e opulento do que qualquer outro.

(TREVISAN, 2007, p. 15)

Também Lilia Schwarcz explorou a dimensão estratégica da missão artística francesa para o projeto civilizatório que Portugal queria implementar em sua colônia.

Assim, a missão tinha objetivos mais amplos do que a “educação artística”, e não por acaso o primeiro nome cunhado foi “Escola Real de Ciências, artes e ofícios”, mostrando como sua inserção se daria em diversos campos de atuação. Afinal, faltava tudo, e profissionais especializados em diferentes áreas vieram no mesmo navio. Técnicos em construção naval, em construção de veículos, em curtume... atendendo a outros interesses do Estado e formando homens destinados aos empregos públicos, mas também à agricultura, mineralogia, indústria e comércio.

(SCHWARCZ, 2016, p. 311)

Como naquele período ainda não existia a fotografia, não havia outro meio para registrar imagens da fauna, da flora e da sociedade que não as pinturas. Por isso, grande parte dos naturalistas era também de exímios pintores ou trazia desenhistas em suas comitivas.

Três pintores se destacaram na produção de registros que ainda nos permitem ter noção da realidade imagética do século XIX:

Jean Baptiste Debret, o mais notável.

Thomas Ender

Pintor, aquarelista, gravador e desenhista, Thomas Ender (Viena, Áustria 1793 – idem 1875) era irmão gêmeo do também pintor Johann Ender (1793-1854). Em 1806, aos 13 anos, iniciou seus estudos na Akademie der Bildenden Künste Wien [Academia de Belas Artes de Viena]. Em 1817, vem ao Brasil na Expedição Científica de História Natural que acompanha a comitiva austríaca. Em sua curta estada de dez meses, pinta panoramas do litoral e cenas urbanas; retrata igrejas, edifícios públicos e praças.

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

João Maurício Rugendas

Johann Moritz Rugendas (Augsburg, Alemanha, 1802 – Weilheim, Alemanha, 1858) foi pintor, desenhista e gravador. Participou de expedições com o objetivo de documentar sobre o continente americano e tem um importante trabalho iconográfico de paisagens e costumes brasileiros do século XIX.

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

Debret foi criado em uma família de artistas, tendo sido discípulo de Louis Davi, figura central no neoclassicismo francês. Ao lado de Davi, Debret desenvolveu não apenas suas habilidades estéticas, mas trilhou também os caminhos da militância política ao participar diretamente da Revolução Francesa, fazendo parte do grupo dos jacobinos.

O desenrolar dos acontecimentos colocou Debret em dificuldades financeiras e ele acabou se rendendo à corte napoleônica em 1805, quando começou a fazer parte do grupo seleto de pintores do Imperador. Com o revés de Napoleão em 1815 e seu exílio na Ilha de Santa Helena, a Monarquia dos Bourbon foi restaurada, o que trouxe problemas para os artistas vinculados à corte napoleônica. Foi nesse momento que Debret embarcou em uma expedição de artistas organizada por Joachim Lebreton rumo à corte de D. João na América Portuguesa. Assim, o Brasil ganhava o principal responsável pela produção da estética nacional no século XIX.

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O jantar (1820).

Um funcionário a passeio com sua família (1830).

Aclamação de d. Pedro I (1831)

Como podemos perceber, Debret pintou tanto o cotidiano da cidade como as cerimônias oficiais que envolviam a política institucional na capital do Império português. Ainda que a pintura não seja representação literal da realidade (a fotografia também não é), é possível perceber nas telas de Debret a movimentação social e política do Rio de Janeiro no momento e afirmação da ordem monárquica, primeiro com o Império ultramarino português, depois com o Império brasileiro.

Todo esse ambiente de efervescência intelectual, artística e científica inaugurado pelo Período Joanino se manteve vivo ao longo do século XIX, quando a Monarquia brasileira continuou se preocupando em mostrar para a Europa a imagem de nação civilizada, descendente de uma dinastia europeia e diferente dos vizinhos hispano-americanos, representados como bárbaros, anárquicos e instáveis.

As instituições científicas criadas pela Monarquia tiveram, exatamente, esse objetivo: reivindicar um lugar para o Brasil no concerto nas nações consideradas civilizadas e cientificamente avançadas. É isso que estudaremos na próxima seção.

Entendendo melhor as missões estrangeiras no Brasil Império

Assista ao vídeo com o professor Rodrigo Perez Oliveira e entenda mais sobre os principais pontos das missões estrangeiras no Brasil Império.

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MÓDULO 2

Compreender o funcionamento das culturas religiosas no Brasil durante o período da Monarquia

Cultura religiosa

Podemos definir como “cultura religiosa” o conjunto de valores e práticas que medeia a relação das coletividades humanas com o sagrado. Esses valores e práticas não se resumem à religiosidade institucional e oficial, mas se manifestam também em todos os espaços privados e informais onde existem expressões de religiosidade. É a partir dessa perspectiva que examinaremos as religiosidades da sociedade brasileira no período da Monarquia.

O artigo 5° da Constituição do Império, outorgada em 1824, deu continuidade à tradição herdada de Portugal e estabeleceu o padroado como modulação religiosa oficial. Isso significava que a Igreja Católica era considerada parte do Estado brasileiro, sendo responsável, inclusive, por alguns procedimentos administrativos, como o registro de nascimentos e óbitos.

A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas em seu culto doméstico ou particular, em casos para isso destinados, sem forma alguma exterior de templo.

(BARROS, 2004a, p. 319)

Nas palavras de Guilherme Pereira das Neves:

O padroado envolve extensa e intrincada legislação que, reduzida à sua expressão mais simples, significa a troca de obrigações e de direitos entre a Igreja e um indivíduo, ou instituição, que assume assim a condição de padroeiro.

(NEVES, 2009, p. 382)

Não existia registro civil de nascimento e mortes, pois essas certificações eram emitidas pela burocracia da Igreja Católica. Ou seja, o acesso a documentos fundamentais para o exercício da cidadania somente era possível com a adesão, pelo menos formal, à Igreja Católica. Para certificar nascimento, era necessário se batizar no catolicismo e, para certificar morte, era necessário cumprir os rituais fúnebres prescritos pela Igreja Católica, que também era responsável por administrar os cemitérios. Congregações católicas também administravam muitos estabelecimentos escolares.

Nos tempos da Monarquia, portanto, a vida pública era atravessada de ponta a ponta pela presença da Igreja Católica, a detentora da religiosidade oficial. Não seria exagerado tomar emprestadas as palavras do filósofo Marcel Gauchet para dizer que, no Brasil Império, o cristianismo católico tinha “função estruturante, que emprestava consciência e sentido ao mundo e à própria vida” (GAUCHET, 1995, p. 18).

