Dietas com baixo teor de fibra e excesso de carboidratos de alto índice glicêmico, principalmente açúcares, caracterizam o padrão “por fermentação”.
Identificação e interpretação das condições metabólicas para compreensão do sistema de interconexão metabólica e planejamento de conduta.
Compreender as condições fisiológicas e metabólicas, além das interconexões para um diagnóstico clínico nutricional, assim como a elaboração de uma conduta nutricional individualizada para atuação na prática clínica.
Antes de iniciar este conteúdo, tenha em mãos um bloco de notas para fazer suas anotações e tenha acesso à Internet para acessar alguns conteúdos.
Reconhecer os fatores antecedentes, mediadores e gatilhos que norteiam a teia de interconexão metabólica
Identificar os fatores individuais, genéticos e ambientais que moldam os processos bioquímicos
Formular o diagnóstico nutricional individualizado baseado no sistema ATMS
O sistema de Antecedentes, “Triggers” (gatilhos), Mediadores e Sintomas (ATMS) é um método de diagnóstico que leva em consideração a interação entre todos os sistemas fisiológicos, permitindo identificar os desequilíbrios bioquímicos/metabólicos associados às condições clínicas individualizadas.
No primeiro módulo, além de abordar os antecedentes e gatilhos, conheceremos a escala de Bristol e os mediadores para, então, no segundo módulo, explorar a teia de interconexões. Por fim, no último módulo, analisaremos um caso prático de aplicação de conduta.
Reconhecer os fatores antecedentes, mediadores e gatilhos que norteiam a teia de interconexão metabólica
Diante da crescente incidência de doenças crônicas e de sua íntima relação com o estado nutricional e hábitos alimentares, evidencia-se a importância da aplicação dos princípios da Nutrição Clínica Funcional para a manutenção do estado de saúde e redução do risco de doenças.
Os antecedentes do sistema ATMS estão relacionados à história familiar (herança genética) e de vida do paciente. Incluem fatos que ocorreram durante sua vida, desde a gestação.
Os dados coletados na anamnese para identificar os antecedentes são: hábitos de vida e de alimentação desde o nascimento, tipo de parto, atividade física, uso de medicamentos e/ou suplementos, histórico de doenças pessoais e familiares, entre outros. Pode incluir, inclusive, a saúde da mãe no momento da gestação (SOUZA et al., 2018).
O estilo de vida, principalmente no que se refere aos hábitos alimentares, pode influenciar de forma direta o desenvolvimento de doenças crônicas ou desencadear sinais e sintomas. O alto consumo de gorduras saturadas ou trans, alta ingestão de sal ou açúcar, uma alimentação pobre em fibras e desequilibrada em macro e micronutrientes são considerados fatores de risco para diabetes, doenças cardiovasculares e obesidade, notadamente quando associados a um estilo de vida sedentário.
A epigenética é caracterizada por um mecanismo associado a mudanças hereditárias na expressão do gene, que não envolvem alterações na sequência do DNA, sendo reversíveis e ainda podem ser herdadas entre gerações. Alterações epigenéticas estão associadas com o gene/dieta e interações gene/ambiente, resultando em metabolismo alterado de lipídeos, inflamação e outros desequilíbrios metabólicos que levam a doenças cardiovasculares e obesidade (ORDOVAS et al., 2011).
Contudo, segundo Hanley et al. (2010), dependendo das escolhas alimentares, alguns nutrientes podem ser capazes de reverter os padrões epigenéticos anormais, e podem induzir melhoria da saúde por meio da intervenção dietética em pontos específicos de desenvolvimento, principalmente na infância.
Nesse tópico, incluem-se hipersensibilidades ou alergias a alimentos. As reações adversas aos alimentos podem gerar quadros de alergia alimentar (mediada por IgE), hipersensibilidade alimentar (mediada por IgG, IgM, IgA, IgE e células T) e intolerância (deficiência metabólica, por exemplo, intolerância à lactose por deficiência de lactase), que podem causar manifestações clínicas, como enxaqueca, dores musculares, doenças autoimunes, ansiedade, déficit de memória e concentração, transtornos emocionais, além de alterações gastrointestinais, cardiovasculares e respiratórias.
