Descrição
Estudo da cultura, dos costumes e dos aspectos da identidade portuguesa por meio das representações literárias.
PROPÓSITO
Compreender a produção literária em Portugal para o conhecimento da identidade e da cultura da sociedade portuguesa.
Preparação
Tenha em mãos um dicionário de literatura para compreender o vocabulário específico da área. Na internet você acessa gratuitamente o E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia, e o Dicionário de Cultura Básica, de Salvatore D’Onofrio.
OBJETIVOS
Módulo 1
Identificar aspectos da cultura e da sociedade portuguesa a partir de sua literatura
Módulo 2
Relacionar as representações da saudade, do amor e do “eu” com a poesia modernista
Módulo 3
Reconhecer as representações da religião e da sociedade em Saramago
Introdução
Quais são alguns dos principais temas e tendências da literatura portuguesa?
Essa é a pergunta que nos orienta neste estudo sobre a produção literária em língua portuguesa, a partir da identificação das principais relações entre história, cultura, sociedade e literatura.
Entre tantos autores importantes, vamos destacar a obra de Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Florbela Espanca e Saramago, sem deixar de relacioná-las eventualmente com outros autores, como Camões.
Também vamos abordar o tema da saudade e do amor, além de observar como o “eu” é representado na literatura portuguesa.
MÓDULO 1
Identificar aspectos da cultura e da sociedade portuguesa a partir de sua literatura
contexto histórico-cultural
Portugal se tornou uma nação independente desde o século XII. Lá viveram vários povos, como romanos, bárbaros e árabes, o que conferiu ao país uma cultura rica, de origem múltipla, mas que, ao mesmo tempo, soube encontrar traços muito próprios na música, na literatura, na arquitetura, na dança, na gastronomia e nas artes em geral.
Exemplo
Há também influências italianas, francesas, espanholas e brasileiras, pois são povos que em muitos momentos da história moderna estiveram presentes, por meio de imigrações, disputa de territórios e poderes, ou mesmo por interações comerciais e culturais.
De todo esse amálgama, nasceram fenômenos e traços culturais que se cristalizaram como tipicamente portugueses. Como exemplos, podemos citar:
Festa cristã de Nossa Senhora dos Remédios.
Dança de origem celta dos Pauliteiros de Miranda.
Vinho do Porto, produzido na região do Rio Douro.
Comida de origem mediterrânea baseada em peixes e azeite, como o bacalhau e o pastel de Belém.
Ainda temos marcas arquitetônicas muito claras, como a influência da construção com azulejos, vindos da decoração árabe, mas também com traços espanhóis e italianos, assim como o desenvolvimento singular de elementos do Barroco, como o Barroco Joanino, presente no Convento de Mafra, ou o Estilo Manuelino, uma adaptação criativa do gótico europeu.
Na música, o fado é marcante, ainda que tenha sua origem, apesar de incerta, provavelmente amalgamada em traços diversos, como as cantigas medievais de amigo ou de amor. Também na música, podemos mencionar o lundum (que teria chegado pelo contato com os escravizados brasileiros vindos da África) e, com certeza, a música árabe, notadamente melancólica e que coloca ênfase na melodia e no ritmo.
Saiba mais
Portugal é um país fortemente religioso, 77% da população é católica, por isso, muitas práticas e vários aspectos culturais são devedores dessa religiosidade, sendo uma das atividades mais famosas em todo mundo a visita ao Santuário de Fátima. Dessa religiosidade, com efeito, temos um diálogo, ora cordato, ora crítico, com boa parte da história da literatura portuguesa.
Nesse sentido, no tocante à literatura, Portugal tem um destaque especial, dada a qualidade de seus autores, importantes para a literatura mundial.
Esses aspectos culturais mencionados brevemente apontam para elementos constitutivos da identidade portuguesa. Vamos continuar tratando deles; mas antes é importante atentar para o sentido com o qual empregamos o termo identidade.
Identidade
Quando falamos que um povo, um país, uma cultura tem identidade, estamos querendo dizer que existem alguns traços culturais em comum, construídos ao longo do tempo. Essa identidade se faz presente em uma língua, em costumes, tradições, hábitos, valores, símbolos etc., que se misturam com a história de formação de um povo. Contudo, não devemos transformar uma identidade em estereótipo, que seria reduzir todas as diferenças internas de uma formação histórica e cultural a traços fixos, imutáveis, e que podem ser atribuídos a todo e qualquer elemento ou indivíduo presente em uma cultura. O estereótipo é a extensão prolongada de uma “verdade” genérica, que pode se aproximar do preconceito, já que reduz as diferenças, que são resultado de transformações históricas, em igualdades imutáveis.
formação cultural
A cultura de um povo não vem “do nada”, isto é, uma cultura tem profundas ligações com o “solo” histórico de cada povo ou nação. No caso de Portugal, as manifestações culturais, sejam populares, induzidas por academias, ou fruto de influências estrangeiras, estão absolutamente entrelaçadas com a história portuguesa.
Mas é interessante falar por meio de alguns exemplos.
Na arquitetura
Durante a ocupação romana, há um início da urbanização e, evidentemente, as construções devem muito ao estilo clássico. Com a invasão muçulmana, os traços se orientalizaram. Já a arquitetura manuelina, que teve origem no reinado de D. Manuel, em 1495, é uma adaptação do estilo gótico renascentista, muito comum na Itália. No século XVIII, com o Barroco, as igrejas ganharam formas ornamentais ao estilo europeu, como no Convento de Mafra. No governo Salazar, ultranacionalista, já no século XX, a arquitetura seguiu por esse viés, com a busca de elementos tipicamente portugueses, isto é, mais próximos de uma história de singularização do que de universalização das formas.
Na música
Temos de forma marcante em Portugal o fado, patrimônio cultural da humanidade. Há controvérsias sobre sua origem, mas todas elas remontam à história de Portugal. O fado tem influência da música dos mouros que viveram séculos no país, pois as tonalidades e melodias lembram os cânticos orientais. Outras teorias apontam para uma origem próxima ao lundu, música dos negros africanos, e às demais danças angolanas, que teriam trazido a influência na relação de Portugal com as colônias. Mais uma hipótese é a proximidade das letras com as canções de amigo e de amor, herança da Idade Média.
Na literatura
Os laços entre representação e história são intrínsecos.
Um dos maiores escritores de Portugal e do mundo, Luís Vaz de Camões (1524-1580), na obra Os Lusíadas, consegue abarcar as transformações históricas e culturais na forma e nos temas da obra. Isso porque a época era de transição entre o mundo feudal, com suas referências cristãs, e o mundo do mercantilismo, que colocava os referenciais cristãos em questionamento em favor dos modelos clássicos. Desse modo, Camões mescla em sua obra a mitologia clássica com simbologias e referências ao mundo cristão, fazendo conviver na literatura a travessia da Idade Média para a Idade Moderna.