A vida religiosa na Monarquia brasileira, por outro lado, não se resumida à religiosidade oficial, pois o próprio padroado garantia a liberdade de culto privado, e ainda que não o fizesse, não seria capaz de controlar as diversas manifestações de religiosidade popular que existiam na época. As festas religiosas eram ocasiões em que se manifestavam essas práticas de religiosidade popular, indisciplinadas pela Igreja e até perseguidas pelas autoridades.

Os interesses em torno da realização de festas religiosas marcaram o cotidiano das reivindicações da população às administrações municipais. Colocaram em jogo os direitos dessa população movimentar-se, organizar-se, encontrar-se e divertir-se em função de seus próprios santos e valores, danças e músicas. As festas abriam possibilidades para o exercício de outras dimensões da cidadania, para muito além do voto ou das representações instituídas pela legislação.

(ABREU; VIANA, 2009, p. 237)

As festas, portanto, eram práticas culturais, religiosas e políticas, em que a população marginalizada manifestava seus valores, crenças, negociava e tensionava com o poder estabelecido. Seria equivocado afirmar que essas religiosidades populares, necessariamente, rejeitavam o catolicismo oficial. Havia também a combinação, o sincretismo, o encontro e a ressignificação da liturgia católica nas ruas, em suas combinações com práticas e valores das diversas religiosidades africanas e indígenas.

Sincretismo

A definição de mistura não significa, em nenhuma hipótese, que as posições eram equiparáveis. A dinâmicas de resistência e ressignificação de valores culturais afrodescendentes, ainda que vitais, corriam na marginalidade, na periferia de uma religião pensada pelo Estado como central.

Exemplo

São vários os exemplos de festas que, no século XIX brasileiro, reuniam as manifestações religiosas populares: Nosso Senhor do Bonfim, Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora da Penha, Nossa Senhora Aparecida, o jongo, os sambas de roda, as congadas, os maracatus, os tambores de crioula etc.

O momento mais difícil para as manifestações festivas populares na história monárquica foi o período compreendido entre 1830 e 1840, quando as elites brasileiras estavam particularmente impactadas pelo “efeito Haiti”, dados os desdobramentos da Revolução Haitiana (1791-1804).

Haiti

A Revolução do Haiti iniciou-se em 1791 e foi marcada pelo levante de afrodescendentes, alforriados, homens mestiços nascidos livres e escravizados. Suas vitórias permitiram a independência do Haiti de Santo Domingo e pôs fim localmente à escravidão. O processo, além de cuidadosamente boicotado por outras elites americanas, tornou-se um fantasma em toda a América e no Brasil ganhou forma quando os escravos e alforriados descendentes árabes da Bahia se levantaram.

Nessa época, as ameaças de rebelião escrava mantiveram em alerta as autoridades governamentais e senhoriais envolvidas na tarefa de deter possíveis planos de rebelião em um contexto de constante ingresso de novos africanos nos portos brasileiros, mantido até o final do tráfico externo em 1850. O levante malês, ocorrido na Bahia em 1835, bem como o envolvimento de escravos e negros livres em outras revoltas políticas do Império, como a Sabinada e a Balaiada, disseminaram nessas décadas o alerta contra os “ajuntamentos de pretos”, frequentemente encarados como encontros propícios à organização de revoltas por fortalecerem as lideranças e os laços de solidariedade no interior da comunidade escrava.

(ABREU; VIANA, 2009, p. 240)

A legislação da Monarquia criou medidas com o objetivo de controlar as festas negras, que eram frequentadas por negros e pardos escravizados, libertos ou livres. Nos primeiros anos da Monarquia, a disciplinarização e o controle dos “batuques” eram prioridades para as administrações municipais. No Rio de Janeiro, como demonstram Martha Abreu e Larissa Viana, o governo municipal estabeleceu, em 1838, a proibição de “ajuntamentos” de mais de quatro escravizados em locais públicos. Também eram previstas multas para batuques realizados em casas de particulares que causassem algum transtorno aos vizinhos.

Depois que a fase mais aguda do efeito haitiano passou, a tendência passou a ser a da negociação. Os grupos sociais que organizavam essas festividades recorriam às autoridades municipais, em especial às câmaras de vereadores, para reivindicar autonomia na realização dos eventos, o que significava algum controle sobre as ruas, alguma independência sobre a disciplina comportamental imposta pelo poder no cotidiano.

Vizinhos

O debate da rua como um espaço miscigenado é observado por diversos autores. O que notamos é a construção de um valor civilizatório vinculado ao princípio religioso e reafirmado como forma de controle.

Já as autoridades, que tratavam as festas com nomes como “folias”, “batuques”, “vozeiras” ou “tocadas de pretos”, sabiam que era necessário negociar, até para acalmar a energia popular e evitar conflitos diretos. Se por um lado os festeiros não conseguiam a total autonomia que desejavam, por outro os governantes municipais garantiam que as festas pudessem acontecer com alguma liberdade.

As irmandades negras eram agentes importantes na organização dos festejos religiosos. Diz o historiador João José Reis sobre as irmandades negras:

Entre as instituições em torno das quais os negros se agregaram de forma mais ou menos autônoma, destacam-se as confrarias ou irmandades religiosas, dedicadas à devoção de santos católicos. Elas funcionavam como sociedades de ajuda mútua. Seus associados contribuíam com joias de entrada e taxas anuais, recebendo em troca assistência quando doentes, quando presos, quando famintos ou quando mortos.

(REIS, 1996, p. 4)

Quando mortos porque uma das principais funções das irmandades era proporcionar aos associados funerais solenes, com acompanhamento dos irmãos vivos, sepultamento dentro das capelas e missas fúnebres. Os dirigentes máximos das irmandades eram chamados juízes, provedores ou outros termos que variavam regionalmente. Os escrivãos e tesoureiros também detinham grande poder. Eram esses os principais cargos da mesa, como se chamava o corpo dirigente das irmandades. Outros membros se encarregavam da organização de festas e funerais, coleta de esmolas, assistência aos doentes, administração da capela e do culto divino. (REIS, 1996, p. 4)

A existência das irmandades é um dos indícios que demonstram a capacidade de agência das pessoas escravizadas, mesmo submetidas à mais opressora entre as relações de poder já inventadas pela humanidade. As irmandades eram práticas associativas de ajuda mútua organizadas pelos escravizados com o objetivo de obter alguma estabilidade em uma vida marcada pela violência.