Os gatilhos são ativados por fatores que induzem à inflamação e ao estresse oxidativo.
Radiação
Traumas
Estresse emocional
Xenobióticos
Lipopolissacarídeos bacterianos (LPS)
Vírus e parasitas
O intestino é a principal barreira. Qualquer alteração intestinal, segundo Souza et al. (2016), que curse com atrofia celular, diminuição de barreira intestinal e acréscimo da permeabilidade, aumenta a translocação de substâncias que funcionam como gatilho para desencadear uma cascata inflamatória e/ou de estresse oxidativo, alterando a atividade celular, podendo ser o principal fator para o desenvolvimento de algumas doenças crônicas.
A disbiose intestinal, estado no qual há alteração na qualidade e quantidade das bactérias intestinais (microbiota intestinal), além de proporcionar mudanças na sua atividade metabólica e também em sua distribuição no TGI (trato gastrointestinal), pode ser gatilho para doenças crônicas que cursam com inflamação e estresse oxidativo. Isso porque o intestino contém o maior reservatório de células imunocompetentes do organismo, sendo o seu desenvolvimento diretamente dependente de microrganismos intestinais. Uma microbiota saudável promove um desenvolvimento normal do sistema imune.
A disbiose intestinal pode ser avaliada de acordo com o padrão alimentar:
Outra forma de identificar as alterações intestinais e, consequentemente, caracterizar um padrão de disbiose, é pela caracteristica das fezes (imagem abaixo), segundo a Escala de Bristol para Consistência de Fezes – EBCF, desenvolvida e validada por Kenneth W. Heaton e S. J. Lewis (PERÉZ; MARTÍNEZ, 2009).
O formato das fezes se modifica em várias doenças intestinais, por exemplo, as diarreias infecciosas, colites, constipação intestinal, incontinência anal, doença inflamatória intestinal, entre outras. A investigação desses parâmetros durante a avaliação do paciente pode ser determinante no diagnóstico e acompanhamento dessas doenças. Além disso, a EBCF pode ser usada como método para investigar a evolução ou não do paciente, facilitando para o profissional a abordagem e a elaboração da melhor conduta nutricional.
| Tipo 1 |
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Pequenas bolinhas duras, separadas como coquinhos, difíceis para sair. |
| Tipo 2 |
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Formato de linguiça encaroçada, com pequenas bolinhas grudadas. |
| Tipo 3 |
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Formato de linguiça com rachadura na superfície. |
| Tipo 4 |
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Alongada, no formato de salsicha ou cobra. Lisa e macia. |
| Tipo 5 |
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Pedaços macios e separados com bordas bem definidas (fáceis de sair). |
| Tipo 6 |
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Massa pastosa e fofa com bordas irregulares. |
| Tipo 7 |
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Totalmente líquida, sem pedaços sólidos. |
| Tipo 1 |
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Pequenas bolinhas duras, separadas como coquinhos, difíceis para sair. |
| Tipo 2 |
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Formato de linguiça encaroçada, com pequenas bolinhas grudadas. |
| Tipo 3 |
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Alongada, no formato de salsicha ou cobra. Lisa e macia. |
| Tipo 4 |
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Massa pastosa e fofa com bordas irregulares. |
| Tipo 5 |
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Totalmente líquida, sem pedaços sólidos. |
Para a estratégia de “remover” são necessários patógenos, xenobióticos e alérgenos alimentares. Em xenobióticos, estão incluídos: antibióticos, fármacos, moléculas bioativas e poluentes. Dessa forma, deve ser orientado o consumo de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos e aditivos químicos, tais como glutamato, sulfitos e nitratos que são adicionados a muitos produtos industrializados (SARTOR, 2012).