Saiba mais
Autores como Manuel du Bocage (1765-1805), no classicismo, assim como Fernando Pessoa (1888-1935), no modernismo, souberam captar a atmosfera pulsante das transformações históricas, inserindo-as em suas manifestações literárias.
Dito isso, um caso exemplar nos chama à vista: Eça de Queiroz (1845-1900). Pertencente ao universo do realismo, mas extrapolando-o, o escritor português soube como nunca pintar a sociedade portuguesa, não sem realizar críticas aos costumes e valores de seu país, mas, sobretudo, aprofundando o desenho social lusitano em uma literatura diversa e instigante.
a obra de eça de queiroz
A obra de Eça possui várias fases e facetas, é uma obra mutante, que vai desde o último romantismo, passa pelo realismo e naturalismo e desemboca, na última fase, em uma escrita voltada à imaginação e à fantasia. São fases que vão de 1860 a 1900, e que estão intimamente ligadas às transformações da história de Portugal, que vai da Monarquia à República, bem como às transformações da literatura e das ideias na Europa, que vivia uma crescente urbanização e industrialização, provocadas pela empreitada burguesa na economia e nas ciências.
Eça é identificado ao realismo, mas, devido à mutação em seu estilo, extrapola os limites esquemáticos da definição da escola literária. Alguns representantes desta geração realista, que ficou conhecida como “geração de 70”, são os poetas: Antero de Quental (1842-1891), Guerra Junqueiro (1850-1923) e Teófilo Braga (1843-1924), que viria a ser o chefe do governo republicano provisório.
Saiba mais
O realismo é fruto da ascensão da pequena burguesia urbana, na segunda metade do século XIX na Europa. O realismo teve origem na França, e representa não só uma renovação no campo literário, mas é fruto do desenvolvimento do romantismo em sua politização e ataque aos valores burgueses.
O escritor realista, apesar de criar narradores aparentemente impessoais, acaba por deixar transparecer certas posições políticas que incidem sobre questões como a religião e os valores culturais. Na maioria das vezes, as obras são ricas em análises detalhistas das personagens, compreendendo as ações destas nas relações com o meio social.
O realismo acontece em Portugal pela influência de escritores realistas franceses, principalmente Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola (1840-1902), mas pode ser creditado também, de forma embrionária, aos escritores românticos como Balzac (1799-1850) ou ainda Stendhal (1783-1842). Todos eles “pintavam” a sociedade da qual faziam parte por meio de uma aproximação com a realidade social em que viviam, considerando nessa realidade a representação de fatos históricos, das cidades, de indivíduos e, principalmente, das condições sociais efetivas ligadas a essa vida social.
O realismo, como forma de representação de elementos da realidade, de certa forma sempre existiu, mas quando falamos em realismo literário do século XIX estamos falando de uma ênfase específica dada ao real.
No caso dessa especificidade, devemos considerar a aproximação com algumas ideias e pensadores do período, que se manifestavam na forma de representação literária:
O evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882)
Defende que as espécies foram criadas em evolução gradativa (do simples ao mais complexo) e seletiva. Da seleção natural entre as espécies, os mais fortes sobreviveriam. Na literatura, aparece com um ar determinista, transferindo de forma metafórica a seleção biológica para a seleção social. Assim, o realismo utiliza o argumento do evolucionismo para representar um “darwinismo social”, isto é, falar sobre a diferença entre as classes (ricos e pobres).
O determinismo de Hippolyte Taine (1825-1893)
O meio, a herança genética e a circunstância são determinantes para definir o indivíduo. Na literatura, muitas personagens foram construídas a partir dessa determinação do meio.
O socialismo utópico de Proudhon (1809-1865)
Defendia a associação de pequenos produtores e operários para enfrentar o poderio dos mais ricos e fortes socialmente. Na literatura, aparece na construção de personagens pequeno-burgueses, a favor de uma maior igualdade social.
O positivismo de Auguste Comte (1798-1857)
O conhecimento vem da experimentação, observação e comparação da realidade. Na literatura, aparece como método de observação do escritor realista, que deveria trazer para os seus escritos elementos de observação direta da realidade, além da condução das narrativas na exposição de causas e efeitos, que seriam resultados de leis “naturais”, ou seja, leis imutáveis e eternas. Conforme Abdala Jr. e Paschoalin (1985, p. 112), “a orientação positivista situa as produções queirosianas dentro do gradativismo reformista. O curso natural da história conduziria o homem ao socialismo pela intervenção da consciência e do esclarecimento”.
Ainda teríamos a influência de pensadores como o francês Ernest Renan (1823-1892), com seus estudos anticlericais, que colocam em questão os conhecimentos religiosos, ou ainda do médico francês Claude Bernard (1813-1878), que entendia as doenças como fruto de anomalias fisiológicas e não da alma ou do espírito.
Tudo somado, temos o chamado cientificismo, que servia como atmosfera da escrita realista que, no fundo, nada mais era do que o questionamento dos conhecimentos da nobreza e da Igreja, com predomínio do conhecimento científico da burguesia e do espírito republicano. Todas as transformações pelas quais passava Portugal também se faziam refletir na visão dos escritores e em suas obras.
A obra de Eça de Queiroz flertou com todos esses elementos. Podemos identificar tal fato em, pelo menos, quatro fases de sua produção literária.
Primeira fase
Fase ainda próxima do romantismo, na qual Eça foi influenciado pela chamada “questão Coimbrã”, que reivindicava um papel social para o escritor literário, imputando-lhe a característica de engajamento social diante das representações literárias, no sentido de encarar a literatura como instrumento de transformações sociais. São desse tempo os textos esparsos reunidos no volume denominado Prosas Bárbaras. Eça era um escritor em formação que, saindo do romantismo, ainda possuía traços de utopia individualista.
questão Coimbrã
Foi uma polêmica que existiu em forma de artigos jornalísticos e folhetos, implementada principalmente pelo poeta Antero de Quental. Ele reagiu ao posfácio escrito pelo romântico Antônio Feliciano a Poema da Mocidade, obra de Pinheiro Chagas. Nesse posfácio, Feliciano atacou o novo estilo e temas da escrita literária, estilo que mais tarde seria identificado ao realismo. Em reação, Antero de Quental publicou os folhetos Bom Senso e Bom Gosto e A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, em 1865, defendendo o papel do escritor em intervir em temáticas sociais e políticas.
Segunda fase
Esta é a fase mais programaticamente realista da obra de Eça de Queiroz. É o momento em que o escritor já possui experiências de vida em várias cidades em Portugal e ainda como cônsul em Havana. É a fase de maior aproximação ao real, com soberbas críticas de costumes ao povo português. O próprio autor, em um texto importante, resume seu projeto:
A minha ambição seria pintar a Sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formam, eles e elas. É o meu fim nas Cenas da Vida Portuguesa. É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre.
(QUEIROZ, 1978, p. 50)
São dessa época, por exemplo, a primeira versão do romance O Crime do Padre Amaro e Primo Basílio.