Para além do apoio em momentos de doença e morte, as irmandades também eram conhecidas pela grande capacidade em organizar festejos religiosos. As irmandades dedicadas à Nossa Senhora do Rosário, muito populares entre os negros, foram responsáveis por importar festas religiosas realizadas em Minas Gerais nas décadas de 1850 e 1860, especialmente as dedicadas à eleição de “Reis de Congo”, as famosas “congadas”.

Congadas

O festejo faz referência a uma mistura sincrética de valores, com base em tradições da região do Congo em que os súditos faziam festas, cortejos e danças a seus reis. A coroação dos reis negros se mistura com tradições de luta dos muçulmanos contra os cristãos no norte da África, ao reconhecimento ancestral de santos negros como Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Pretos, até mesmo personagens como Galanga, conhecido como Chico Rei, homenageado em um samba da escola carioca Acadêmicos do Salgueiro.

Mas quem eram os negros que participavam dessas festas?

Novamente, utilizamos o estudo desenvolvido por Martha Abreu e Larissa Viana. Por meio da análise dos “livros de entrada” de diferentes irmandades dedicadas ao culto da Nossa Senhora do Rosário, as autoras argumentam que a tendência era de maior presença de “crioulos” (negros nascidos no Brasil) do que de negros africanos. As autoras mostram também como é possível encontrar nas irmandades filiados pertencentes às mesmas nações africanas, ou que eram falantes dos mesmos idiomas, o que demonstra como os espaços das irmandades funcionavam também para a consolidação das diversas identidades negras em circulação no Brasil oitocentista.

Cirurgião negro aplicando ventosas, de Jean-Baptiste Debret, 1826.

Outro importante ponto de tensão se dava na disputa pela cura. A tradição religiosa cristã constituía a ideia dos milagres especialmente associados à cura, no entanto, localmente, os contatos com grupos ameríndios permitiam que a “expulsão” dos maus espíritos não ficasse associada somente a uma vitória contra do diabo cristão, mas representações que dialogavam com valores daqueles grupos, cuidadosamente apresentados como formas de enganação. Nos centros urbanos, os escravos de ganho e as baianas de tabuleiro também representavam uma medicina popular passada de boca em boca que associavam à expulsão de maus espíritos com banhos de ervas e bençãos.

A popularização das rezadeiras, benzedeiras, das garrafadas e unguentos corriam para além do controle da oficialidade religiosa cristã, e foi ora combatida, ora associada a formas diversas de manifestação da divindade e que marcam o complexo quadro da cultura religiosa imperial. Se de um lado os valores formais passaram pela Igreja oficial do Estado, a marginalidade permitia o diálogo e a consolidação desses grupos e a própria sustentação que religiões afro-brasileiras conseguiram alcançar em todo o país, dos tambores de mina do Pará até as festas de Ibeji no Sul do Brasil.

A tensão política e a religião

A importância política da religião também se fazia sentir nas altas esferas do poder monárquico, e nem sempre de forma pacífica, como podemos perceber na “questão religiosa”, que foi um dos elementos que explicam o desgaste da Monarquia entre as décadas de 1870 e 1880.

A convivência entre o Estado brasileiro e a autoridade católica foi relativamente pacífica até 1846, quando Pio IX, que ficou conhecido como o mais reacionário e ultramontano dos papas, iniciou uma campanha destinada a limitar as ingerências dos governos nos assuntos religiosos.

Esse projeto ficou ainda mais claro em 1864, quando o papa mandou publicar a encíclica Quanta Cura, que tinha como anexo o Syllabus, que rejeitava a supremacia da lei civil sobre o direito eclesiástico e criticava duramente os maçons. O objetivo do ultramontanismo, claramente, era afirmar a autonomia eclesiástica diante do poder estatal. Segundo Antônio Carlos Villaça, estudioso do pensamento político católico:

O debate ideológico está nitidamente configurado. Trata-se de uma questão doutrinal. Os bispos representam o pensamento do Syllabus, a doutrina antiliberal, o antimaçonismo (da Igreja de sempre e, sobretudo, da Igreja de Pio IX). Ao mesmo tempo, lutam pela causa da liberdade eclesial diante do Estado. Os intelectuais liberais – um Rui, um Nabuco, um Saldanha Marinho, um Cesario Alvim, um Rodrigo Otávio, um Salvador de Mendonça, um Franklyn Távora, um Aprígio Guimarães, um José Mariano – combatem o clericalismo, o ultramontanismo, a Igreja antiliberal ou antimoderna. Radicalizam-se as posições. O antagonismo é profundo. A tensão transforma-se em agitação social, nas ruas do Recife.”

(VILLAÇA, 1975, p. 57)

No Brasil, o Syllabus teve efeito explosivo e motivou, em 1872, a ação de D. Vital Maria de Oliveira, então bispo de Olinda, que expulsou os maçons das irmandades religiosas, lançando sobre eles interdito que lhes proibia o culto. No ano seguinte, D. Antônio de Macedo Costa, então bispo do Pará, fez a mesma coisa. Segundo Roque Spencer Barros, D. Vital e D. Macedo Costa foram, no Brasil, os defensores mais leais das teses que se tornaram hegemônicas no pontificado de Pio IX.

Ambos estudaram na Europa, onde tiveram contato com as ideias ultramontanas, e estavam ideologicamente prontos para enfrentar aqueles que julgavam ser os inimigos do catolicismo, como os maçons e os políticos civis que tivessem qualquer pretensão de regular as atividades da Igreja Católica. Novamente, é Antônio Villaça quem explica o que estava em jogo nessas disputas entre os bispos e o imperador D. Pedro II.

Os bispos defendem a liberdade da igreja, contra a concepção galicana e regalista do conselho de Estado. Os liberais curiosamente julgam defender a liberdade em face do utramontanismo. A desobediência civil dos bispos terá sido um conflito ou um delito?” O Imperador insiste em considerá-la crime. Supõe que defende com isto a dignidade do poder civil. D. Vital e Dom Antônio de Macedo Costa estudaram na Europa, Saint Sulpice, Versalhes, Toulouse. Impregnaram-se do espírito de Pio IX, que se condensa na Quanta Cura, de 1864, com o anexo do Syllabus, este resumo, este compêndio dos erros modernos. Pio IX representa o antiliberalismo.

(VILLAÇA, 1975, p. 52)

O conflito entre os bispos católicos e o imperador D. Pedro II desestabilizou o equilíbrio entre o Estado e a Igreja Católica, fundamental para o funcionamento harmônico do padroado. Isso aconteceu exatamente quando a Monarquia estava estruturalmente fragilizada, o que colaborou para o processo de transição para a República, que se concluiria apenas em 1889.

