Descrição

Estudo da anatomia topográfica dos ossos do gradil costal e do sistema cardiorrespiratório. Interpretação de imagens radiográficas. Uso da anatomia comparada para identificar alterações e aspectos patológicos.

PROPÓSITO

Compreender a anatomia com base na análise radiográfica, identificando alterações e achados de suspeita patológica.

Preparação

Antes de iniciar, procure nas bibliotecas virtuais de sua universidade livros ou manuais de Anatomia Humana, para revisar os conceitos gerais e melhorar sua compreensão do conteúdo.

OBJETIVOS

Módulo 1

Descrever a anatomia observada nas radiografias de tórax para identificação de achados relevantes à investigação de doenças e alterações na estrutura óssea

Módulo 2

Listar as estruturas anatômicas apresentadas nas radiografias de tórax ligadas à avaliação pulmonar, para comparação de aspectos normais com sinais típicos de processos patológicos

Introdução

O estudo radiográfico do tórax, sem dúvida, é o procedimento mais realizado em qualquer hospital, clínica ou centro de imagem. Seja para avaliações de rotina, acompanhamento de pacientes internados ou até mesmo para avaliação da saúde ocupacional, as radiografias de tórax são verdadeiros “coringas” no cotidiano hospitalar. Para os profissionais da Radiologia, mesmo sendo o exame radiográfico mais realizado, ainda é o que gera falhas técnicas de aquisição e, consequentemente, repetições. Quanto aos profissionais médicos, fisioterapeutas e todos os que dependem do diagnóstico por imagem, a interpretação das imagens torácicas ainda é um grande desafio no que se refere à identificação de achados normais e alterações possivelmente patológicas. Neste material, conheceremos a anatomia radiológica do tórax, pulmões e mediastino, para identificar corretamente aspectos patológicos e diferenciá-los de possíveis falhas de aquisição. Tenha um bom livro de Anatomia por perto. Bons estudos!

MÓDULO 1


Descrever a anatomia observada nas radiografias de tórax para identificação de achados relevantes à investigação de doenças e alterações na estrutura óssea

Anatomia radiológica do gradil costal – caixa torácica, tórax ou gradil costal?

O tórax pode ser encontrado com vários nomes na variada literatura técnica de Anatomia. Caixa torácica, tórax e gradil costal podem parecer a mesma coisa, certo? Quando citamos o gradil costal, nos referimos exclusivamente ao sistema de costelas afixado pelo esterno e coluna vertebral, que forma uma espécie de grade ou “gaiola”, denominada gradil costal. Agora, quando é solicitada uma radiografia do tórax, por exemplo, inevitavelmente nos vêm à mente todas as estruturas contidas no tronco superior: dos ossos da caixa torácica até as vísceras pulmonares, vasculares e circulatórias. Portanto, falaremos separadamente sobre cada uma delas.

Saiba mais

A palavra tórax vem do grego thorax e significa couraça. As couraças faziam parte da armadura dos cavaleiros, sendo a peça principal para proteger peitoral e flancos. Inicialmente, as couraças, como o próprio nome sugere, eram feitas de couro, por ser um material resistente. Com o aumento da potência dos armamentos (lanças, dardos, flechas e espadas) as couraças passaram a ser forjadas de outros materiais, tais como bronze ou ferro. A Medicina se apropriou de um vocábulo bélico da Idade Média!

Figura 1 ‒ Armadura peitoral em couro / Armadura peitoral em metal

Anatomia radiográfica do gradil costal

A caixa torácica é o arcabouço ósseo que fornece proteção para as partes moles envolvidas com a respiração e a circulação sanguínea. O termo “caixa” é utilizado por se tratar de um sistema fechado: superior, inferior, anterior, posterior e lateral.

A caixa torácica é formada pelo gradil costal, coluna torácica, esterno e cintura escapular. Em números, temos 12 vértebras torácicas (posteriores), um par de escápulas (posteriores), um par de clavículas (anteriores), 12 pares de costelas (laterais) e um esterno (anterior). Na porção inferior, a caixa torácica é selada pelo músculo diafragma, que a divide da cavidade abdominal.

O gradil costal é formado pelas costelas, afixadas posteriormente à coluna torácica e anteriormente ao esterno. Em razão da necessidade de expansão do volume pulmonar durante a respiração, o gradil costal não pode ser completamente rígido. Esse sistema funciona como um fole, facilitando a expansão e o retorno dos pulmões ao tamanho natural.

Comentário

Todavia, pense comigo: se a estrutura óssea é fixa anterior e posteriormente, como o gradil permitiria essa expansão pulmonar? Neste caso, lembre-se de que as costelas não estão fixas diretamente ao esterno. A conexão de cada uma delas ao esterno é feita por uma estrutura cartilaginosa mais flexível, denominada cartilagem costal (figuras 3 e 4).

Caixa torácica, mostrando toda a anatomia óssea: vértebras torácicas, manúbrio, corpo do esterno, processo xifoide, costelas e as cartilagens costais (em destaque), que favorecem a expansão do gradil costal.

No primeiro, as costelas se movem para cima e aumentam o volume do tórax. No segundo, as costelas se movem para baixo e reduzem o volume do tórax.

Costelas ou arcos costais?

São 24 costelas divididas em pares, cada par conectado a uma vértebra torácica. As costelas são divididas em três grupos, conforme seu encaixe nas incisuras costais do esterno.

Animações em 3D, mostrando, respectivamente, as costelas verdadeiras, falsas e flutuantes, destacadas em vermelho.

Os sete primeiros pares são verdadeiros por se conectarem individualmente a cada incisura costal (figura 5). Os três pares seguintes são chamados de falsos, pois se conectam na cartilagem costal do 7º par verdadeiro (figura 6).

Como os pulmões são maiores inferiormente, a conexão indireta com o esterno confere a essas costelas maior amplitude e flexibilidade. Os dois últimos pares são chamados de flutuantes, por não se articularem com o esterno (figura 7). A função deles é proteger os rins e ureteres, localizados posteriormente. Lembre-se de que, independentemente de serem verdadeiras, falsas ou flutuantes, todas as costelas se conectam à coluna torácica.