Para “reinocular” é necessário modular a microbiota intestinal. Nesse ponto, é importante investigar a ingestão de fibras e, se for necessário, fazer a suplementação com frutanos (inulina e frutooligossacarídeo – FOS), que são fibras 100% fermentáveis, além de verificar também a necessidade de suplementar probiótico. Os Lactobacillus são importantes para colonizar principalmente o intestino delgado e o gênero Bifidubacterium, para albergar o intestino grosso. A legislação brasileira, determina que a quantidade mínima viável de cepas deve estar na faixa de 108 a 109 UFC (unidades formadoras de colônia) na porção diária (BRASIL, 2007).
Para “reparar” as células intestinais é necessário fornecer o substrato energético principal, ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que são produzidos quando há fermentação de fibras pelas bactérias. Além disso, a suplementação de glutamina, em torno de 5g/dia, também tem sido associada, já que esse aminoácido tem a função de favorecer a replicação celular. Outros nutrientes como zinco, ácido fólico, vitamina A (DAVIDSON; KRITAS; BUTLER, 2007) e os polifenóis (TOMÁS-BARBERÁN; SELMA; ESPÍN, 2016) também são necessários para o reparo da mucosa intestinal, além do aumento da ingestão hídrica.
É fundamental que seja feita a reavaliação, após todas as etapas, para verificar a eficácia do tratamento e se haverá necessidade de recomeçar.
Como o nome já diz, os mediadores são substâncias que mediam os sintomas, ou seja, que desencadeiam as manifestações clínicas sintomatológicas. Segundo Souza et al. (2016), os principais mediadores estudados são:
Hormônios
Neurotransmissores
Neuropeptídeos
Citocinas
Radicais livres
Os mediadores hormonais podem ser modulados por meio da nutrição.
O Cortisol, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais, cuja função é controlar o estresse, reduzir inflamações, contribuir para o funcionamento do sistema imune e favorecer a homeostase da glicose, pode ser modulado por:
Aparentemente este fitoesterol modula os efeitos do cortisol, em especial após o exercício.
Fosfolipídios encontrados nos peixes, vegetais folhosos escuros, na soja e no arroz. É fundamental para o adequado funcionamento dos neurônios. Sua suplementação por 3 semanas reduziu os níveis de ACTH (hormônio corticotrófico ou corticotrofina) e cortisol plasmático.
É um aminoácido encontrado no chá-verde que atravessa a barreira hipotalâmica, exercendo propriedades psicoativas e reduzindo estresse físico e mental pelo controle dos níveis de cortisol. Além disso, aumenta a produção de GABA (ácido gama-aminobutírico).
Já a insulina, ou melhor, a resistência à insulina, é uma alteração comum do paciente que apresenta alteração dos mediadores hormonais, principalmente em pacientes que apresentam inflamação ou alguma doença crônica. Sua modulação pode ser feita por meio de nutrientes como:
Previne o estresse oxidativo, prevenindo a resistência à insulina e disfunção das células beta.
Melhoram a fluidez da membrana celular, aumentando a atividade do receptor de insulina e, com isso, a sensibilidade ao hormônio.
Melhora a sensibilidade à insulina por meio do aumento do número de receptores de insulina e da maior translocação de GLUT4, auxiliando no controle glicêmico.
O magnésio melhora a atividade dos receptores de insulina.
É cofator na síntese e utilização da insulina. Além disso, por ser antioxidante, protege a insulina da degradação.
Promove uma ativação geral da síntese proteica das células beta pancreáticas, estimulando a conversão da pró-insulina e insulina.
Sendo assim, o sistema ATMS (imagem a seguir) interage entre si, desencadeando alterações funcionais que estão interligadas e conectam-se de tal forma que, para o tratamento adequado, o cuidado deve ser multidisciplinar, pensando na funcionalidade das células e melhoria das conexões entre órgãos e sistemas.