Resumindo

Nesta seção, vimos como era a complexa a vida religiosa na Monarquia brasileira, compreendendo desde as relações, ora tensas, ora harmônicas, entre o Estado e a hierarquia eclesiástica e chegando até as ruas, com sons, movimentos e danças da religiosidade popular.

Na próxima seção, abordaremos a atividade científica desenvolvida no Brasil ao longo do século XIX.

Entendendo melhor as culturas religiosas no Império brasileiro

Assista ao vídeo com o professor Rodrigo Perez Oliveira e entenda mais sobre as culturas religiosas no Brasil Império.

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MÓDULO 3

Reconhecer os conceitos fundamentais que inspiraram os cientistas brasileiros em atuação no período da Monarquia

Ciência e cientistas no Brasil Império

A história da ciência no Brasil do século XIX foi marcada pela coordenação do Estado e pelo interesse de reivindicar para o Brasil um lugar entre as nações ditas civilizadas. “Civilização” no vocabulário da época significava, entre outras coisas, o compromisso com a “ilustração”, com o desenvolvimento intelectual e científico, com a crítica ao misticismo religioso, tudo nos moldes da cultura intelectual e científica iluminista. Como vimos na primeira seção, as missões científicas e artistas podem ser consideradas o berço da ciência brasileira, junto com as instituições que começaram a ser criadas ainda no Período Joanino.

Em relação às missões científicas, podemos destacar as de:

Período Joanino

Para Lilia Schwarcz (2016), o processo iniciado por D. João VI, e interrompido com sua volta inesperada a Portugal, teve continuidade com seu filho D. Pedro I e depois com seu neto D. Pedro II. Guardadas as especificidades do momento, o certo é que, logo após a declaração de independência, o imperador apoiava a fundação de novas instituições do saber. Esse é o caso das escolas de Direito que, criadas cinco anos após o rompimento com Portugal, tinham como meta a elaboração de um código único e desvinculado da tutela colonial, como a formação de uma elite intelectual nacional mais autônoma e capaz de convencer a opinião pública internacional do seu compromisso com as luzes científicas.

Peter Lund (1825)

Charles Darwin (1832)

Fritz Muller (1852)

Emil Goeldi (1880)

Os cientistas europeus eram financiados e recebidos com toda pompa e circunstância na corte imperial. Os governantes da época viam nessas expedições não apenas a possibilidade de conhecer melhor o território, a fauna e a flora nacional, mas também de produzir a imagem do Brasil como um país civilizado localizado nos trópicos, contando que, quando retornassem a seus países de origem, os cientistas vendessem essa imagem na Europa.

O próprio imperador D. Pedro II encarnava esse amor à arte e às ciências, envolvendo-se pessoalmente nas atividades de instituições científicas e mostrando grande entusiasmo com os avanços tecnológicos da época, como telescópios para a observação de corpos celestes e o telefone. Pedro II era conhecido nacional e internacionalmente como mecenas, como pai das artes e da ciência brasileiras. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, autor de importante biografia de D. Pedro II:

O imperador queria que sua imagem fosse a de um amigo dos livros. Seus educadores valorizavam esse lado da personalidade dele, e já o faziam retratar como leitor e estudioso. Ao longo do reinado, buscou consolidar essa imagem. Em alguns retratos, como numa litografia de Sisson de 1858, aparece com um livro na mão em frente a uma estante cheia de livros. (...) Nos últimos anos do regime, quando, já doente, perdia as rédeas do governo, os caricaturistas recorriam a seus hábitos de leitura e a seu hobby de astrônomo para o ridicularizar, sugerindo o alheamento dos acontecimentos políticos.

(CARVALHO, 2007, p. 223-224)

Em relação às instituições científicas, notabilizaram-se as seguintes fundações:

1808

Colégio Médico da Bahia, em 1808 (transformado em Faculdade de Medicina em 1832), e da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, também em 1832. Em 1808, foi criada Academia Militar do Rio de Janeiro, que posteriormente daria origem à Escola Politécnica, uma das principais referências nos estudos de Engenharia no Brasil oitocentista.

Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia.

1818

O Museu Real, posteriormente chamado de Museu Nacional de História Natural, foi criado em 1818.

Vista do Paço de São Cristóvão, por Jean-Baptiste Debret.

1827

As faculdades de Direito de São Paulo e Pernambuco foram fundadas em 1827.

Faculdade de Direito de São Paulo, foto de Jean Georges Renouleau, 1880.

1818

O Instituto Histórico e Geográfico foi criado em 1838.

Emblema do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

A melhor compreensão da história da ciência brasileira no período da Monarquia demanda o esforço de examinar o perfil social dos homens que ocupavam essas instituições e as ideias que os inspiravam, tanto no que se refere ao conceito de ciência em voga como aos projetos que tinham para o desenvolvimento do Brasil.

Seria algo precipitado afirmar que a ciência brasileira produzida no século XIX era tão somente uma ideologia de elites, apesar de os seus produtores serem, em sua maioria, filhos das elites agrárias. A ideologia científica traduzia outros valores, diferentes daqueles que permeavam o imaginário das elites brasileiras na primeira metade do século XIX, em grande parte marcados por ideias de tipo antigo, como o misticismo religioso.

Projetos que tinham para o desenvolvimento

“Se essa elite ilustrada não era, em sua maioria, originária das camadas mais pobres, também não pode ser entendida como totalmente oriunda ou até mesmo porta-voz exclusiva dos interesses das classes dominantes. Por outro lado, se é certo que sua composição social os situaria como membros das camadas mais altas da sociedade, sua atuação não pode ser exclusivamente explicada em termos de pertinência de classe. Por fim, apesar dos estreitos laços de parentesco que atavam certos intelectuais a famílias de proprietários de terra, sua atuação se dá em um contexto urbano, o que já os diferencia de seu grupo de origem. Assim, esses intelectuais da Ciência, a despeito de sua origem social, procuravam legitimar ou respaldar cientificamente suas posições nas instituições de saber de que participavam e por meio delas”.

(SCHWARCZ, 2016, p. 26).

O cientificismo oitocentista afirmava a superioridade da razão sobre a fé, da cidade sobre o campo, da indústria sobre a agricultura. Os homens de ciência brasileiros da época, portanto, estavam mais comprometidos com os princípios da modernidade ilustrada europeia do que com os valores de seus pais e avós.