As costelas são chamadas de arcos costais em referência à sua forma curvada. A cabeça é posterior e articulada com a faceta costal. A região central é composta por um ângulo e anteriormente é formada pela extremidade esternal. O tamanho das costelas não é igual, sendo menores e mais largas até o 3º par, aumentando em comprimento gradativamente até o 10º par.

Os dois últimos pares são mais curtos, arqueados apenas para a região posterior do gradil costal. Vista anteriormente, a curvatura dos arcos costais é inclinada para baixo. A partir do 2º par, os arcos anteriores aparecem cruzados sobre a porção posterior. A inserção costovertebral e a curvatura nas bordas laterais aparecem mais borradas e opacas, devido à sobreposição.

Figura 9 ‒ Radiografia de tórax, projeção posteroanterior (PA), com técnica radiográfica para avaliação do gradil costal.

Esterno

O esterno é um osso plano, localizado anteriormente no gradil costal. Nele é feita a maioria das conexões que “amarram” o tórax, tanto nos arcos costais quanto na cintura escapular. Anatomicamente, o esterno é dividido em quatro regiões: manúbrio, ângulo esternal, corpo e processo xifoide. No manúbrio é feita a conexão com o primeiro par costal e com as clavículas. Com estas, o esterno forma a articulação esternoclavicular.

A porção central é chamada de incisura jugular, pois nessa região passam, posteriormente, as veias jugulares, vindas do pescoço. Como o primeiro par costal é mais curto, o manúbrio tem uma pequena inclinação anterior. O ângulo esternal é a união do manúbrio com o corpo esternal. Este é quase paralelo à coluna torácica. Lateralmente, é composto por pequenas escavações, chamadas de incisuras costais, pois se conectam com as cartilagens costais. Inferiormente, há uma protuberância cartilaginosa denominada processo xifoide, que calcifica até os 40 anos de idade.

Relação cintura escapular x gradil costal

A cintura escapular é uma estrutura de conexão entre os sistemas apendicular e axial. A conexão com o membro superior é feita pela articulação glenoumeral. Mas, como a cintura escapular se fixa ao esqueleto axial? Essa conexão da cintura escapular é feita pelas clavículas. Com o esterno, a clavícula se conecta por meio da articulação esternoclavicular. Já com a escápula, a conexão é feita por meio da articulação acromioclavicular.

No entanto, a escápula não tem uma ligação tão firme à caixa torácica quanto a clavícula. Em razão da mobilidade dos membros superiores, a escápula fica presa ao tórax por meio de músculos costais, principalmente os músculos intercostais, romboides, serrátil e redondo. Se a escápula fosse osseamente ligada ao tórax, o movimento dos membros superiores seria mais limitado.

Exames radiográficos para avaliação dos arcos costais

Na avaliação pulmonar, utiliza-se quilovoltagem (KV) alta e miliamperagem por segundo (mAs) baixa, para maior penetração dos raios X e mais gradiente de cinza nas tramas pulmonares. Já no estudo dos arcos costais, utiliza-se menos KV e mais mAs. Dessa forma, é possível produzir mais detalhes ósseos devido ao fundo mais enegrecido. A rotina básica para avaliação dos arcos costais são as projeções em AP, PA e oblíquas.

Atenção

A tensão (quilovoltagem – KV) controla a tensão elétrica do circuito. Quanto maior a tensão, maior é a energia dos raios X produzidos dentro do equipamento. Já a intensidade de corrente elétrica (miliamperagem – mA) regula a quantidade de carga elétrica do circuito. Quanto maior a miliamperagem por segundo (mAs), mais raios X são produzidos pelo aparelho.

As radiografias em AP e PA podem ser realizadas de modo bilateral (comparativa) ou unilateral (hemitórax). Os exames em AP mostram as costelas posteriores, ou seja, a porção costal próxima à articulação costovertebral. Já os exames em PA são utilizados para verificar as costelas anteriores, a região mais próxima da articulação com o esterno.

Nas radiografias a seguir (figuras 12 e 13), veja que as costelas não encontram diretamente o esterno, por dois motivos: a) sobreposição da margem cardíaca e coluna torácica; b) cartilagem costal radiolucente (escura).

Os exames em oblíqua visam avaliar as porções axilares (laterais) das costelas. A sobreposição costal deixa a área superexposta nos exames em AP/PA. Portanto, incidências oblíquas mostram a extensão da curvatura, facilitando a visualização de lesões. Projeções laterais não são indicadas nesse caso, pois sobrepõem a porção posterior (articulações costovertebrais) e toda a extensão dos arcos, pois temos os dois pulmões sobrepostos nessa posição, o que gera um aspecto mais borrado e radiopaco para avaliação óssea.

Figura 14 ‒ Radiografias do tórax em projeção oblíqua anterior direita (RAO – Right Anterior Oblique) e esquerda (LAO – Left Anterior Oblique).

Exames radiográficos para avaliação do esterno

A rotina radiográfica para avaliação do esterno é composta pelas incidências oblíquas e lateral. Uma vez que o esterno é anterior e fica alinhado ao mesmo plano da margem cardíaca e da coluna torácica nas incidências em PA/AP, sua imagem é totalmente opacificada, o que impede sua visualização nesses tipos de incidências. Na incidência em oblíqua, o esterno é retirado dessa região, facilitando a visualização de todo o corpo e da articulação costocondral. No entanto, os exames em lateral do esterno são os mais solicitados, representando mais de 75% dos exames para avaliação esternal.

A seguir, observe estas três radiografias. Da mesma forma que a anterior, o esterno não é visualizado em projeções frontais. No entanto, nestes três casos, os pacientes já foram submetidos a cirurgias cardíacas e têm fios metálicos aderidos ao esterno, o que é comum em submetidos à toracotomia mediana (abertura cirúrgica da caixa torácica por meio do esterno), geralmente realizada em cirurgias cardíacas.

Ao final da cirurgia, o esterno é afixado por fios metálicos. Dessa forma, podemos presumir a posição dele na radiografia.

Na primeira (figura 16), o paciente apresenta imagem pulmonar normal, mas os fios metálicos permanecem no esterno.

Figura 16 ‒ Radiografia torácica, projeção PA, de paciente após toracotomia mediana.