A especialista Aline Cardozo Monteiro fala sobre o sistema ATMS na conduta do nutricionista.
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Identificar os fatores individuais, genéticos e ambientais que moldam os processos bioquímicos
A nutrição, segundo Souza et al. (2016), é uma ciência integrativa que deve ser fundamentada em evidências científicas e baseada nas inter-relações dos sistemas orgânicos, que consideram os aspectos fisiológicos, cognitivos, estruturais, genotípicos, bioquímicos e emocionais, de forma individualizada.
Na teia, é possível identificar as alterações que envolvem: assimilação, energia, integridade estrutural, comunicação, transporte, defesa e reparo, biotransformação e eliminação (imagem abaixo), sendo possível, então, interagir com o sistema ATMS.
Segundo Naves e Paschoal (2014) e Carnauba et al. (2018), para entender a teia, devemos conhecer seus pontos:
Esta ferramenta considera que o controle das emoções, a saúde mental e a crença espiritual estão no centro do indivíduo, norteiam tudo que ele acredita e também como lida com as situações. Sendo assim, modificações nesses três pontos interferem em todos os outros ou todos os outros aspectos podem alterar essas condições.
Este ponto compreende a função do trato gastrointestinal (TGI) desde a mastigação até a formação e eliminação das fezes. Inclui aspectos que envolvem a digestão, absorção e saúde intestinal.
É essencial considerar os aspectos funcionais e secretórios (enzimas, hormônios) do TGI, a composição da microbiota intestinal (JONES, 2016) e as condições estruturais, como integridade celular e barreira intestinal, além de como tudo pode interagir com o metabolismo, o eixo intestino-cérebro e o sistema imunológico.
O ponto defesa e reparo está relacionado com o sistema imunológico, que é alvo de diversos fatores exógenos e endógenos a que o indivíduo se expõe desde a vida intrauterina.
Avalia o metabolismo energético e a atividade da mitocôndria, além de toda a geração de espécies reativas de oxigênio, gerada durante o metabolismo energético, que pode induzir o estresse oxidativo.
Os fatores que devem ser levados em consideração nesse ponto envolvem principalmente o estilo de vida e hábitos alimentares. O estresse emocional, o alto consumo de gorduras trans, frituras, bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e ricos em xenobióticos, associados à inatividade física ou exercício físico extenuante podem contribuir com o estresse oxidativo. Condições ambientais como poluição, toxinas e metais tóxicos também podem induzir maior geração de espécies oxidativas.
Todos os fatores agressores podem, ainda, contribuir com a diminuição da defesa antioxidante endógena, levando ao desequilíbrio e causando danos às estruturas de lipídios e proteína, e até mesmo ao DNA, o que facilitaria o desenvolvimento de alterações metabólicas, disfunção mitocondrial e o desenvolvimento de doenças.
Compreende a destoxificação hepática. Nesse ponto, deve ser considerada a exposição a diferentes fontes de xenobióticos e compostos tóxicos (principalmente poluentes, toxinas ambientais, metais tóxicos, álcool, medicamentos e substâncias químicas presentes em alimentos como aditivos e corantes), os mesmos que também alteram a geração de energia eficiente.
A destoxificação ocorre principalmente nos hepatócitos (60% das enzimas de biotransformação) e nos enterócitos (20% das enzimas de biotransformação) e sua capacidade é influenciada por vários fatores como: genéticos (polimorfismos), estado nutricional, sexo, idade, atividade física, carga tóxica recebida do meio ambiente, uso de medicamentos e doenças, em especial, as hepáticas. O jejum, a deficiência de proteínas e o uso de álcool são fatores que reduzem drasticamente o nível de glutationa hepática. E é dividida em fases:
Esta etapa acontece por atividade do citocromo P450, que é uma das proteínas responsáveis por oxidar substâncias tóxicas para torná-las mais polares e hidrossolúveis.