Em pesquisa sobre o funcionamento do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que tomou para si a tarefa de escrever uma história do Brasil de acordo com os critérios de cientificidade vigentes na época, Manoel Salgado destaca como o instituto funcionava também como espaço para a socialização de uma elite letrada comprometida com os valores da ilustração europeia

O recrutamento, segundo as normas estabelecidas pelos primeiros estatutos, dava-se fundamentalmente pela via das relações sociais, sem que o candidato tivesse que provar - como os estatutos de 1851 definiram - uma produção intelectual na área de atuação e do instituto. Deste modo. um outro elemento importante se agrega à fisionomia do IHGB, conformando o tipo de produção historiográfica e - mais do que isso - o próprio retrato da Nação em processo de esboço. Marcada pelos critérios que presidem e organizam um tipo de sociabilização própria de uma sociedade de corte", esta produção historiográfica escapa, assim, às regras e injunções específicas do mundo acadêmico, cujo critério de recrutamento básico apoia-se no domínio de um certo saber específico.

(GUIMARÃES, 1988, p. 9)

Enquanto na Europa os estudos históricos científicos nasceram nas estruturas da universidade baseados no critério da produção especializada, no Brasil o berço dos estudos históricos nacionais recrutava seus membros a partir de critérios de sociabilidade. Participar de um grêmio letrado alimentava a simbologia daqueles homens de elite, que desejavam ser modernos, civilizados e comprometidos com a ciência. Já as faculdades de Direito de São Paulo e Pernambuco foram criadas com o objetivo específico de treinar as elites locais para a administração pública.

Joaquim Nabuco, importante liderança política da época, dizia que as faculdades de Direito eram a “antessala da Câmara dos Deputados”.

Não se tratava, então, de apenas formar profissionais do Direito, mas sim de preparar os filhos das elites para o exercício dos cargos de comando político, o que fez com que, segundo os dados apresentados pelo autor, 64% dos políticos com pelo menos um exercício de mandato ao longo dos 67 anos da Monarquia fosse egresso de uma das faculdades de Direito. Fica muito claro, portanto, a importância das faculdades de Direito para a formação de quadros políticos para Monarquia.

Deputados

Nas palavras de André Peixoto Souza (2011, p. 295), autor de importante estudo sobre as faculdades de Direito:

“As academias de Direito de São Paulo e de Recife foram, portanto, postos de recrutamento e formação dos futuros líderes, aos quais se destinavam os maiores ofícios governamentais, que, afinal, traçavam as diretrizes da nação. Obviamente o discurso lá produzido, inicialmente sob a categoria “jurídico-acadêmico”, transformou-se com naturalidade em um discurso “político”, capaz de efetivamente direcionar a estrutura do Brasil, contribuindo substancialmente para o fomento dos ideais republicanos concretizados em 1889”.

É importante dedicar alguma atenção às ideias que inspiravam esses lugares de produção científica. Guardadas as devidas particularidades de cada um desses “espaços de ciência” no Brasil oitocentista, é possível observar que a preocupação com os temas da raça, da miscigenação e do desenvolvimento nacional pautavam a atuação do conhecimento científico brasileiro na época.

Os homens de elite que ocupavam essas instituições e eram os responsáveis pela produção da ciência nacional se debatiam sobre grande questão, que não poucas vezes ganhou a forma de dilema existencial: como justificar a entrada do Brasil no grupo das nações civilizadas e cientificamente evoluídas se a realidade brasileira era bastante diferente da realidade europeia? Havia dissonância entre a expectativa, ditada pelo modelo europeu de sociedade e de racionalidade, e o Brasil real, formado majoritariamente por pobres, negros e analfabetos. Por isso, os temas da raça e da miscigenação estavam na ordem do dia, considerados fundamentais para o futuro do país.

Raça

“Nas diversas instituições, a discussão racial assumiu, naquele momento, um papel central, surgindo teses alternativas embora contemporâneas. Da frenologia dos museus etnográficos à leitura fiel dos germânicos na escola de Recife, passando pela análise liberal da escola de Direito paulista ou pela interpretação ‘católico-evolucionista’ dos institutos, para se chegar ao modelo ‘eugênico’ das faculdades de Medicina, é possível rever os diferentes trajetos que a mesma teoria percorre”.

(SCHWARCZ, 2016, p. 18).

Os textos que fundaram o IHGB são sintomáticos das prioridades das elites intelectuais brasileiras da época. Em 1838, Januário da Cunha Barbosa, o primeiro secretário-geral do Instituto já deixava claro quais eram os objetivos da agremiação.

Não se compadecia, já com o gênio brasileiro, sempre zeloso da glória da pátria, deixar por mais tempo em esquecimento os factos notáveis da sua história, acontecidos em diversos pontos do império, sem dúvida ainda não bem designados. Eis o motivo, senhores, porque dois membros do conselho da sociedade auxiliadora da indústria nacional, e também sócios do Instituto Histórico de Paris, participando dos generosos sentimentos dos nossos litteraros, se animarão a propor a fundação de hum instituto histórico e geográfico brasileiro, que, sob os auspícios de tão útil quanto responsável sociedade curasse de reunir e organizar os elementos para a história e geografia do Brasil, espalhados por suas províncias, e por isso mesmo difíceis de ser colher por qualquer patriota que tentasse escrever exatamente tão desejada história.

(BARBOSA, J. C., 2010, p. 20)

Trata-se de uma citação de época, como podemos perceber se prestarmos atenção na ortografia, que pertence à gramática da língua portuguesa do século XIX.

O Brasil era então uma jovem nação independente, recém-emancipada de Portugal, que precisava desenhar um passado que justificasse sua autonomia, mas sem romper os vínculos com a antiga metrópole e, consequentemente, com o velho mundo.

Era exatamente a ancestralidade lusitana, garantida pela permanência da família real portuguesa no controle da Monarquia brasileira (D. Pedro I era filho do rei português D. João VI; D. Pedro II era neto), que deveria ser o passaporte de entrada para o mundo civilizado.

D. João VI

D. Pedro I

D. Pedro II

É como se as elites brasileiras da época quisessem convencer a Europa de que o Brasil era diferente dos vizinhos hispano-americanos, que teriam rompido completamente com a herança europeia. Essa “história nacional”, cuja missão de escrever o IHGB trouxe para si, deveria seguir os protocolos de cientificidade que estavam sendo inventados pelos historiadores europeus da época. Mas a imitação, como já comentamos, encontrava limites práticos. O Brasil não era a Europa. O tipo de sociedade que se encontrava por aqui não era a sociedade tão idealizada pelos intelectuais brasileiros. Como resolver o dilema? Que tipo de história seria capaz de conciliar expectativas e realidade?