Na segunda radiografia (figura 17), as manchas radiopacas ao redor do mediastino sugerem infecção na parede externa, quadro conhecido como pericardite.

Figura 17 ‒ Radiografia torácica, projeção PA, de paciente com cardiomiopatia (pericardite).

Na terceira radiografia (figura 18), as margens cardíacas aumentadas sugerem cardiomegalia. Em todas elas, os fios metálicos são visíveis.

Figura 18 ‒ Radiografia torácica, projeção PA, de paciente com cardiomiopatia (cardiomegalia).

Na projeção oblíqua, é possível observar o esterno levemente sobreposto à sombra cardíaca. Além disso, quando se utiliza a técnica da respiração, durante a inspiração o movimento da caixa torácica faz com que o desenho das margens pulmonares apareça borrado. Isso facilita a visualização do esterno. No entanto, é importante tomar cuidado para que o movimento excessivo produza borramento também sobre a estrutura esternal. Por isso, o que a literatura recomenda é que o exame seja realizado com respiração normal, e não com apneia, como é feito na rotina para avaliação pulmonar.

Figura 19 ‒ Na primeira imagem, radiografia do esterno em projeção oblíqua. Na segunda imagem, radiografia oblíqua de todo o tórax em projeção oblíqua, mostrando o esterno à esquerda.

Já na projeção lateral, não existe mais o problema da sobreposição, pois é possível visualizar esterno, margem cardíaca e coluna torácica justapostos na imagem. No entanto, esse exame produz sobreposição dos arcos costais e não mostra as incisuras costais separadas. Tal projeção é indicada para avaliar lesões de profundidade, grau do ângulo esternal e possíveis fraturas. No caso de exames em pacientes femininos, pode haver sobreposição com o tecido glandular mamário. No caso de pacientes masculinos, musculatura hipertrofiada pode gerar aumento da opacidade do tecido mole adjacente, dificultando a visualização do esterno. Na primeira e segunda imagens da figura 20, temos o exame realizado em pacientes masculinos. Veja que a borda peitoral é pequena e o osso é visto com alta nitidez e contraste. Já a terceira imagem é de uma paciente feminina. Veja que a borda das mamas produz mais radiopacidade, o que reduz o contraste da imagem do esterno e da margem cardíaca.

Figura 20 ‒ Radiografias do tórax em projeção lateral, para avaliação do esterno.

Patologias e lesões associadas aos arcos costais

Os arcos costais são mais frequentemente acometidos de fraturas, principalmente causadas por traumas de alta energia. Anormalidades congênitas também podem estar presentes, embora sejam menos comuns. Essas anormalidades geralmente são achados acidentais em avaliações de rotina e raramente causam algum tipo de sintoma no paciente.

Fraturas costais são identificadas como processos de descontinuidade da zona radiopaca. Podem ocorrer fraturas simples, por avulsão ou por cominuição, como qualquer fratura de ossos longos. No entanto, epidemiologicamente, é mais comum observar fraturas costais entre a 4ª e 10ª costelas. Acima delas são aparentes somente em situações de traumas com alta energia.

Um fragmento costal livre após a fratura é chamado de fratura flutuante. A seguir, veja dois exemplos de fraturas simples em um único par costal. A primeira imagem (figura 21) evidencia uma fratura completa, simples, na quinta costela esquerda. Veja o traço radiotransparente que separa os dois segmentos. Na segunda imagem (figura 22), é possível observar uma fratura na quinta costela direita. No entanto, os segmentos estão acavalados (sobrepostos), o que pode reduzir o comprimento da costela caso haja a cicatrização óssea desta forma.

Figura 21 ‒ Radiografia do tórax, projeção PA, com destaque (vermelho) para a fratura na 5ª costela esquerda.
Figura 22 ‒ Radiografia do tórax, projeção PA, mostrando fratura na 5ª costela direita.

As imagens na sequência mostram fraturas em múltiplos arcos. Elas geralmente acontecem na região posterior e na parte lateral da caixa torácica. Vale lembrar que a região anterior dos arcos costais é majoritariamente formada pelas cartilagens costais: os arcos anteriores cobrem aproximadamente metade de cada hemitórax (parte direita ou esquerda do tórax), em vista anterior.

Na primeira radiografia (figura 23), é possível observar múltiplas fraturas entre a segunda e sétima costelas, do lado direito.

Na segunda imagem (figura 24), a lesão também ocorre no lado direito e forma um grande pneumotórax, que você estudará no próximo módulo.

Na terceira imagem (figura 25), as fraturas costais ocorrem na borda lateral esquerda, próximo do sétimo e oitavo arcos posteriores. Observe a borda lateral desalinhada, com os fragmentos aparentes.

Quando há mais de dois fragmentos livres, a condição é conhecida como tórax instável. Quaisquer fraturas costais podem produzir lesões pulmonares ou em órgãos adjacentes, como mediastino, vasos, fígado, rins ou estômago. Veja, na figura 26, uma sequência de fraturas entre a quinta e sétima costelas esquerdas. Esse quadro clínico caracteriza a condição de tórax instável.

Patologias e lesões associadas ao esterno

As lesões mais frequentemente associadas ao esterno são as fraturas e malformações nas articulações com o gradil costal. Embora o esterno seja um osso robusto, lesões traumáticas são muito comuns, por ser um osso muito exposto. A seguir, vamos conhecer algumas dessas lesões e sua correlação com a imagem radiográfica.

As fraturas geralmente são visualizadas no corpo esternal ou mais próximas ao ângulo esternal. Comuns em eventos traumáticos (agressões ou acidentes de trânsito), fraturas esternais são bem visualizadas em projeções laterais ou em exames tomográficos. O traço diferencial é o mesmo de qualquer fratura: a descontinuidade aparece como um traçado radiotransparente, seguido de dois ou mais segmentos desalinhados.

Figura 27 ‒ Ilustração do gradil costal, evidenciando as cartilagens costais e fratura no corpo do esterno.
Figura 28 ‒ Radiografia do esterno, projeção lateral, com fratura da parte central do corpo do esterno (seta).
Figura 29 ‒ Corte tomográfico, evidenciando fratura do manúbrio e corpo esternal.