Metabólitos sofrem reações de conjugação (sulfatação, acetilação, metilação, glutationa e glicuronidação). As toxinas (formadas na fase I ou como foram recebidas) são transformadas em moléculas passíveis de excreção, hidrossolúveis, além de neutralizar sua possível reatividade.
O metabólito formado na fase II será transportado para a circulação e, então, ao seu destino final, para sua eliminação por meio das fezes, urina, suor ou leite materno.
O suporte nutricional é fundamental para ajudar na destoxificação hepática.
Na fase I, sendo o citocromo P450 uma heme proteína, é necessário um aumento da ingestão de nutrientes do grupo heme para que ele seja sintetizado, por exemplo, cobre, zinco, vitamina A, riboflavina, piridoxina, ácido fólico, vitamina B12 e ferro.
Na fase II, temos várias reações químicas, sendo que a metionina, um aminoácido essencial, está intimamente envolvida com várias reações. Nesta fase, é importante retirar todos os xenobióticos, mas também aumentar a ingestão desse aminoácido.
Além disso, nesta fase, por meio das reações de biotransformação, ocorre a geração de espécies reativas de oxigênio e, para prevenir o dano celular e o estresse oxidativo, é fundamental o consumo de alimentos antioxidantes que ajudam nesta etapa.
Em destaque, tem-se as brássicas (couve-flor, brócolis, repolho, nabo), ricas em glicosinolato, composto que sofre ação da enzima mirosinase e é convertido em outros compostos, incluindo os isotiocianatos. Para que seja metabolicamente ativo, precisa estar na forma de isotiocianato, que é formado por meio da ação de uma enzima chamada mirosinase. Para ativar essa enzima e facilitar seu contato com o glicosinolato, é necessário o rompimento das paredes celulares, por meio do corte, mastigação ou trituração.
Os isotiocianatos são capazes de inibir enzimas de fase I, que são responsáveis pela bioativação de carcinógenos, e acelerar as enzimas de fase II, que determinam a detoxificação de compostos potencialmente tóxicos.
O transporte está relacionado à saúde dos sistemas cardiovascular e linfático. Esse ponto tem o papel de avaliar a eficiência da sinalização e do transporte de nutrientes, hormônios e/ou neurotransmissores, a fim de garantir sua entrada e atividade na célula-alvo, assegurando uma função adequada ao tecido.
Considera que todas as reações bioquímicas endógenas são coordenadas pela ação de hormônios e neurotransmissores, que precisam estar em perfeito equilíbrio para manutenção da homeostase orgânica. Vários fatores alteram a ação desses mensageiros, como a alimentação, estresse físico e emocional e o excessivo contato com toxinas ambientais que atuam como disruptores endócrinos.
A integridade de membranas celulares, saúde óssea e demais aspectos estruturais dos indivíduos são levados em consideração neste ponto.
Uma vez conhecendo todos os pontos da teia de interconexão metabólica e identificando os sinais e sintomas relacionados a cada ponto, é possível fazer a conexão com o sistema ATMS e traçar o diagnóstico nutricional.
A especialista Aline Cardozo Monteiro fala sobre a importância da teia de interconexões metabólicas na conduta do nutricionista.
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Formular o diagnóstico nutricional individualizado baseado no sistema ATMS
A interpretação e diagnóstico por meio do método ATMS são baseados na investigação que norteia a Nutrição Funcional.
O termo “funcional” aplica-se às manifestações de alterações nos processos fisiológicos que interferem em toda a vida do indivíduo, desde manifestações de doença a alterações sintomatológicas, podendo inclusive identificar padrões individuais de metabolismo (SOUZA et al., 2016).
A finalidade é traçar um diagnóstico e uma conduta nutricional individualizados, que levem em consideração a bioquímica, o genótipo e a suscetibilidade genética do paciente.
É base para a terapia nutricional funcional. Tem como princípio de que cada organismo é único e apresenta necessidades nutricionais diferentes, necessitando de condutas baseadas no rastreamento de sinais e sintomas de acordo com as características apresentadas por cada indivíduo.