Em 1841, o IHGB abriu um concurso de projetos de escrita da história do Brasil. O vencedor foi o botânico alemão Karl von Martius, que já tinha estado no Brasil participando de missões científicas. Não deixa de ser curioso que o instituto histórico vinculado à Monarquia, cujas dependências foram instaladas na sede administrativa do governo monárquico, tenha escolhido um europeu para delinear as diretrizes gerais da história do Brasil que precisava ser escrita. Nas palavras de Martius:

Qualquer que se encarregar de escrever a história do Brasil, pais que tanto promete, jamais deverá perder de vista quais os elementos que aí concorrerão para o desenvolvimento do homem. São porém estes elementos de natureza muito diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo particular três raças, a saber: a de cor de cobre ou americana, a branca ou caucasiana, e enfim a preta ou ethiopica. Do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças, formou-se a atual população, cuja história por isso mesmo tem um cunho muito particular.

(MARTIUS, 2010, p. 63-64)

Como podemos perceber, a questão racial está no centro do projeto de história nacional escrito por Martius e chancelado pelo IHGB em concurso público. A mestiçagem pacífica entre as três raças constituintes da nacionalidade (a branca, a negra e a indígena) seria a grande particularidade da história brasileira, algo imprescindível que não poderia ser ignorado por qualquer um que se dedicasse a escrever a história do Brasil.

Mas engana-se, contudo, quem achar que essa mestiçagem era um convite à diversidade.

As raças constituintes não eram colocadas em posição de igualdade e a função da mestiçagem era diluir os sangues negro e indígena no sangue europeu, considerado superior. “O sangue português, em um poderoso rio deverá absorver os pequenos confluentes das raças India e Ethiopica” (MARTIUS, 2010, p. 65). A metáfora não poderia ser mais clara. A miscigenação defendida por Martius como vocação histórica nacional era o constante processo de apagamento das heranças culturais e estéticas negra e indígena. O futuro idealizado era um país branco, próximo do modelo europeu tão desejado.

Também as faculdades de Direito se debateram com a questão racial e com o tema das heranças indígena e africana, consideradas fatores de atraso para o desenvolvimento nacional.

Faculdades de Direito

“O debate racial era presente nas duas faculdades. A de São Paulo foi mais influenciada pelo modelo político liberal, enquanto a faculdade de Recife, mais atenta ao problema racial, teve nas escolas darwinista, social e evolucionista seus grandes modelos de análise. Tudo isso sem falar do caráter doutrinador dos intelectuais da faculdade de Pernambuco, perfil que se destaca principalmente quando contrastado com o grande número de políticos que partiam majoritariamente de São Paulo”.

(SCHWARCZ, 2016, p. 34)

Os cursos começaram a funcionar em 1828 e desde então o “bacharel” em Direito ganhou muito prestígio na cultura brasileira. O prestígio não se devia à profissão de advogado em si, mas sim às possibilidades políticas que o título abria e ao verniz civilizatório típico da figura do “bacharel”, tão tematizado na literatura e no pensamento social brasileiros.

No clássico Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre analisa a “ascensão do bacharel”, o que ele considerou ser um dos principais fenômenos sociais brasileiros a partir do final da década de 1830. Freyre explica que o bacharel típico era urbano e filho de latifundiários, herdeiro da elite agrária, mas afastado dos hábitos comportamentais de seus pais. O autor argumenta que foi sobretudo no governo de D. Pedro II que o bacharelismo marcou alterações na fisionomia brasileira, especialmente o começo do “romantismo jurídico”.

Gilberto Freyre

“Os bacharéis e doutores com hábitos sofisticados, trazendo com o verdor brilhante dos vinte anos as últimas ideias inglesas e as últimas modas francesas, vieram acentuar, nos pais e avós senhores de engenho, não só o desprestígio da idade patriarcal, por si só uma mística, como a sua inferioridade de matutões atrasados. O segundo imperador, ele próprio, nos seus primeiros anos de mando, um meninote meio pedante presidindo com certo ar de superioridade europeia, gabinetes de velhos acaboclados e até amulatados, às vezes matutos profundamente sensatos, mas sem nenhuma cultura francesa” (FREYRE, 2004, p. 713).

Como já vimos, as faculdades de Direito nasceram praticamente junto com o Brasil, visto que sua criação estava prevista na Constituição de 1824. As elites da época achavam importante que o Brasil tivesse seu próprio ordenamento jurídico, bebendo na fonte do liberalismo constitucional inglês, o que na época era considerado o que havia de mais avançado em termos de jurisdição.

Profundamente vinculados à lógica e dinâmica que marcaram a independência política brasileira em 1822, já em seu momento de nascimento esses estabelecimentos pareciam responder à necessidade de conformar quadros autônomos de atuação e de criar uma inteligência local apta a enfrentar os problemas específicos da nação. A ideia era substituir a hegemonia estrangeira – fosse ela francesa ou portuguesa – pela criação de estabelecimentos de ensino de porte, como as escolas de direito, que se responsabilizariam pelo desenvolvimento de um pensamento próprio e dariam à nação uma nova constituição.

(SCHWARCZ, 2016, p. 141-142)

E qual era o objetivo principal?

Construir uma legislação que, ao mesmo tempo, preservasse a Monarquia, entendida como vínculo entre a jovem nação e o velho mundo, mas rejeitasse o absolutismo, considerado pelos europeus atrasado e medieval. O que estava em jogo era, como já sabemos, produzir uma imagem do Brasil que legitimasse o ingresso no concerto das nações ditas civilizadas. Para isso, era necessário resolver, ao menos no plano discursivo, o dilema racial. As duas faculdades de Direito tomaram caminhos diferentes nessa discussão.

A instituição paulista esteve preocupada em sistematizar modelos jurídicos de cidadania excludente, que negavam a determinados grupos sociais (negros, mestiços e pobres em geral) o acesso aos direitos civis e políticos plenos. Já a faculdade pernambucana bebeu diretamente na fonte do darwinismo social, postulando diferentes ritmos evolutivos para os grupos sociais brasileiros, segundo os quais negros, mestiços e indígenas eram considerados evolutivamente inferiores.

As faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro eram inspiradas pelas mesmas concepções de ciência e civilização que as faculdade de Direito, mas se debruçaram sobre dilemas nacionais em perspectivas diferentes. Enquanto os estabelecimentos jurídicos estavam preocupados com o código nacional de leis capaz de mediar conflitos, normatizar as relações sociais, as faculdades de Medicina tomavam o Brasil como um corpo enfermo que precisava ser tratado.