No que se refere às malformações mais comuns nos exames radiográficos do esterno, o pectus carinatum – ou peito de pombo – é uma projeção anterior do esterno, que geralmente ocorre na sua porção média ou inferior e forma um grande ângulo pontiagudo para a frente (figura 30).  

Na radiografia, a lesão é vista em projeções laterais, uma vez que projeções frontais produzem muita sobreposição com o mediastino e a coluna.

Atenção

O termo carina advém do latim e significa quilha. Na engenharia náutica, a quilha é a estrutura que junta as duas peças do casco de uma embarcação. Perceba que a carina (traqueia) e o peito carinado (tradução livre) têm o mesmo formato angulado.

O pectus excavatum, conhecido como peito de funil ou peito de sapateiro, é caracterizado como uma malformação deprimida no esterno. Ou seja, o esterno tem um aspecto escavado (tradução livre) na anamnese física, o que justifica o aspecto de um funil (figura 31).

Nessa lesão, ocorre um defeito nas cartilagens do esterno, provocando o afundamento de parte ou de todo o esterno.

Uma das complicações mais graves que o pectus excavatum pode oferecer é a compressão do miocárdio.

Na radiografia (figura 31), o aumento da opacidade ao redor do mediastino pode sugerir uma falsa pneumonia. A compressão cardíaca pode favorecer o aumento da pressão arterial, causar arritmias, apresentar margem cardíaca aumentada na radiografia PA e dificultar a respiração. Por vezes, essa compressão só pode ser vista em exames tomográficos. Observe a figura 32 para melhor impressão da lesão por tomografia.

Na imagem, perceba o esterno em desnível com as cartilagens costais e o corpo do esterno comprimindo o miocárdio.

A correção da posição do esterno na caixa torácica é feita por um procedimento chamado de método de Nuss. Nessa intervenção, uma placa retangular de titânio (barra de Lorenz) é inserida na cavidade torácica, para comprimir o esterno para sua posição natural. Quando é feita a correção de pectus carinatum, a placa é colocada por cima do esterno, visando empurrá-lo para dentro. Quando se deseja corrigir pectus excavatum, a placa é colocada por trás do esterno e tensionada, de forma a empurrá-lo para a frente, como se pode ver na figura 33 Nesse caso, o procedimento é chamado de Nuss reverso.

Atenção

O termo peito de sapateiro se refere à posição em que os sapateiros colocavam o molde de montagem do calçado. Geralmente, a fôrma era apoiada no peito e o sapateiro prendia os solados com pregos e grampos, com marteladas. Devido ao possível dano que essa técnica poderia causar no peito, a lesão recebeu essa denominação.

Neste vídeo, você conhecerá um pouco sobre outras doenças associadas ao esterno.

Verificando o aprendizado

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MÓDULO 2


Listar as estruturas anatômicas apresentadas nas radiografias de tórax ligadas à avaliação pulmonar, para comparação de aspectos normais com sinais típicos de processos patológicos

Anatomia radiológica dos pulmões e mediastino

Neste módulo, conheceremos os exames realizados para a avaliação anatômica das vísceras internas da caixa torácica, compostas por traqueia, brônquios, árvore brônquica, pulmões, mediastino e grandes vasos. Apresentaremos as rotinas básicas mais frequentes para a avaliação de âmbito ambulatorial e intensivo. Aprenderemos a reconhecer estruturas anatômicas típicas e atípicas em radiografias com aspecto normal e a identificar os padrões radiográficos das lesões mais recorrentes. A radiografia de tórax é muito rica e versátil e é muito importante conhecer bem os aspectos topográficos normais e achados patológicos associados.

Anatomia radiológica do sistema respiratório

O sistema respiratório trabalha na captação de oxigênio do meio externo, vital para as funções metabólicas do corpo. Além disso, também é o sistema responsável por excretar o dióxido de carbono (CO2) produzido no metabolismo. Anatomicamente, o sistema respiratório divide-se em vias aéreas superiores e inferiores. Como o objetivo é avaliar radiografias do tórax, delimitaremos o tema ao estudo das vias aéreas inferiores.

Na caixa torácica, a traqueia conduz o ar até os pulmões por meio de dois brônquios, que se bifurcam em uma estrutura denominada carina. O brônquio direito é mais curto que o esquerdo e possui três ramificações principais, uma para cada lobo pulmonar. Os brônquios continuam se bifurcando em canais menores, chamados de bronquíolos (figura 35). Cada bronquíolo terminal possui pequenos “sacos” de ar, denominados alvéolos pulmonares. Para todo o conjunto é atribuído o nome de árvore brônquica, por ser similar a uma árvore de ponta-cabeça (figura 35). Nessa árvore, a traqueia equivale ao caule, e cada alvéolo pulmonar, a uma folha.

Figura 35 ‒ Ilustração dos pulmões, esquerdo e direito, com a marcação dos lobos, traqueia e brônquios e uma arte comparativa do pulmão e da árvore brônquica.

Os pulmões são órgãos esponjosos, distribuídos um para cada brônquio principal. Como visto na imagem 35, os pulmões são subdivididos em lobos. O pulmão direito possui três lobos (superior, médio e inferior), divididos por duas fissuras profundas.

O pulmão esquerdo é composto por dois lobos (superior e inferior), divididos por uma fissura profunda. Os pulmões são formados por um tecido leve e delicado e, por isso, envoltos em um membrana denominada pleura. Essa estrutura possui dupla camada e um líquido lubrificante na cavidade entre elas, de forma que uma das faces revista os pulmões (pleura visceral) e a outra face revista a região interna do gradil costal (pleura parietal). O líquido lubrificante evita o atrito entre pulmões e arcos costais, e amortece o impacto de possíveis traumas externos.

Algumas estruturas anatômicas são importantes na avaliação radiográfica dos pulmões.

Hilo pulmonar

É uma cavidade medial por onde passam os brônquios e os vasos sanguíneos para a estrutura interna do pulmão, sendo visualizado nas radiografias em projeção lateral.


Porção superior

A porção superior e mais vertical é denominada ápice pulmonar, visualizada com as clavículas e escápulas sobrepostas.


Porção inferior

A porção inferior é denominada base e o espaço entre os pulmões é chamado de mediastino.