Para essa relação, devemos considerar todos os aspectos descritos em “antecedentes” no sistema ATMS, mas também as manifestações clínicas individuais.
Fatores como hábitos alimentares, atividade física, utilização de produtos de limpeza e higiene pessoal (xenobióticos), exames laboratoriais, sinais e sintomas, fatores emocionais ou como lida com as emoções, sono, composição corporal, tudo influencia a individualidade bioquímica e deve ser levado em consideração na hora de traçar o diagnóstico.
Segundo Baptistella et al. (2018), além da individualidade bioquímica, as necessidades nutricionais levam em consideração a teia de interconexão metabólica. Dependendo do(s) ponto (s) da teia que está(ão) alterado(s), o perfil nutricional do indivíduo muda e é necessário atender a essas questões de forma individual.
Para o diagnóstico nutricional, deve-se levar em consideração todas as alterações da teia, identificando estado nutricional, sinais e sintomas, alterações bioquímicas e identificar as principais deficiências nutricionais, a fim de traçar a conduta adequada e o planejamento individualizado.
Após identificar todos os pontos que precisam ser cuidados, o profissional precisar traçar metas alcançáveis dentro do prazo que determina para a reconsulta.
As metas devem ser traçadas de acordo com o que deseja melhorar dentro do estado clínico do paciente, mas também deve atender às preferências individuais e hábitos do paciente.
Mudanças drásticas na alimentação podem gerar ansiedade, desconforto e frustração, por isso, as metas devem ser criadas de forma a melhorar todos os pontos da teia, mas de forma gradativa e viável para o paciente.
Pontos da teia de interconexão metabólica e principais nutrientes envolvidos
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Assimilação: funcionamento do trato gastrointestinal – da digestão à eliminação das fezes. Principalmente absorção.
Principais nutrientes/compostos ativos: ômega-3, fibras dietéticas, polifenóis, probióticos, prebióticos (FOS, inulina, oligofrutose), vitamina A, vitamina D, zinco, glutamina. |
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Biotransformação e eliminação: compreende o processo de destoxificação hepática, considerando a exposição a xenobióticos e compostos tóxicos.
Principais nutrientes/compostos ativos: vitaminas (A, C, D, E, K), cálcio, magnésio, potássio, zinco, cobre, selênio, ferro, manganês, ômega-3, N-acetilcisteína, metionina, BCAA, quercetina, rutina, flavonoides, antocianinas, isoflavonas, polifenóis do café, resveratrol, cúrcuma, isotiocianatos, coenzima Q10, SAME, silimarina. |
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Transporte: investiga a saúde dos sistemas cardiovascular e linfático.
Principais nutrientes/compostos ativos: vitaminas (A, C, D, E, K e complexo B), cálcio, magnésio, zinco, cromo, selênio, fibras, ômega-3, ácido lipóico, coenzima Q10, catequinas, resveratrol, antocianinas, cúrcuma longa, Hibiscus sabdariffa, Cynara scolymus, polifenóis do cacau. |
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Integridade estrutural: considera a integridade de membranas celulares, saúde óssea e demais aspectos estruturais.
Principais nutrientes/compostos ativos: vitaminas (A, C, D, E, K e complexo B), cálcio, magnésio, silício, boro, zinco, cobre, ferro, manganês, creatina, leucina, whey protein, proteínas vegetais, colágeno e seus peptídeos bioativos, ácidos graxos poli-insaturados, resveratrol, coenzima Q10, Boswellia serrata, cúrcuma longa, Zingiber officinale. |
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Comunicação, mente e emoção: o equilíbrio dos fatores emocionais, mentais e espirituais é essencial para a saúde dos sistemas. Considera a importância da modulação de hormônios e neurotransmissores como: dopamina, serotonina, melatonina, ácido gama-aminobutírico, ocitocina, entre outros, que auxiliam na atividade neuroendócrina e regulação de fatores emocionais.