Em O Crime do Padre Amaro, Eça dirige sua escrita realista para a crítica à Igreja, visto que sempre foi importante instituição em Portugal. Pelo que podemos entender no romance, há uma ênfase em caracterizar personagens moralmente fracassadas, embora professem os valores da tradição.
As análises das identidades das personagens são minuciosas, à moda naturalista, apanhando nos detalhes das ações e das ideias uma metáfora do atraso moral e político português frente ao desenvolvimento europeu. Eça ataca a pequena burguesia lisboeta e seus costumes fúteis e frágeis, como o casamento tradicional.
No livro, há a representação da hipocrisia política em Portugal, bem como o entrelaçamento do clero nesses interesses políticos. Há uma forte relação de constituição do indivíduo por influência do meio, fazendo valer as máximas do conhecimento científico do autor, o que aproxima a obra do chamado “romance de tese”, em que um autor se utiliza da literatura para veicular suas posições e ideias.
Terceira fase
É caraterizada como “outros mundos possíveis”. Eça evolui como escritor, absorvendo fundamentos das vanguardas artísticas europeias enquanto teve a oportunidade de viver em Paris e Londres. Apesar da distância, Portugal sempre aparece como pano de fundo de seus romances.
São dessa fase O Mandarim e A Relíquia, como também sua obra-prima Os Maias.
Em Os Maias, Eça equilibra sua visão realista com elementos que rompem com uma determinação entre meio e personagem. Em vez de o meio determinar as personagens, são as personagens que determinam a descrição da sociedade, deixando entrever que sua escrita dava margem a uma psicologia mais livre, próxima do impressionismo, na qual o que vale são os pontos de vistas heterogêneos e não uma visão única da realidade.
Saiba mais
Há ainda uma visão determinista, fatalista, mas nada ligado ao meio social senão a certo destino transcendente. Sobretudo, a não determinação abre brecha para pensarmos que tal destino poderia ser fruto também das ações diferenciadas das personagens e suas ações decorrentes do livre arbítrio.
Quarta fase
Eça dá um recuo crítico e realista, apostando mais na fantasia e na imaginação. Seus valores reformistas se atenuam, as críticas sociais são substituídas por certo gosto e retorno aos valores portugueses ditos originais. Alguns críticos apontam para os valores literários que vieram das influências europeias, as quais teriam atenuado a busca por valores e formas singulares de Portugal. Compreendemos esse pendor por consideramos que era um momento histórico de busca da identidade portuguesa, no esforço pela instauração de uma república nacional que estivesse separada de uma noção de monarquia e seus valores universalizantes. No entanto, percebemos em A Ilustre Casa de Ramires e As Cidades e as Serras não um simples retorno ao passado, mas uma busca do passado para fins de renovação da identidade portuguesa.
Para fazer um exercício de síntese, apagando a diferença entre as fases, podemos entender que a escrita de Eça de Queiroz, guardadas as devidas diferenças de estilo entre os variados projetos, sempre prezou em defender alguns pontos importantes:
Em suma, a obra de Eça sintetiza as transformações de Portugal na segunda metade do século XIX: fotografa a passagem da Monarquia para a República, identifica o caminho inicial da ruralizarão para a urbanização, faz o diagnóstico da decadência dos valores nobres e a ascensão do espírito burguês. Traz para a literatura importantes discussões acerca das ideias científicas do período, colocando-os em choque com os valores arcaicos da tradição portuguesa, na tentativa de intervenção literária na realidade de seu país. No final, Eça acabou por cumprir os ideais inscritos na questão Coimbrã, isto é, a de que o escritor deve retratar e intervir na realidade social e política do contexto em que vive.
A sociedade portuguesa em Eça de Queiroz
No vídeo a seguir, confira algumas características da obra de Queiroz a partir de sua relação com a cultura e a sociedade portuguesas.
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MÓDULO 2
Relacionar as representações da saudade, do amor e do “eu” com a poesia modernista
saudade, amor e representação do “eu”
Há uma “Mitologia da saudade” em Portugal. Mitologia talvez seja uma palavra realmente adequada, porque quando estudamos sobre o conceito de saudade nos deparamos com uma série de hipóteses sobre o surgimento da palavra e de sua conceituação.
Saiba mais
Tudo fica muito mais curioso quando falamos da noção de saudade dentro da cultura e da língua portuguesa. A palavra saudade é originária do latim solitatem (solidão). Há registros do uso da palavra pelos povos galegos, com as variantes: solitate, solitas, suidade ou soidade.
Há autores que relacionam o sentimento com uma origem celta, já que o povo celta viveu na Península Ibérica e deixou heranças culturais para os povos futuros, no caso, os portugueses. O povo celta, por centenas de anos, foi nômade e teria se enraizado nas terras hoje portuguesas, à beira mar, o que teria interrompido o fervor nômade e deixado um sentimento de ausência de um passado deixado para trás.
Há uma lenda de que a palavra saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa, mas sabemos que não é exatamente isso que acontece.
Na verdade, a palavra saudade é de difícil tradução em outras línguas, dada a peculiaridade de seu conceito atrelado à cultura específica de Portugal, mas, mesmo assim, encontramos palavras próximas em outras línguas. Hiraeth, em celta, sehnsucht, em alemão, remembrance, em inglês, señardad, na região das Astúrias, enyorança, em catalão, são exemplos de palavras que nos dão a noção de algo saudoso, distante no tempo, no espaço ou em relação a alguém. Nenhuma delas, porém, é a perfeita tradução do que é saudade na língua portuguesa, pois cada língua tem seus sentidos estabelecidos muito próximos de uma cultura e de suas formas singulares de ocorrências.
Alguns autores apontam que a posição geográfica de Portugal, à beira-mar, a pequena extensão de seu território e as condições históricas apropriadas fizeram com que Portugal partisse para ser o pioneiro nas navegações e nas descobertas do Novo Mundo.
As navegações foram fruto da condição de Portugal ter se tornado, portanto, uma potência econômica e fizeram com que uma parte da população se estabelecesse em outras terras, causando um sentimento incômodo de nostalgia, uma amargura no espírito pela falta e pela ausência dos que ficaram, bem como um sentimento de perda e, ao mesmo tempo, um desejo de recuperar o que foi perdido.
Exemplo perfeito para esse episódio da história de Portugal é o poema Mar Portuguez, de Fernando Pessoa:
Mar Portuguez
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(PESSOA apud CAVALCANTI FILHO, 2012, p. 333)
No poema, Pessoa recorre ao tema da expansão marítima portuguesa e das conquistas ultramarinas. Com a empreitada, o país “se lança ao mar”, a partida o leva ao “abismo”, isto é, às paragens incertas e a um destino desconhecido. O verso “Quantas noivas ficaram sem casar” deixa entrever uma separação entre aquela que fica e aquele que vai, deixando o sentimento de saudade como marca histórica e inevitável inerente à história de Portugal.