Vértices laterais

Os vértices laterais são chamados de seios costofrênicos e merecem atenção na avaliação radiográfica, pois qualquer nível líquido no interior dos pulmões se acumula neles.


Músculo diafragma

 O músculo diafragma fica logo abaixo da base pulmonar e é responsável por controlar a expansão dos pulmões na inspiração e expiração.

Localize esses marcos topográficos na figura 36, a seguir.

Exames radiográficos para avaliação do sistema respiratório

A rotina radiográfica para avaliação do sistema respiratório é composta pelas projeções posteroanterior (PA) e lateral do tórax. Exames complementares podem ser realizados para favorecer outras análises. A projeção apicolordótica é indicada para estudo das calcificações apicais típicas de tuberculose. Já o exame em decúbito lateral ou método de Laurell é indicado para estudo de pequenos infiltrados de derrame pleural, possibilitando diferenciá-los de níveis hidroaéreos.

Perceba que, na projeção em decúbito lateral (figura 37), o líquido desce por ser mais pesado, deflagrando um caso severo de derrame pleural.

A projeção apicolordótica (figura 38) mostra as costelas horizontais e as clavículas dissociadas dos ápices pulmonares.

O exame com projeção em PA deve mostrar os pulmões em expansão total, por meio da apneia inspiratória, após a segunda inspiração completa e profunda. Os cotovelos são rodados para frente, para que a escápula seja removida dos campos pleuropulmonares. Os ombros relaxados e arriados devem mostrar as clavículas abaixo dos ápices pulmonares. O exame feito com o tronco ereto (em pé ou sentado) evidencia níveis líquidos. Essa incidência evita a magnificação do miocárdio. A traqueia repleta de ar aparece radiolucente e indica exame realizado em inspiração. Os pulmões devem alcançar o 10º par costal e mostrar a silhueta mamária na base (mulheres).

A posição do paciente para a realização do exame é vulgarmente conhecida como posição de super-herói ou posição de Superman (figura 39).

Veja, a seguir, uma radiografia na posição correta (figura 40) e outra na posição incorreta (figura 41), com as escápulas dentro do campo pulmonar.

Note que os pulmões não aparecem totalmente escuros, mas a trama pulmonar deve aparecer em tons de cinza e os arcos costais, mais transparentes. Isso facilita a visualização de toda a árvore brônquica e indica a correta penetração do feixe de raios X pelo tecido pulmonar.

Quando parte do tecido pulmonar aparece totalmente escuro, pode ser indício de lesões dentro do pulmão ou fora dele, como é o caso do pneumotórax, que você verá ainda neste módulo. Na figura 42, um exemplo de radiografia torácica clinicamente normal.

O exame com projeção lateral (figura 43), de longe, é o mais complexo de analisar. O lado mais próximo do receptor de imagem é o mais bem visualizado na imagem.

Comentário

Por padrão, o exame é realizado em perfil esquerdo, para reduzir a ampliação da margem cardíaca.

As margens costais do pulmão contralateral (lado oposto) aparecem um pouco ampliadas. Logo, um dos lados aparecerá maior na sobreposição dos seios costofrênicos. Divergências muito abruptas nesse quesito e na parte posterior do tórax podem indicar rotação do tórax durante a exposição.

Nessas imagens, perceba que é possível observar os arcos costais, as vértebras torácicas, o miocárdio e o espaço retroesternal, mais transparente. Ao centro, observe o hilo pulmonar e os ramos brônquicos em formato radial. Abaixo do diafragma, próximo ao miocárdio, é comum observar bolhas escuras, típicas de gás estomacal ou intestinal. O paciente deve manter os braços elevados durante o exame, para evitar que se sobreponham à porção superior dos pulmões, prejudicando a visualização.

Atenção

Caso o exame seja do perfil esquerdo, o seio costofrênico direito aparece mais ampliado e opaco devido à distância do receptor de imagem.

Anatomia do sistema circulatório

Dentro do gradil costal, o sistema circulatório é composto pelo coração e grandes vasos venosos e arteriais. O coração é composto por um tecido muscular estriado (miocárdio) e aparece radiopaco na imagem.

Quanto ao sistema vascular, as artérias tendem a ser mais bem visualizadas que as veias, pois são mais calibrosas e suas paredes são compostas de musculatura lisa. O maior e principal vaso do corpo humano é a artéria aorta. Ela fica conectada ao ventrículo esquerdo, em trajeto ascendente. Na curvatura chamada de arco aórtico, a artéria ramifica para os membros superiores, pescoço e cabeça e desce pelo tórax em direção ao diafragma. O arco aórtico é bem visualizado nas radiografias graças a seu calibre e densidade.

O miocárdio é visualizado ao centro, ligeiramente inclinado à esquerda. Os grandes vasos ficam conectados a ele, a saber:

Veias cava superior/inferior

Artéria aorta

Artérias

Veias pulmonares

O tamanho do coração é geralmente comparado a um punho cerrado. Como é denso, o miocárdio é radiopaco na radiografia. Do contrário, podemos considerar alguma anormalidade ou processo patológico a ser investigado.

Figura 44 ‒ Radiografias de tórax, projeção em PA, mostrando as silhuetas dos órgãos mediastinais.

Na figura 44, a seguir, veja a comparação entre a silhueta radiopaca e as estruturas correlacionadas: miocárdio, artéria aorta, veia cava, artérias e veias pulmonares, além dos brônquios, traqueia e esôfago na mesma direção.

Exames radiográficos para avaliação do sistema circulatório

Embora os exames para avaliação do sistema respiratório e circulatório sejam os mesmos, o escopo da interpretação radiográfica muda. Portanto, veja novamente as incidências, com os comentários acerca da estrutura cardíaca e circulatória.

Na projeção do tórax em PA, o miocárdio é visto radiopaco, ao centro e ligeiramente para a esquerda, como já discutido. Essa projeção aproxima o miocárdio do receptor de imagem, reduzindo a ampliação, uma vez que ele é topograficamente anterior. Devido à sobreposição com a coluna e com o esterno, a artéria aorta não é visualizada. No entanto, é possível identificar o arco aórtico à esquerda do paciente. A região de grande borramento radiopaco acima do miocárdio representa os grandes vasos de base, principalmente a artéria aorta.