Para isso, era necessário amputar a parte enferma e tratar, o que significava identificar os tipos sociais considerados sujos, contaminados e dedicar a eles os devidos tratamentos, o que incluía, em alguns casos, a possibilidade de eliminação, nos termos da cultura científica darwinista hegemônica na época. Nessa terapêutica do corpo nacional, as faculdades do Rio de Janeiro e da Bahia também guardam especificidades entre si.

Especificidades entre si

“Os médicos da faculdade do Rio de Janeiro buscavam sua originalidade e identidade na descoberta de doenças tropicais como a febre amarela e o mal de Chagas, que deveriam ser prontamente sanadas pelos programas ‘higyenico’. Já os médicos baianos farão o mesmo ao entender o cruzamento racial como nosso grande mal, mas, ao mesmo tempo, nossa suprema diferença. Ou seja, enquanto para os médicos cariocas tratava-se de combater doenças, para os profissionais baianos era o doente, a população doente que estava em questão” (SCHWARCZ, 2016, p. 190).

Apesar das diferenças e das disputas travadas pelo controle do incipiente conhecimento médico/científico brasileiro, havia um fator de convergência entre as duas faculdades: o perigo para a saúde pública era identificado no mesmo tipo social.

Os médicos cariocas consideram pretos e mestiços, com seus estilos de vida vistos como desregrados e sujos, ameaças à saúde pública. Era um tipo de gente que precisava ser educado, imunizado e reprimido pelas forças do Estado. Não havia aqui fronteira muito clara entre políticas públicas de saúde e repressão.

Os médicos baianos viam pretos e mestiços como raças inferiores, como a grande explicação para o atraso nacional e propunham como solução o incentivo à migração europeia e o controle da natalidade desses grupos, o que na época era conhecido como “eugenia positiva”.

Relembrando

Vimos nesta seção que os fundamentos da ciência brasileira foram plantados no século XIX, à luz de categorias e valores importados da Europa e que se chocavam com aquilo que podemos chamar de “Brasil real”. Era o momento de nascimento do Brasil, de disputas pela identidade nacional e pelo próprio futuro do país. As teses desenvolvidas nos estabelecimentos científicos não ficaram restritas aos grupos de especialistas e com frequência ganharam as páginas da imprensa, que no século XIX era a grande arena do debate público no Brasil. É exatamente essa relação entre imprensa, política e sociedade o tema estudado na próxima seção.

Entendendo melhor a ciência e os cientistas no Brasil Império

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MÓDULO 4

Examinar as relações entre imprensa, intelectuais e a política no Brasil durante o período da Monarquia

Imprensa, política e intelectuais no Brasil Império

Na modernidade, a história da imprensa se confunde com a história das relações de poder.

Exemplo

Não são poucos os exemplos que explicitam essa conexão. Para citar alguns: a invenção do tipógrafo no século XV permitiu a impressão em larga escala da Bíblia, o que foi fundamental para a Reforma Protestante na medida em que permitiu que mais pessoas tivessem acesso às escrituras, contrariando as interpretações feitas pela Igreja Católica.

Por entender que a imprensa funcionava como divulgadora de ideias políticas que poderiam ser perigosas para a autoridade metropolitana, Portugal proibiu o funcionamento de tipografias nas suas colônias. Nas principais revoluções modernas (na Inglaterra, nos EUA e na França), lideranças rebeldes utilizaram as páginas da imprensa para difundir suas ideias e conquistar o apoio da sociedade.

A história do Brasil não é uma exceção no que se refere às estreitas relações entre a imprensa e as disputas pelo poder político. Apesar da proibição, era possível identificar a circulação de jornais impressos na colônia portuguesa, o que colocava redatores e escritores em constante risco de serem perseguidos pelas autoridades metropolitanas.

Como já sabemos, a chegada da corte portuguesa ao territorial colonial em 1808 afrouxou algumas interdições metropolitanas, incluindo aí a permissão para a instauração da imprensa régia, o que legalizou a circulação de jornais impressos no Brasil. Segundo os estudos de Marialva Barbosa, o jornal A gazeta do Rio de Janeiro, que circulou entre 1802 e 1822, é o marco de fundação da imprensa brasileira, pois inaugurou a impressão e a circulação regular de periódicos, que se tornaram gradativamente acessíveis a um público mais amplo.

A formação desse público, contudo, não aconteceu do dia para noite, pois o fato de começarem a circular jornais impressos por si só não era o bastante para fomentar uma cultura de debates políticos nas páginas impressas. No primeiro momento, portanto, os jornais traziam basicamente informações oficiais e propagandas de medicamentos, chás e ervas consideradas terapêuticas pelo conhecimento médico da época.

Um longo período é necessário para que a imprensa ocupe lugar efetivo no jogo político das ideias que circulam na corte. Apenas após o término da censura, em 1821, são criadas condições para a proliferação de jornais, inclusive nas províncias mais distantes do Rio de Janeiro. Mas serão necessários alguns decênios façam parte do universo oral/letrado de uma população mais vasta. A teia de notícias é construída, sobretudo, pela rede de informações verbais, que podem ter origem nas letras impressas, as quais são retransmitidas oralmente a outros ou diretamente pela conversa oriunda dos ambientes privados. Ao mesmo tempo, as letras impressas passam a se nutrir do jogo das práticas verbais.

(BARBOSA, 2010, p. 21)

Quando estudamos a história da imprensa no Brasil do século XIX, é necessário ter em mente que na época o Brasil era um “oceano de analfabetos”.

Isso quer dizer, então, que os conteúdos veiculados pelos jornais eram consumidos apenas pela minoria letrada?

Como Marinalva Barbosa argumenta na citação, a leitura social das notícias não ocorre apenas pelo ato deliberado de ler. As pessoas se encontravam, conversavam, liam umas para as outras. Não há, portanto, alienação da vida social, no sentido da total incapacidade de produzir sentido para os repertórios produzidos coletivamente.

As notícias da imprensa são lidas e apropriadas em perspectivas distintas, pois os receptores não são passivos nesse processo. Essa multiplicidade de narrativas pode ser percebida especialmente em momentos de crise social e política, de instabilidade, como aconteceu na América Portuguesa entre 1820 e 1822, período no qual desenrolaram os acontecimentos que levaram à independência e à fundação do Estado-nação brasileiro.

Independência ou Morte, por Pedro Américo, 1888. Óleo sobre tela, exposta no Museu Paulista.