Mas se a palavra saudade tem um conceito mutante, qual seria, então, sua conceituação específica na história da língua portuguesa?
Segundo os estudiosos, a “saudade portuguesa” inclui um pouco de todas as noções em outras línguas. Nelly Carvalho (2006, p. 185) destaca que se trata de uma “palavra-síntese”, que mistura a solidão física e espiritual, “o desejo do amor ausente, a ânsia do impossível, o sentimento de ausência da terra, um certo instinto de morte, a melancolia da paisagem e o desejo de Deus”. Seria, pois, um sentimento melancólico de perda de experiências já vividas, que remete a situações de privação de algo, de algum lugar ou de alguém, misto de afastamento que leva a uma “sensação de morte”.
[...] tomamos [a saudade] como um anseio por voltar a estar na companhia de alguém de quem foi necessário se distanciar, uma espécie de desejo motivado por algum elo de identificação ou de afinidade; relação que pressupõe minimamente uma intersubjetividade, uma consciência da própria identidade e um processo de alteridade, que se baseia numa representação de alguém ou de alguma coisa.
(DIAS; JAREK; DEBONA, 2016, p. 10, tradução nossa)
Entretanto, há um sentido muito específico na noção da saudade portuguesa, pois, além dos sentidos ditos negativos, existem elementos que tornam o sentido paradoxal, contraditório. Notamos essa questão quando observamos que os poetas tratam a saudade com certo gosto adocicado, de proximidade afetiva aliado ao tópico recorrente nas letras.
Na mistura de ausência e nostalgia, há um certo apego ao tema, uma recorrência que não aponta só para laços amargos. A saudade é, “ao mesmo tempo, misto antinômico de alegria e dor, força de ensimesmamento e de criatividade” (CARVALHO, 2006, p. 185). Há uma ambivalência de sentidos e sentimentos, um quê de “alegre-triste”, como se a saudade trouxesse, ao mesmo tempo, a perda, mas também a lembrança de um passado feliz, ativado pela memória afetiva de coisas boas.
“[A saudade] é um bem que se padece, um mal que se gosta”, disse D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) (apud LOURENÇO, 1999, p. 30), levando-nos a pensar que há um gosto pela lembrança, pois resiste uma esperança do regresso da coisa perdida.
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), poeta português, também nesse sentido da esperança, pensa a saudade não só ligada ao passado, mas também ao futuro, algo que mistura expectativa e memória, perda e possibilidade de restauração.
D. Duarte (1391-1438), o Rei-Filósofo, famoso por seu amor às artes e às letras, governou Portugal de 1433 até sua morte. Há em seu nome dois fabulosos escritos que tratam do tema da tristeza e da saudade: O Leal Conselheiro (1843) e Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela (1843). Nessas obras, D. Duarte profere um verdadeiro tratado pessoal sobre a perda, os estados da alma inerentes à ausência, o pesar, a saudade e a tristeza.
Marcela Guimarães (2014) destaca o tema da saudade desde o cancioneiro medieval de Fernão Rodrigues Calheiros, escrito em galego-português. No poema, um “eu” feminino sofre a partida do ser amado, depois de uma longa ausência e da incerteza do regresso. A saudade aparece como sentimento da perda da alegria de viver, assim como a volta do amado e o fim da saudade fazem retornar essa alegria:
Direi vos agor’, amigo, camanho temp’ á passado
que non pudi veer cousa ond’ ouvesse gasalhado
des que vos de mi partistes
tães ora que me vistes
Des oi mais andarei leda, meu amigo, pois vos vejo,
ca muit’ á que non vi cousa que mi tolhesse desejo
des que vos de mi partistes
tães ora que me vistes
Des oi mais non vos vaades, se amor queredes migo,
ca ja mais non ar fui ledo meu coraçon, meu amigo,
des que vos de mi partistes
tães ora que me vistes
(COHEN, 2003, p. 114)
Esses sentimentos e sensações vão se adensando na alma portuguesa.
Lembramos aqui alguns capítulos da história:
Com a expansão marítima, Portugal se lançou ao mundo levando povos para outras terras.
D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir, deixando a Monarquia desamparada de sucessores, o que levou à perda da autonomia portuguesa em detrimento do domínio espanhol.
O fato gerou uma mitologia em torno da ausência de D. Sebastião, levando à criação de um movimento denominado sebastianismo, que nada mais era que esse desejo de retorno da soberania portuguesa com a suposta volta do rei que se perdera.
Com a perda da autonomia portuguesa sobre seu território, após a morte de D. Sebastião, no período da União Ibérica (1580-1640), Portugal lutou durante 60 anos por um processo de restauração.
Esses fatos ficaram gravados na literatura e na alma portuguesas, enraizando uma memória da perda e, ao mesmo tempo, de busca da autonomia perdida.
Já no mundo moderno, Portugal enviou uma boa parte da sua população para as terras ultramarinas, o que causou essa sensação de pátria perdida, ansiada, venerada, distante. No mesmo mundo moderno, Portugal passou por muitas intempéries em seus territórios, perpetradas pelas pressões econômicas de seus aliados, como a Inglaterra, e até pela perda de domínio político e territorial, como aconteceu com a França.
Todos esses percalços fortaleceram a ideia de elo perdido, reconquista, afastamento de populações, incursões de muitos indivíduos para as guerras, o que causava a ausência em relação aos seus familiares.
Portanto, saudade, para o povo português, bem como para o sentimento que está inscrito na língua portuguesa (e que o Brasil herda pela língua), é um misto de passado e futuro, perda e desejo, impossibilidade e conquista, vazio e recuperação, melancolia e luto pela recomposição de um bem perdido.
A saudade foi moldando as representações poético-literárias portuguesas em uma boa dimensão, alcançando temáticas paralelas, como representações do “eu” e as figurações diversas do amor.
No Brasil, como herdeiro cultural da tradição portuguesa, com a história cravada na língua, também temos uma tradição da representação da saudade. Para citar alguns exemplos, lembremo-nos de Chega de Saudade, de Tom Jobim, Rancho Fundo, de Ari Barroso e Lamartine Babo, ou Saudade de Itapuã, de Dorival Caymmi. Na poesia, poderíamos citar o clássico poema Meus Oito Anos, de Cassimiro de Abreu.
Com a cisão provocada pela saudade, também há uma cisão do “eu” e do amor. Amores partidos, subjetividades partidas. Amores interrompidos, históricas cortadas pela metade ou em seu nascedouro.
o amor em florbela espanca
Um caso especial na literatura portuguesa, sobre a representação da saudade, do amor e do “eu”, é a poesia de Florbela Espanca (1894-1930). Autora intimista, escreveu contos e sonetos, e sua poética é voltada para temas individualistas e afastada do teor político ou social.
Embora modernista, sua obra transparece forte ligação temática com a tradição da literatura portuguesa, que recupera na medida em que se utiliza de elementos temáticos e formais do autor de Os Lusíadas. No entanto, o possível passadismo das formas poéticas é fortemente afastado pela qualidade dos poemas.