Das imagens a seguir (figura 46), as duas últimas são radiografias portáteis de pacientes acamados em internação (enfermaria ou UTI), realizadas com projeção AP. Observe o miocárdio ampliado, a posição topográfica normal da cavidade glenoide e as costelas posteriores mais nítidas, pois são traços típicos desse tipo de exame.

A projeção lateral do tórax permite avaliar a profundidade. Note que o miocárdio é anteriormente projetado. Aorta ascendente, arco aórtico e aorta descendente são bem visualizados em justaposição no exame lateral. A porção descendente da aorta é posterior ao miocárdio. É importante observar que existem três zonas radiotransparentes normais: acima e posterior ao miocárdio, e a região retroesternal. Esta última, quando muito aumentada e muito escura, pode ser traço sugestivo de doenças crônicas nos pulmões, como a DPOC, por exemplo.

Quando a radiotransparência retroesternal é grande e também altera a posição do miocárdio, pode sugerir presença de pneumotórax. Opacidade com velamento da região posterior do miocárdio pode sugerir aumento de níveis líquidos, caso os seios costofrênicos também estejam opacificados. A figura 47 mostra também que as mamas comprometem a visualização das margens cardíacas.

Roteiro para análise e interpretação de radiografias torácicas

Se você fizer uma rápida pesquisa na Internet, encontrará muitos vídeos que sugerem métodos infalíveis para interpretação radiográfica do tórax. Porém, é preciso ter cuidado para não banalizar o fato: um exame radiográfico do tórax requer embasamento técnico para uma análise correta, visto que é um exame complexo por envolver várias partes, com papéis muito distintos. Por isso, fizemos uma síntese de informações encontradas em literaturas acadêmicas e em vídeos de profissionais que compartilham suas experiências na Internet e nas redes sociais. Vale frisar que o objetivo aqui não é criar uma fórmula ou “receita de bolo”, mas, sim, oferecer mais uma ferramenta que auxilie nessa tarefa difícil e densa de análise em radiografias de tórax.

Mesmo entendendo que fórmulas mágicas não são infalíveis, será proposto aqui um método de memorização (mnemônica) denominado método ABCDE. Nele serão apresentadas cinco abordagens, em ordem alfabética. É importante que se realize nessa ordem, para que a sistemática tenha o efeito desejado. Pela ordem proposta: os problemas se concentram no sistema respiratório; o estudo cardíaco é complementar e a avaliação óssea sem indicação de trauma serve para simples conferência.

Veja a divisão das tarefas, a seguir:

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A

Ar

B

Brônquios e pulmões

C

Coração e vasos de base

D

Diafragma

E

Esqueleto

A avaliação do ar (A) está relacionada ao estudo das vias aéreas (do inglês, airways).

Comece a análise localizando a traqueia, que deve estar centralizada, pérvia, com calibre homogêneo e repleta de ar (radiotransparente). O tracionamento da traqueia para um dos lados pode indicar obstrução mecânica ou massa (tumor etc.), quase sempre associada a atelectasias. Em seguida, certifique-se de que a carina traqueal esteja na altura do botão aórtico. As bordas opacas da carina contrastam com o conteúdo transparente (ar). No caso de intubação orotraqueal, o tubo deve parar antes da carina. Caso contrário, pode causar obstrução do outro pulmão (atelectasia). Ao final da análise, você deve ter certeza de que todas as estruturas das vias aéreas estejam alinhadas com a coluna.

A análise deve seguir para os brônquios (B).

O ramo fonte esquerdo é mais horizontal e o direito é mais inclinado (vertical). Marcações radiopacas no contorno ou interior dos brônquios podem sugerir inflamação (bronquite). Prossiga a análise para a trama broncopulmonar (árvore brônquica).

Aqui, ela deve ser mais opaca ao centro e mais transparente na periferia (arcos costais). Regiões opacas na periferia dos campos pulmonares podem indicar doenças infecciosas como pneumonia, por exemplo. O próximo passo é avaliar os pulmões. Em algumas literaturas, o (B) faz referência a breathing (respiração, em inglês). Em aspectos técnicos normais, o tecido pulmonar é transparente, em tons de cinza mais para o preto. Pulmão enegrecido pode sugerir hiperinsuflação, que é um sinal típico para DPOC. Já o pulmão totalmente opaco pode indicar colapso (atelectasia) ou infecção (derrame pleural).  Por fim, opacidade periférica da trama pulmonar é um sinal típico da pneumonia causada pelo SARS-CoV-2 (Covid-19).

Após avaliar todas as estruturas das vias aéreas, prossegue-se para o mediastino. Aqui, serão analisados o coração (C) e vasos de base.

Primeiramente, é preciso avaliar o Índice Cardiotorácico (ICT), que é a relação entre a largura total entre os dois pulmões (ID) em inspiração profunda e a largura transversal do miocárdio (MLD + MRD). Em condições normais, a largura do miocárdio deve ser igual ou menor que a metade da largura total entre os pulmões, o que equivale a um ICT de 0,5 (50%). Veja o esquema na figura 50.

O próximo ponto é a inspeção física do coração.

O ventrículo direito fica totalmente repousado sobre o diafragma e a análise é feita com base nas seis principais curvaturas mediastinais. São quatro curvaturas à esquerda e duas à direita, a saber: 1E ‒ arco aórtico (acentuada); 2E ‒ artéria pulmonar (sutil); 3E ‒ átrio esquerdo (sutil); 4E ‒ ventrículo esquerdo (acentuada); 5D ‒ veia cava superior (sutil); 6D ‒ hilo pulmonar e átrio direito (acentuada). Na figura 51, a seguir, na primeira imagem todas as curvaturas podem ser vistas normalmente. Na segunda, a curvatura 5D está mais acentuada que o normal, indicando possível massa ou alteração nos vasos de base. Na terceira imagem, temos uma obliteração das curvaturas 2E, 3E e 4E, decorrente de pneumonia. Note que o átrio direito (6D) e os brônquios direitos estão dilatados, o que reforça a hipótese de patologia infecciosa.

A próxima análise é na parte inferior dos pulmões, no músculo diafragma (D).