A historiadora Isabel Lustosa desenvolveu um estudo específico sobre a guerra travada entre jornalistas na conjuntura da independência da América Portuguesa. Em um momento marcado por intensos conflitos entre as elites metropolitanas e coloniais, a imprensa se tornou termômetro das transformações estruturais que marcaram a dissolução das relações de dominação colonial. Sobre a mudança na linguagem da imprensa, Isabel Lustosa argumenta o seguinte:

O jornal se despede dos panegíricos à família reinante, abandona a apatia modorrenta e adota um tom mais agressivo. Surgem as folhas dos que pretendem influir sobre a opinião do príncipe, do ministério, da elite, do povo. A cada público e de cada redator, o estilo correspondente. De um lado, rugiam, como dizia José Bonifácio. Os cem dragões da retórica do “Revérbero”, dos Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa; de outro, avança na agressão mais intensa, no ataque pessoal, até alcançar a linguagem que se poderia chamar de impublicável, se publicada não tivesse sido, do jornal governista “O Espelho”.

(LUSTOSA, 2010, p. 26)

Com a chegada da corte portuguesa em 1808, a autoridade metropolitana criou mecanismos para se consolidar em território colonial, como a imprensa régia. O objetivo naquele momento era difundir a imagem do príncipe bondoso e justo, assim como dar publicidade aos atos oficiais do governo. Com a crise provocada pela Revolução Constitucionalista do Porto, em 1820, o equilíbrio de forças foi alterado e parte das elites coloniais começaram a vislumbrar a possibilidade da ruptura, da transformação da América Portuguesa em Estado independente, tal como havia acontecido com os EUA em 1776.

Com a complexificação da situação política, multiplicaram-se vozes que disputavam as opiniões e os projetos de futuro. Os jornais ressonavam essas vozes, que iam desde a defesa da proclamação de diversas repúblicas, fragmentando o território, passando pela proposta de abolição da escravidão e chegando até aos veículos que sustentavam a necessidade da conservação das relações coloniais com Portugal.

Naqueles anos, ficou muito evidente aquela que cada vez mais se tornaria uma das principais características da imprensa moderna: seus vínculos com grupos políticos. Isso ficou ainda mais claro nos anos posteriores à fundação do Estado brasileiro, quando a classe política se organizou em dois partidos que, a despeito de suas diferenças, pactuavam na defesa da Monarquia e da escravidão. Tanto o Partido Liberal, na época chamado de “Luzia”, como o Partido Conservador, os “Saquaremas”, utilizavam as páginas da imprensa como arena de disputas políticas.

É possível, portanto, escrever a história política da Monarquia brasileira por meio dos editoriais de jornais como Correio da Manhã, Correio Paulistano, Gazeta de Notícias, entre outros. Não era raro, inclusive, a publicação de notas taquigráficas legislativas, acompanhada de comentários que, a depender da orientação do jornal (claramente explicitada), eram mais favoráveis a parlamentares conservadores ou liberais.

A imprensa brasileira do século XIX não é fonte apenas para a história política, mas também para a história intelectual. Como na época não havia a profissionalização do intelectual, era comum que escritores, historiadores, filósofos vendessem seus serviços para os grandes jornais.

Os livros tão conhecidos de Machado de Assis, por exemplo, não foram publicados originalmente como livros, mas sim como folhetins nos jornais. A cada edição, uma parte do livro, em formato de novela. A socióloga Ângela Alonso é autora de importante trabalho sobre a intelectualidade brasileira na segunda metade do século XIX, principalmente sobre o que na época ficou conhecido como “geração de 1870”. Não se tratou de um momento intelectual organizado, mas sim de uma geração de pensadores que compartilhavam a experiência da marginalização política na estrutura da Monarquia, o que dificultava a ascensão social desses jovens letrados.

Essa situação de marginalização relativa em relação às instâncias de poder do Segundo Reinado, tenho insistido, é a causa principal da mobilização “intelectual” dos anos 1870. E é também, vou agora argumentar o que explica sua forma, o caráter parainstitucional de suas manifestações. O movimento da geração de 1870 inicialmente procurou os meios canônicos de exprimir demandas no Império: a publicação de obras de interpretação da conjuntura, o ingresso nos partidos, a redação de panfletos e manifestos. Malograda esta via, começaram atividades paralelas para autoexpressão e difusão de suas teses fora do mundo estamental. Fundaram sociedades, clubes e pequenos jornais. Organizaram eventos, efemérides, intervenções públicas, comícios, banquetes, recitais, passeatas, viagens de propaganda.

(ALONSO, 2002, p. 267)

Não é possível encontrar nenhum tratado de fundação da geração de 1870, tampouco um texto programático manifestando sua agenda política e intelectual. Porém, uma análise mais cuidadosa da imprensa da época mostra a multiplicação de pequenos jornais, a publicação de panfletos em que jovens escritores criticavam autores consagrados. Ângela Alonso demonstra como, para aquele período, a imprensa escrita funcionava como uma espécie de termômetro das transformações mentais na sociedade, para a compreensão do “movimento das ideias sociais”, nas palavras da própria autora.

Resumindo

Mais do que qualquer outro, o século XIX foi o momento da massificação da imprensa escrita. Os avanços tecnológicos envolvendo a impressão de textos e a própria emergência das sociedades industrializadas e urbanas fizeram da imprensa escrita espaço de manifestação de conflitos sociais, políticos, religiosos e projetos de desenvolvimento econômico.

Entendendo melhor a imprensa, a política e os intelectuais no Brasil Império

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Conclusão

Considerações finais

O Brasil do século XIX mostra um país em busca de sua identidade, recusando-se a fazer parte da América Latina e idealizando certo pertencimento à comunidade cultural europeia. Essa busca atravessou todas as esferas da vida nacional, das artes à organização institucional do Estado, passando pelo conhecimento científico. É como se a imagem de um país tropical, mestiço e que pouco se assemelhava às sociedades europeias incomodasse as elites brasileiras da época. É como se o país real não coubesse no país imaginado por nossas elites políticas, científicas, artísticas e intelectuais. Aqui, neste conteúdo, nosso objetivo foi contar a história dessa angústia existencial, desse constante desencontro, dessa frustração.

Podcast

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Analisou o processo de instauração das missões estrangerias científicas e artísticas que atuaram no Brasil durante o período da Monarquia.

Compreendeu o funcionamento das culturas religiosas no Brasil durante o período da Monarquia.

Reconheceu os conceitos fundamentais que inspiraram os cientistas brasileiros em atuação no período da Monarquia.

Examinou as relações entre imprensa, intelectuais e a política no Brasil durante o período da Monarquia.