A novidade é que, nos sonetos de Florbela Espanca, o amor aparece erotizado, sensualizado, o que chamou muita atenção no período, por se tratar de uma escrita feminina dentro de uma cultura conservadora, com era a de Portugal. Descreve o mundo, suas leituras, seus amores e suas paixões de forma acentuadamente subjetiva e intensa, não se preocupando com modelos. Tampouco esteve envolvida nas polêmicas literárias de seu tempo.
No poema Vozes do Mar podemos notar o diálogo com a tradição (Camões), ainda que de maneira renovada.
Vozes do Mar
Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d’epopeias? Tens anseios
D’amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo? ...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
(ESPANCA, 2009, p. 83)
saudosismo como movimento
Em outro episódio da literatura portuguesa, temos o saudosismo como movimento literário, criado por Teixeira de Pascoaes e divulgado pela Revista Águia, pela qual passaram poetas como Fernando Pessoa. Acontece em um momento político importante de Portugal, no contexto de uma luta nacionalista, de busca de identidade e independência.
Atenção
O saudosismo é muito mais do que um tema na literatura, pois é uma doutrina política, social, filosófica e religiosa que descrevia a necessidade de restauração e renovação, isto é, de superação da dependência cultural externa para a renovação das letras e da mentalidade portuguesa.
O tema base do movimento é a saudade, que Pascoaes considerava a alma da sociedade portuguesa, o que, segundo o escritor, conferia ao saudosismo o primeiro movimento estético autenticamente português. Com o tempo, o movimento, segundo muitos poetas que o abandonaram, tornou-se excessivamente voltado ao passado, xenófobo, provinciano, tradicionalista, até porque as preferências literárias formais do grupo eram próximas do classicismo e dos temas mitológicos.
Saiba mais
Um dos dissidentes do movimento foi Fernando Pessoa, que resolveu abandonar o grupo e se aproximar de outras dimensões estéticas ditas modernistas, movimento do qual foi um dos fundadores em Portugal e que tinha como veículo de visibilidade a Revista Orpheu.
O modernismo na Europa
Antes de avançarmos e estudarmos a vida e a obra de Fernando Pessoa, é preciso entender sua poética à luz dos movimentos modernistas na arte e na poesia mundiais da primeira metade do século XX, que, em Portugal, estavam estreitamente ligados às condições políticas do país.
O modernismo, do ponto de vista mais cosmopolita, surge com forte sentido de crítica ao sistema social e estético vigente. Opõe-se ao sistema social na medida em que suas formas claramente realizam um contraponto à industrialização excludente que se intensifica em fins do século XIX e início do XX, deixando à margem da economia uma grande parcela da população. Também se contrapunha às formas autoritárias de poder, principalmente na Europa.
Ao sistema estético das artes, o modernismo propunha uma renovação de modelos artísticos, com a superação definitiva dos moldes clássicos, criticando as formas de representação românticas e realistas, assim como aquilo que considerava passadista e apegado à tradição. Para a superação, o modernismo tinha como projeto a ideia de progresso, enquanto criticava as formas de racionalização e mecanização da vida.
Atenção
Impressionismo, dadaísmo, expressionismo, surrealismo, cubismo e futurismo são expressões vanguardistas que compunham o modernismo e possuíam a proposta de alterar totalmente as formas de representação, mais voltadas à quebra de modelos em favor de elementos originais ou novos.
No movimento, há uma forte tendência a tratar a linguagem artística e literária a partir da renovação das formas e dos temas, como fizeram Charles Baudelaire (1821-1867), Arthur Rimbaud (1854-1891) ou Stéphane Mallarmè (1842-1898), três dos grandes poetas franceses que renovaram a poesia.
Na prosa, autores como o escritor irlandês James Joyce (1882-1941), o romancista francês Marcel Proust (1871-1922), o escritor norte-americano T. S. Eliot (1888-1965), a escritora britânica Virginia Woolf (1882-1941) ou o escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962) renovaram a narrativa a partir de elementos inovadores, como a criação de personagens com profundidade psicológica, a ironia em relação aos temas da tradição, a inversão das temporalidades narrativas tradicionais, as focalizações diferenciadas da narração ou ainda a invenção de neologismos.
Na pintura, artistas como o holandês Van Gogh (1853-1890), o francês Henri Matisse (1869-1954), o holandês Piet Mondrian (1872-1944) ou o espanhol Pablo Picasso (1881-1973) quebravam a perspectiva realista, modulando figuras e traços com novas técnicas de uso do pincel, das cores, das linhas e das representações dos corpos, que inauguraram novas perspectivas de tradução do real.
Era uma busca pela autonomia da arte em relação aos objetos e fenômenos presos à realidade. Resumindo, o objetivo geral era modificar o mundo por meio da mudança das formas de representação deste mundo, na observação de que as formas artísticas já desgastadas não eram mais suficientes para abordar o mundo que tentavam superar.
O modernismo em Portugal
Em Portugal, o modernismo primeiramente se concentrou nas publicações da Revista Orpheu (1915), daí o modernismo inicialmente ser chamado de orfismo em Portugal. Assim como em outros países da Europa, nesse período o país vivia um momento turbulento, que antecedeu e sucedeu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
A instabilidade portuguesa era dada pelo conflito entre setores da classe média ligados aos trabalhadores, de cunho político de esquerda ou centro-esquerda, contra uma burguesia financeira que se conectava cada vez mais com a hegemonia do capitalismo internacional e que possuía a maior força econômica e política. Os conflitos também se estendiam a setores do clero ainda muito fortes, apesar do fim da Monarquia e da ascensão da República, bem como setores antidemocráticos e antiparlamentares mais autoritários.
Da instabilidade, surgiram muitas greves, atentados, acirrando a instabilidade política, o que causou a insatisfação popular e possibilitou o surgimento de um movimento autoritário que viria implantar uma ditadura comandada por António de Oliveira Salazar (1889-1970).
Estavam dadas as condições para o surgimento do Estado Novo, que duraria de 1933 a 1974. O Estado Novo era comandado por uma pequena burguesia, o alto clero, apoiado por forças capitalistas estrangeiras e países politicamente dominados pelo autoritarismo na Europa, como Alemanha e Itália. O resultado, para a sociedade, foi uma reafirmação no caráter rural de Portugal, a continuação do domínio português sobre suas colônias, principalmente na África, e o atraso econômico e cultural no país.
Para as artes, o resultado foi o declínio do modernismo, já que esse movimento nas artes, como vimos, possuía um viés de crítica social às formas tradicionais, à Igreja e, principalmente, aos Estados totalitários e aos seus respectivos controles políticos do imaginário.
Com o modernismo, o tema da saudade se torna menos mitológico, mais psicológico e social, já que as vanguardas, às quais o modernismo deve sua origem, foram estéticas que davam margem maior às expressões subjetivas, como o impressionismo ou o surrealismo.