Em aspecto clínico normal, o diafragma aparece plano ao centro e inclinado nas laterais (seios costofrênicos). Deve oferecer uma boa linha de contraste (pulmão/abdome), bem nítida. O lado direito é mais alto, em razão do volume hepático. Já o lado esquerdo é mais baixo, devido ao volume cardíaco. Se o diafragma perdeu nitidez na parte central, é interessante avaliar a possibilidade de lesão pulmonar no lobo inferior, típico em pneumonias. Se a perda de nitidez ocorre nas laterais, vale a pena pensar em derrame pleural. Por fim, se o diafragma central está totalmente plano com relação aos seios costofrênicos (aspecto flat), essa configuração caracteriza hiperinsuflação pulmonar, típica em DPOC. Veja na figura 52.

 

Na primeira imagem, temos um aspecto padrão da linha do diafragma, mesmo que haja opacidade inferior, sugerindo pneumonia. Na segunda imagem, o aspecto flat do diafragma indica hiperinsuflação, típica em DPOC. A última imagem evidencia obliteração apenas no seio costofrênico esquerdo. Este padrão é sugestivo para derrame pleural, em razão do aspecto leitoso (mais opaco) da região.

Figura 52 ‒ Radiografias de tórax em projeção PA. Na sequência: imagem com perda de nitidez do diafragma (pneumonia); imagem com diafragma flat (DPOC); imagem com obliteração apenas do seio costofrênico esquerdo (derrame pleural).

O último item de análise é o esqueleto (E) torácico.

Além das fraturas, é importante avaliar a anatomia normal das estruturas ósseas. As costelas devem aparecer nítidas na parte posterior e mais transparentes na parte anterior, em razão da cartilagem costal. Uma inspiração completa e profunda deve mostrar entre nove e dez pares costais no campo pulmonar. Logo, pacientes com respiração curta raramente ultrapassam oito pares costais visíveis. Por outro lado, pacientes com hiperinsuflação geralmente mostram dez ou mais pares costais. A clavícula deve aparecer na altura do 3º par costal e a escápula deve aparecer fora dos campos pulmonares.

Embora outros médicos sugiram mais tipos de abordagens, entendemos como razoável a sistemática apresentada nesta seção. É comum encontrar materiais que proponham a avaliação de gordura e tecido mole adjacente (F = fat ou gordura) e outros dispositivos que podem ser encontrados com o paciente, como marcapassos, stents, clipes, tubos ou sondas, por exemplo (G = gadgets ou dispositivos). No entanto, a técnica apresentada aqui dá conta dos principais achados em radiografias torácicas para avaliação óssea, pulmonar e cardíaca.

Que tal conhecer agora um pouco sobre as possíveis patologias encontradas nos exames de tórax?

Principais patologias associadas às vísceras da cavidade torácica

Clinicamente, pneumotórax é considerado a presença de gás (ar) no espaço pleural. À medida que essa coleção de gases aumenta, a pleura visceral começa um processo de compressão dos pulmões. Essa lesão tende a causar falta de ar, aumento da pressão arterial e, em alguns casos, pode levar a óbito se não for tratada imediatamente. O pneumotórax pode ser produzido por lesões traumáticas ou secundariamente a doenças pulmonares, como infecções ou tumores.

Figura 55 ‒ Radiografias de tórax, projeção em PA mostrando: colapso total do pulmão direito (primeira), colapso parcial do pulmão esquerdo (segunda) e drenagem de pneumotórax bilateral (terceira).

Nas radiografias simples, pneumotóraces podem ser localizados por uma radiolucência excessiva, seguida de uma borda em contraste e bem delimitada. A trama pulmonar é vista em tons cinza mais claros e os pneumotóraces podem estar em tamanho reduzido ou até mesmo colapsados. Nesses casos, estarão totalmente opacificados e caracterizam atelectasia secundária ao pneumotórax. Em algumas  situações, podem ser necessárias modificações na técnica ou ainda exames complementares, como o método de Laurell. O lado afetado é colocado próximo ao receptor e o pneumotórax tende a “subir”.

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Atelectasia

É uma condição patológica causada por obstrução mecânica da traqueia ou brônquios, na qual ocorre o colapso parcial ou total de um dos pulmões. Colapso é o termo relacionado ao vácuo produzido internamente pela falta de ventilação, fazendo com que o pulmão "encolha" e as paredes pulmonares se unam.

A atelectasia também pode ser produzida secundariamente, em casos de derrame pleural, hemotórax ou pneumotórax, pois o volume pulmonar é reduzido nesses casos, o que facilita o colapso pulmonar. Quando a obstrução brônquica ocorre nas seções secundárias, pode ocorrer uma atelectasia lobar.

 

 No entanto, quando ocorre no ramo principal, trata-se de atelectasia completa do pulmão. É mais comum atelectasias dos lobos superiores. Veja a diferença nas imagens da figura 56.

Figura 56 ‒ Radiografias do tórax em projeções PA e lateral. A primeira e a segunda imagens mostram obstrução do lobo inferior direito apenas, acarretando colapso inferior. Na terceira imagem, ocorre o colapso total do pulmão direito.

Na radiografia simples de tórax, os sinais mais observados são a opacificação da região colapsada com hiperexpansão do pulmão contralateral, quando a atelectasia ocorre em um pulmão apenas. Geralmente, a lesão é seguida do deslocamento da traqueia ou do mediastino inteiro. Podem ocorrer também o aumento da opacificação dos brônquios e o deslocamento dos lobos pulmonares sem opacificação destes. A atelectasia pode suceder a elevação do diafragma com o deslocamento do gradil costal medialmente, em razão da baixa pressão interna nos pulmões.

Da mesma forma que o pneumotórax é o acúmulo de gás na cavidade pleural, pode ocorrer também acúmulo de líquido. Condição conhecida como derrame pleural, essa lesão pode derivar de uma variedade de processos patológicos que sobrecarregam a capacidade da pleura de reabsorver fluido. Ao contrário do que se pensava, não se trata de “água no pulmão”, como é conhecido o episódio por leigos. Na verdade, o líquido se armazena no espaço entre as membranas pleurais e não há drenagem adequada, fazendo com que acumule. Pequenas quantidades de exsudato podem não provocar sintomas, salvo quando se constituam de material supurado (pus).