Principais nutrientes/compostos ativos: magnésio, zinco, selênio, cromo, vitaminas (C, D e E), vitaminas (B3, B12, B9 e B6), ômega-3, N-acetilcisteína, ácido lipóico, coenzima Q10, carnitina, triptofano, teanina. |
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Defesa e reparo: o ponto defesa e reparo aborda a relação entre alterações imunológicas, estado inflamatório e infecção.
Principais nutrientes /compostos ativos: vitaminas (A, C, D, E e complexo B), zinco, selênio, magnésio, cobre, ferro, ômega-3, glutamina, arginina, taurina, BCAA, nucleotídeos, resveratrol, curcumina, quercetina, epigalocatequina-3-galato, nucleotídeos, mel, própolis, geleia real, pólen, probióticos, prebióticos. |
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Energia: o ponto energia avalia o metabolismo energético e a função mitocondrial.
Principais nutrientes/compostos ativos: magnésio, cálcio, zinco, ferro, cromo, vanádio, complexo B, vitamina C, ácido lipóico, coenzima Q10, ômega-3, CLA, polifenóis, Hibiscus sabdariffa, Garcinia mangostana, Eriobotrya japônica, cúrcuma longa, Camellia sinensis, Ilex paraguariensis, Undaria pinnatifida, Citrus aurantium, Citrus sinensis L. OsbeckCapsicum spp., Cinnamomum spp., Zingiber officinale. |
Um exemplo para elucidar todo o método de avaliação pelo sistema ATMS e aplicar à teia de interconexão metabólica é o caso clínico a seguir:
Na avaliação de consumo alimentar foi possível observar uma alimentação rica em açúcares, gordura saturada e proteínas (alta ingestão de carnes); pobre em fibras, frutas e verduras. Paciente relata gostar de frutas e verduras, mas “não tem o hábito” de consumir, Ingere em média 2L de água/dia, tem horários irregulares para alimentar-se e “pula refeições”.
Relata gostar muito de biscoitos, pizza, café (toma cerca de 10 copinhos por dia, adoçados com açúcar), churrasco e cerveja. Além disso, diz que pelo fato de ter uma rotina “bastante corrida”, acaba comendo muito rápido, normalmente na frente do computador.
Após ler e interpretar o caso, podemos identificar por meio do sistema ATMS quais são os principais antecedentes, gatilhos e mediadores, sendo possível colocar todos os itens na Teia e fazer as principais conexões (imagem abaixo).
Para o planejamento alimentar serão necessárias as intervenções nutricionais de acordo com o quadro a seguir.
| Intervenção Nutricional |
|---|
“Assimilação”:
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“Integridade estrutural”:
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“Defesa e reparo”:
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“Estresse mental e emocional”:
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“Transformação e eliminação”
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A especialista Aline Cardozo Monteiro fala sobre os critérios de diagnóstico nutricional baseado no sistema ATMS.
Para desbloquear o próximo módulo, é necessário que você responda corretamente a uma das seguintes questões:
Clique aqui e retorne para saber como desbloquear.
Como vimos ao longo dos três módulos, o método de investigação pelo sistema ATMS visa a compreensão de todos os pontos individuais do paciente, fazendo as conexões necessárias para entender todas as manifestações clínicas e, com isso, permitir uma conduta individualizada, que previna ou atenue processos patológicos associados às doenças.
Agora, a(o) especialista Giselle França da Costa encerra o tema falando sobre o histórico do sistema ATMS no Brasil e o efeito da implementação na qualidade de vida dos pacientes.
Reconheceu os fatores antecedentes, mediadores e gatilhos que norteiam a teia de interconexão metabólica
Identificou os fatores individuais, genéticos e ambientais que moldam os processos bioquímicos
Formulou o diagnóstico nutricional individualizado baseado no sistema ATMS