Fernando Pessoa, neste caso, retoma o tema da saudade de forma muito mais ampla. Seus heterônimos principais — Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro — tratam do assunto de modo a recuperar toda a tradição portuguesa, mas com os ares cosmopolitas e universais ausentes no movimento estético do saudosismo.
A Revista Orpheu teve dois números.
Fascículo n.º 1
O primeiro foi mais voltado para uma estética ainda presa à mística do simbolismo e ao decadentismo, com forte teor religioso e nacionalista.
Fascículo n.º 2
O segundo número foi coordenado por Fernando Pessoa e pelo poeta Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), possuindo um teor mais cosmopolita/modernista, abarcando os variados “ismos” das vanguardas no campo das letras.
saudade, amor e o “eu” em fernando pessoa
A obra de Fernando Pessoa é multifacetada e emblemática quando a relacionamos com a instabilidade da história de Portugal no começo do século XIX. Fernando Pessoa, em sua obra, rompe com o romantismo e com o realismo no tocante à representação do “eu”. Ele, entretanto, ressalta em seus poemas um “lirismo pensante”, intelectual, o que foi considerado pela crítica como antilírico. Em sua obra, descortina o que chamou de “eu profundo”, com fortes inclinações para análises psicológicas, interiores, e não apenas exteriores, como no realismo, ou acentuadamente sentimentais, como no romantismo.
O poeta transita entre seus heterônimos, como se fossem personalidades distantes e com referências estéticas distintas. Alberto Caeiro possui uma poesia objetiva e ligada à natureza: em seus poemas, entrevemos a ideia de que as coisas são o que são. Há uma recusa do pensamento em detrimento do corpo: “pensar é estar doente dos olhos”, uma forma de registrar as sensações. Em O Guardador de Rebanhos, o eu lírico diz: “Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido” (PESSOA, 1993, p. 39).
Já Ricardo Reis, outro heterônimo, tem uma escrita que ele mesmo considera neoclássica, porque recorre aos moldes clássicos de composição, utilizando elementos da mitologia greco-romana e compondo odes, uma forma poética utilizada entre os gregos, com tom alegre. Sobretudo, não é um estilo espontâneo, como nos modernos, nem se dirige a compor temas ou formas originais.
Na “biografia” inventada por Pessoa, Ricardo Reis é monarquista e teria ficado insatisfeito com a ascensão da República em Portugal, fato que o teria levado a viver no Brasil.
Em seu poema mais famoso, “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, Ricardo Reis trata o amor a partir dos moldes clássicos, ou seja, pelo equilíbrio emocional e pela medida. A figura da mulher é universal, manifestando-se pela musa “Lídia”. Em vez do fervor romântico da entrega, o poeta propõe desenlaçar as mãos e contemplar o mundo em meio à sensação de brevidade da vida, negando o sofrimento pelo espírito de contemplação.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
[...]
(PESSOA apud CAVALCANTI FILHO, 2012, p. 266-167)
Ricardo Reis, portanto, é o Pessoa clássico, comedido, que confrontava o espírito de seu tempo nas artes, não tratando o amor com ironia, como os modernistas, nem submetendo aos interesses materiais, como no movimento realista, tampouco se inserindo no movimento simbolista-decadentista que atravessou o século XIX para o XX.
Outro heterônimo, Álvaro de Campos, possui poética completamente diferente: sua poesia é subjetivista, eloquente, próxima ao que foi denominado futurismo, já que essa estética da vanguarda artística, preconizada pelo italiano Marinetti, possui temática urbana, voltada ao progresso erigido pela máquina. É elogiosa da energia elétrica, das fábricas, da força, da velocidade, defendendo a derrubada de modelos poéticos anteriores. É o que vemos em um fragmento do seu famoso poema Ode Triunfal:
[...]
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
[...]
(PESSOA, 1998, p. 364)
Das fragmentações ou profusões do “eu”, Pessoa ainda possui um ortônimo (opondo-se ao heterônimo) fundamental em sua obra, que denominou “ele mesmo”. Como “ele mesmo”, temos o Fernando Pessoa que traz à tona toda a poesia portuguesa, recuperando seu cancioneiro amoroso e sentimental, dialogando com o mestre Camões e os poetas clássicos.
A tônica dos poemas é a procura de um Portugal perdido, com viés patriótico e sebastianista. É uma poesia heroica, épica e, às vezes, trágica. A coletânea de poemas Mensagem reúne os poemas em homenagem aos grandes vultos da história portuguesa, fazendo com que a escrita com traços modernistas se misture na recuperação de toda a literatura de Portugal, como se os movimentos do passado fossem revividos de forma renovada no presente.
No poema Mar Portuguez, um dos mais emblemáticos, o poeta repõe o tema das navegações portuguesas como fato histórico que imprime o caráter português: desafiador, heroico e que enfrenta os perigos do mar, como se o destino tivesse impresso a coragem necessária para romper os impedimentos para a ascensão de uma grande nação portuguesa.
O tópico da grandiosidade da nação portuguesa retomado por Fernando Pessoa é extremamente recorrente na literatura em Portugal. Lembre-se de que o país, após as navegações, obteve um dos maiores domínios territoriais de todos os impérios, rivalizando com os impérios britânico, mongol e espanhol.
Atenção
Nesse período, Portugal expandiu a fé católica e o espírito da alma portuguesa para regiões distantes, assim como dominou boa parte do comércio mundial. Após o ápice, começou a perder colônias, economicamente se fragilizou e sofreu revezes em vários momentos da história moderna. Fica, portanto, gravado na história portuguesa um sabor de domínio perdido, de Império que se findou e, ao mesmo tempo, de desejo de recuperação e restauração de uma grande nação.
Na obra Mensagem, de Fernando Pessoa (ele mesmo), essas figurações da coragem e do desafio se tornam explícitas, como nos versos de Mar Portuguez: “tudo vale a pena / se a alma não é pequena” (PESSOA apud CAVALCANTI FILHO, 2012, p. 333).
O poeta percorre toda a história portuguesa reordenando-a segundo um mito formador, que reúne todas as culturas que deram origem à história de Portugal. Segundo Somera (2019), reviver a história por um viés mítico desde o mito sebastianista em forma de arte é um modo de reordenar o passado para mirar um futuro grandioso pela recomposição da história como arte.
A saudade, o amor e o “eu”]
A seguir, confira a leitura e os comentários de poemas que retratam a saudade, o amor e a representação do “eu” no contexto da literatura portuguesa modernista.
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MÓDULO 3
Reconhecer as representações da religião e da sociedade em Saramago
vida e obra de saramago
José Saramago (1922-2010) é considerado pela crítica literária um dos maiores escritores da literatura portuguesa, ao lado de grandes nomes, como Fernando Pessoa e Luís de Camões. Sua obra, desenvolvida aos poucos e ao longo da vida, passa por várias fases, e a partir dos 60 anos de idade o escritor conquista uma escrita com estilo muito pessoal, com traços absolutamente singulares.