Atenção

O primeiro sintoma aparente é falta de ar e respiração curta, pois o líquido comprime os pulmões, que perdem espaço na caixa torácica. Em média, as cavidades pleurais contêm 15mL de líquido seroso. O aumento da concentração caracteriza derrame pleural.

Na radiografia, a aparência da secreção pleural é mais radiopaca, por ser mais viscosa que a água. Devido à força da gravidade, os líquidos começam a se acumular nos seios costofrênicos, avançando pela membrana pleural da base pulmonar e aumentando o nível hidroaéreo junto com a concentração do derrame. No entanto, para que seja aparente, o derrame precisa ter concentração mínima de 250mL. Para avaliar pequenas quantidades, são solicitados exames mais complexos, como a TC ou RM, ou ainda o exame especial de Laurell (decúbito lateral com raios horizontais), quando a posição é tolerável.

Embora carregue o nome de doença pulmonar obstrutiva crônica, a DPOC é uma condição patológica crônica, caracterizada por um quadro de obstrução pulmonar causado por tabagismo de longa data.

Atenção

Pacientes portadores de DPOC tendem a ser admitidos na emergência com dispneia pós-esforço, sibilos, tosse, respiração curta e forçada, com uso de músculos acessórios.

Esses sintomas podem ser desencadeados pela presença de bronquite crônica ou enfisema pulmonar, que caracterizam o quadro de DPOC.

Figura 58 ‒ Radiografias de tórax, projeções em PA e lateral, mostrando diferentes quadros de DPOC.

A primeira imagem da figura 58, A - mostra um caso de enfisema pulmonar crônico, com fibrose nos lobos superiores e estreitamento do pulmão.

A segunda imagem B mostra um caso de enfisema circunscrito no lobo inferior direito, conhecido como bulla ou bolha pulmonar.

A terceira imagem C é um caso de DPOC com bronquite crônica prevalente. Observe a dilatação e a opacidade das marcações broncovasculares, e o aumento da margem cardíaca, indicando processo inflamatório.

A quarta imagem D mostra uma radiografia lateral, com hiperinsuflação pulmonar, aumento do espaço retroesternal, diafragma flat (reto) e achatamento das cúpulas pleuropulmonares laterais, padrão típico de DPOC com enfisema crônico prevalente. Esse aspecto leva o nome de pulmão “em barril”.

Neste vídeo, você conhecerá um pouco sobre os tipos de pneumonias e os sinais radiográficos associados à Covid-19.

Alterações cardíacas na radiografia de tórax

Lesões cardíacas são detectadas principalmente por exames como o eletrocardiograma (ECG) ou exames ultrassonográficos (ecocardiograma com Doppler). No entanto, algumas alterações na posição e no formato do miocárdio em radiografias do tórax podem ser achados pontuais e merecem atenção, de forma a serem complementados com exames cardiológicos. Portanto, veremos duas condições anatômicas mais recorrentes na avaliação miocárdica: a cardiomegalia (ou coração grande) e a dextrocardia.

 

A cardiomegalia se refere a um aumento anormal das margens cardíacas. Na verdade, ela não é a causadora desse aumento, mas, sim, trata-se de uma consequência provocada por algumas patologias, como doença cardíaca isquêmica, endocardite, pericardite, estenose aórtica, embolia pulmonar ou quaisquer distúrbios cardíacos congênitos que comprometam a perfusão miocárdica.

Figura 59 ‒ Radiografias de tórax, projeção em PA, mostrando cardiomegalia em quadros progressivos. Na última imagem, o paciente já está com marcapasso implantado em decorrência de complicações do quadro cardiológico.

Na maioria dos casos, a radiografia simples do tórax é suficiente para identificar e caracterizar a cardiomegalia. O aumento do ICT a mais de 0,5 (50%) é um fator importante, mas o aumento da margem cardíaca pode alterar também o desenho normal das regiões atriais, tornando mais volumoso o lado direito do coração. A cardiomegalia também pode deslocar o mediastino, comprometendo a ventilação pulmonar.

Veja as imagens comparativas na figura 60.

Figura 60 ‒ Radiografia do tórax em projeção PA, mostrando cardiomegalia decorrente de doença na válvula mitral. A primeira imagem é o padrão de medida e cálculo do ICT para comparação.

Dextrocardia é uma malformação congênita na qual o coração sofre pouca rotação, com o ápice apontado para a direita. Existe diferença entre dextrocardia e uma condição denominada situs inversus. Neste caso, tanto o coração quanto todos os grandes vasos estão invertidos. Na dextrocardia, apenas o coração é invertido, permanecendo o arco aórtico à esquerda. As imagens da figura 61 mostram a diferença.

Na primeira imagem A, um adolescente de 11 anos foi diagnosticado com dextrocardia sem situs inversus, uma vez que o arco aórtico permanece à esquerda.

Na segunda imagem B, o caso é de dextrocardia com situs inversus, uma vez que o botão aórtico é visto à direita também. Vale frisar que, na maioria dos casos, o paciente é assintomático e a malformação é identificada em exames de rotina, de forma incidental.

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Conclusão

Considerações Finais

Conhecer a anatomia radiológica do gradil costal e vísceras torácicas é de suma importância para monitorar lesões traumáticas, alterações congênitas e manifestações clínicas associadas a eventos pulmonares. Sem dúvida, radiografias de tórax são os exames mais complexos de analisar, principalmente para iniciantes ou estudantes da área. Por meio do estudo deste material e das atividades propostas, esperamos que o futuro profissional se torne apto a diferenciar os achados radiográficos pelo pleno conhecimento da anatomia topográfica de aspecto clínico normal. O estudo continuado favorece a melhora da acuidade visual, estimula o raciocínio lógico e agiliza na entrega de um bom exame ao médico solicitante.

Podcast

CONQUISTAS

Você atingiu os seguintes objetivos:

Descreveu a anatomia observada nas radiografias de tórax para identificação de achados relevantes à investigação de doenças e alterações na estrutura óssea

Listou as estruturas anatômicas apresentadas nas radiografias de tórax ligadas à avaliação pulmonar, para comparação de aspectos normais com sinais típicos de processos patológicos