Saramago foi jornalista. Aos 25 anos publicou seu primeiro romance, Terra do Pecado (1947), que estaria longe do estilo dos livros mais maduros. Sua existência atravessou o período do Estado Novo em Portugal, uma ditadura implementada por Salazar, um católico de extrema-direita no tocante ao espectro político. A ditadura de Salazar em Portugal foi extremamente rígida em relação aos costumes e à censura, o que, de forma muito direta, influenciou uma literatura de resistência em um viés antifascista.
A partir dos anos 1930, vários escritores já reivindicavam uma incidência maior da literatura em temas reais da vida portuguesa, realizando críticas ao movimento do presencismo, que consideravam alheio à estrutura política, econômica e social.
Surgiu, nesse período, o neorrealismo, a partir das atuações de jovens escritores e jornalistas que se reuniam em publicações em revistas como O Diabo e Vértice. Ferreira de Castro foi um dos escritores precursores do movimento, levando a técnica jornalística para o interior do romance. Outros representantes do movimento foram Manuel da Fonseca, Fernando Namora e a primeira parte da obra de Vergílio Ferreira.
Saramago não começou sua obra como neorrealista, mas foi bastante influenciado pelo movimento com o livro Levantado do Chão (1980), como observa Mariana Dias:
Numa aproximação de tal olhar, Levantado do Chão ficcionaliza as memórias coletivas oriundas dos trabalhadores rurais alentejanos, às quais claramente se alinha o autor.
(DIAS, 2017, p. 30)
Ainda que Saramago tenha ultrapassado o neorrealismo, continuou a tratar de temas muito relevantes da vida social e política portuguesa, visto que em seus romances ressalta a memória cultural coletiva do povo português, valorizando as textualidades orais das camadas populares, que remontam à história de Portugal.
A partir da década de 1980, sua literatura conquistou o auge, com a publicação de um número significativo de romances que renovaram a literatura portuguesa e ganharam apelo mundial, culminando com a premiação do Nobel de Literatura em 1998.
estilo saramago
A partir de Levantado do Chão, Saramago foi amadurecendo sua escrita, muito próxima dos elementos do romance contemporâneo.
Em linhas gerais, seu estilo possui, entre outros, os seguintes elementos:
- Mistura de estruturas de linguagem erudita e popular.
- Intertextualidade com outras obras e personagens da literatura.
- Mutações na posição do narrador, que assume vozes sociais diversas (principalmente vozes à margem do status social).
- Mistura de gêneros literários em uma só obra (hibridismo).
- Recuperação de temas cotidianos a partir de um tom intimista.
- Uso constante da metalinguagem, o que coloca o próprio livro e a própria escrita como matéria.
- Experimentalismo da escrita e das formas literárias.
No caso particular de Saramago, sobressaem também algumas inovações que chamaram bastante a atenção:
Os parágrafos dos romances são longos, com pouca preocupação com as correções gramaticais normativas.
Há uso intenso de vírgulas no lugar dos pontos finais, fazendo com que as personagens e suas falas não sejam anunciadas por travessão, mas fiquem misturadas aos próprios pensamentos do narrador, o que causa uma sensação de mistura, embaralhamento e fluxo de consciência na leitura.
O nível da linguagem também é bastante curioso, pois o autor traz elementos da oralidade, da fala popular, mas inclui também digressões típicas da retórica de ambientes ficcionais representados em cada livro, como a retórica eclesiástica. No entanto, os elementos intertextuais, as personagens históricas e a fala popular passam quase sempre por um processo de corrosão irônica, que modifica os discursos originais ao sabor do que o escritor quer imprimir em cada obra.
A ironia e o humor corroboram o tom crítico dos livros, dirigidos aos costumes e à alma portugueses, na maioria das vezes, para desconstruí-los com um malabarismo de narração interventiva, em que o narrador comenta os fatos narrados de forma alegórica e se coloca como alguém que recupera os valores e fatos históricos portugueses com criticidade.
questões políticas
Portugal é um país bastante católico e, até certo ponto, conservador nos costumes. Atualmente, há um conflito entre as gerações mais antigas e as mais novas, porém, ainda ressalta na cultura um grande apelo à tradição religiosa. Assim, a escrita de Saramago nem sempre foi bem recebida em Portugal, visto que, em seus livros, sobressaem críticas à Igreja e ao espectro político conservador.
O autor era socialista e ateu, o que lhe rendeu muitos problemas políticos, inclusive quando ganhou o prêmio Nobel. Apesar de reconhecer as belezas do texto bíblico, por exemplo, o autor aponta a Bíblia como um livro que mostra muitas crueldades, injustiças e inconsistências históricas. Alguns livros, como O Evangelho segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento, tornaram-se tão amados quanto odiados por uma parte da intelectualidade portuguesa, principalmente por governantes e pelo meio eclesiástico.
principais obras
Saramago publicou romances, alguns contos, poemas, diários, peças teatrais. Entre suas obras, destacaremos algumas delas.
Levantado do Chão (1980)
A obra retrata a luta entre trabalhadores rurais e as forças do setor latifundiário, da Igreja e da ordem política, principalmente segundo as características do governo ditatorial de Salazar. A atenção especial se volta para o retrato da miséria no Alentejo.
Saiba mais
A crítica literária ressalta que o livro inova em alguns setores: apesar do tom épico, é uma inversão da épica tradicional, pois o foco não são os membros de uma elite e do poder, mas parte do retrato da vida ordinária dos trabalhadores; no livro, Saramago conquista a própria identidade literária, com uma escrita singular e inovadora.
Memorial do Convento (1982)
O livro marca as leituras históricas de Saramago, que descontruíram a história de Portugal pelo fazer literário. O tempo da narrativa é o absolutismo inquisitório de D. João V no século XVIII.
Atenção
A cena principal é a construção do Palácio Nacional de Mafra, mais conhecido como Convento de Mafra, monumento histórico do país e considerado um símbolo nacional. Em vez de tratar a construção como símbolo, Saramago ressalta no livro todas as injustiças que opunham uma opulenta aristocracia aos trabalhadores que construíram o prédio.
Há um entrelaçamento entre ficção e história, colocando a Igreja e o poder político contra o povo oprimido que sustentava a nobreza. De um lado, Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu Gusmão representam a ciência e a modernidade. De outro lado, o grupo ligado ao poder: o rei D. João V e a rainha Maria Ana Josefa, que defendem a inquisição e viram as costas para o sofrimento humano.
O que chama também a atenção é o detalhismo na recuperação dos fatos históricos, o que imprime verossimilhança ao texto, tornando a literatura objeto de reflexão da história e da sociedade.
O Ano da Morte de Ricardo Reis (1985)
Diferentemente de outros livros de Saramago, que relacionam literatura e história, tornando a literatura crítica da história, esta obra retoma o heterônimo de Ricardo Reis, de Fernando Pessoa, que é um personagem fictício, inventado. Assim, insere uma invenção em outra, mas inclui a personagem na trama em um momento importante da história de Portugal, mais propriamente no ano de 1935, no início da ditadura fascista do Estado Novo.
Na biografia inventada por Fernando Pessoa, Ricardo Reis é um monarquista que vai viver no Brasil após a instauração da República. Aproveitando essa biografia inventada, Saramago imagina a volta de Ricardo Reis para Portugal, 16 anos após sua partida, retornando em 1935. O poeta, então, vive de forma solitária e encontra um Portugal sombrio, triste, sob a sombra do fascismo, que se estendia por toda a Europa, e até pelo Brasil.
O discurso intertextual em O ano da morte de Ricardo Reis consolida uma escolha extrema de José Saramago, naquilo que diz respeito à problematização que seus romances promovem das relações entre a ficção e a história: constitui-se como a invenção de uma ficção sobre outra ficção, invertendo os “domínios” da História e da literatura e ativando o trânsito entre as duas instâncias, ao propor o questionamento das noções de verdade, realidade e criação.
(GOBBI, 1999, p. 106)
Jangada de Pedra (1986)
Neste romance, Saramago utiliza o realismo mágico para dar o tom da narrativa. É um livro com um teor simbólico que compara fatos, à primeira vista completamente irreais, justamente para colocá-los frente a uma realidade que, embora existente, é absurda.
O enredo se passa no período da União Ibérica, em que Portugal e Espanha eram administrados pelos espanhóis. No livro, acontecimentos estranhos fazem com que a Península Ibérica se separe do resto da Europa e fique vagando pelo Oceano Atlântico.
Na linguagem do livro, há o uso típico das expressões portuguesas, trazendo os costumes e os hábitos do país. Há um tom épico e uma linguagem próxima à erudição, justamente para parodiar as falas e escritas do português de Portugal.
Saiba mais
A grande metáfora é a seguinte: o livro foi escrito no período em que Portugal e Espanha se tornaram membros da Comunidade Europeia, mas, segundo o autor, de forma subserviente e rebaixada frente aos poderes econômicos do resto da Europa. Assim, Saramago aproxima dois momentos históricos, o da efetiva União Ibérica, que durou de 1580 a 1640, e o momento em que os dois países “se uniram”, no século XX.
Estendendo a metáfora, percebemos que uma jangada feita de pedra representa os dois países que afundarão, o que faz com que a narrativa assuma tons apocalípticos. Com o enredo, Saramago aproveita para criticar mais uma vez os poderes vigentes emanados pelas grandes nações capitalistas, que imprimem desigualdade econômica e injustiças sociais internas em cada país. A península vai à deriva pelo oceano, podendo se ancorar nos Estados Unidos ou na América do Sul. O autor, por meio da narração, sempre tece comentários político-simbólicos sobre a situação entre os países.
O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991)
Este é um dos livros mais polêmicos do autor, o que gerou críticas severas por parte da Igreja portuguesa e até mesmo por parte do governo, pela imputação de atentar contra a moralidade cristã. O subsecretário de Cultura de Portugal, Antônio de Souza Lara, vetou o livro de concorrer a premiações e publicou uma série de declarações atacando o autor, fato que desencadeou em Saramago o desejo de se mudar de Portugal e morar na Ilha de Lanzarote, onde viveu até a sua morte.
O enredo conta a vida de Jesus de forma humanizada, não divina, aludindo a uma possível relação íntima com Maria Madalena. A obra passa a ideia de que, em nome da religião, muitas atrocidades foram cometidas ao longo da história. Também temos o fato de que o autor faz interpretações livres da vida de Jesus, visto que no meio religioso não se define onde Jesus teria vivido no período entre sua adolescência e o reaparecimento por volta dos 30 anos. Essa interpretação livre foi um dos motivos principais dos ataques ao autor, mas devemos notar que tais críticas são fundadas em valores religiosos e não literários.
Falando do estritamente literário, devemos sempre notar que a liberdade de expressão confere ao autor livre imaginação sobre os fatos, não querendo dizer que são verdadeiros, mas verossímeis como obra de ficção. Nesse sentido, a crítica literária recebeu o livro com bastante euforia, pois nele vemos cristalizado o estilo literário de Saramago.
Ensaio sobre a Cegueira (1995)
Este livro simboliza a vida em sociedade, em que o autor demonstra a crueldade e o egoísmo inerentes à condição humana. Na obra, Portugal não é o foco, mas sim a natureza humana e a ausência de solidariedade em situação de necessidade extrema, quando se necessita de um espírito solidário coletivo.
No enredo, temos uma epidemia de cegueira branca que vai acometendo a todos, paulatinamente, até abalar toda a vida em sociedade. A partir de então, o governo age e coloca as pessoas confinadas em quarentena, mas sem amparo de alimentação ou saúde. Após o confinamento, o caos se espalha pelo mundo, e Saramago aproveita para relatar o comportamento do ser humano frente às necessidades de outrem.
Segundo o próprio autor, o livro nos mostra que os seres humanos não são bons — e é preciso saber disso. Quanto à escrita, fica cristalizado o estilo do autor, com pontuações singulares e o uso constante da mistura de discurso direto e indireto, o que é uma característica inconfundível de sua obra mais madura.
Saramago e a crítica social
No vídeo a seguir, o especialista explicará algumas características da obra de Saramago e sua crítica social a partir de algumas de suas obras.
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Conclusão
Considerações Finais
Você aprendeu que Portugal possui cultura ímpar, formada ao longo dos séculos pela influência de vários povos, como celtas, romanos e mouros, além da contribuição de países da Europa a partir do mundo moderno, como França e Espanha. Como se tornou um Império, no período subsequente à expansão marítima, Portugal possuiu muitas colônias, como o Brasil, que passaram também a alimentar o trânsito cultural português. A posição geográfica de Portugal, à beira do Atlântico, influenciou toda a sua economia, a história política e os costumes, propiciando ao país ser pioneiro nas navegações, no início da era moderna, o que alterou totalmente a história mundial.
Na literatura, você viu que escritores como Camões, Saramago, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa souberam não só pintar o país para o mundo, colocando a história portuguesa em detalhes e em destaque, como também imprimiram um caráter universal em suas obras. Eles refletiram, muito além das fronteiras da identidade portuguesa, as condições existenciais e sociais de leitores em todos os continentes. Alguns temas recorrentes em Portugal, como a saudade, acabaram por dinamizar as representações literárias em outras terras, fazendo com que a identidade portuguesa fosse conhecida e ressignificada por muitos escritores.
Podcast
Agora, o professor Daniel Abrão encerra o tema falando sobre temas e tendências na literatura portuguesa.
CONQUISTAS
Você atingiu os seguintes objetivos:
Identificou aspectos da cultura e da sociedade portuguesa a partir de sua literatura.
Relacionou as representações da saudade, do amor e do “eu” com a poesia modernista.
Reconheceu as representações da religião e da sociedade em Saramago.