Você vai conhecer o que é a perfusão extracorpórea e os principais conceitos envolvidos com a prática desse processo.

A prática da perfusão extracorpórea é essencial para os profissionais de saúde que podem adquirir essa habilitação e querem atuar em um centro cirúrgico durante cirurgias específicas.

Objetivos

Módulo 1

Princípios básicos da perfusão extracorpórea

Reconhecer uma breve história da evolução da circulação extracorpórea e os principais conceitos do processo.

Módulo 2

Fundamentos sobre a prática da circulação extracorpórea

Reconhecer os fundamentos aplicados na prática da circulação extracorpórea.

Módulo 3

Respostas e aplicabilidades da perfusão extracorpórea

Identificar as respostas da perfusão extracorpórea no organismo do paciente e as aplicabilidades desse procedimento.

A perfusão extracorpórea, também conhecida como circulação extracorpórea, é uma ferramenta utilizada em centros cirúrgicos, que possibilita a realização de cirurgias cardíacas e pulmonares. Nela estão envolvidos diversos procedimentos técnicos, equipamentos e circuitos que são adequados para substituir, por tempo determinado, a função do coração e dos pulmões no organismo de um paciente. A substituição desses órgãos permite que sejam excluídos temporariamente da circulação sistêmica, e com isso, podem ser operados.

O profissional habilitado para trabalhar com circulação extracorpórea, biomédico, biólogo, farmacêutico etc., assume vários procedimentos dentro do centro cirúrgico. Dentre as suas funções, o perfusionista opera e prepara a montagem do circuito de circulação extracorpórea do equipamento específico. Neste conteúdo, vamos conhecer esse processo e os fundamentos práticos que estão envolvidos.

Confira no vídeo como ocorreu a evolução histórica da perfusão extracorpórea, a idealização de Mary e John Gibbon e os alicerces do desenvolvimento da técnica. Veja ainda uma breve história da circulação extracorpórea no Brasil.

Um dos grandes avanços da medicina no século XX foi, sem dúvida, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das técnicas da circulação extracorpórea (CEC), que permitiu a cirurgia cardíaca de coração aberto, terminando assim, com um dos maiores tabus da área médica.

A circulação extracorpórea (CEC) pode ser definida como uma simulação mecânica dos princípios fisiológicos relacionados à circulação, respiração e aos balanços hidroeletrolíticos e ácido-base do organismo. Ela simula a função do coração e dos pulmões no momento da cirurgia.

Nesse processo, o sangue do sistema venoso é continuamente desviado do corpo para o circuito de perfusão. Para que isso aconteça, uma bomba mecânica impulsiona o sangue através de um sistema de troca gasosa (oxigenador), e o devolve ao paciente. Com o surgimento da perfusão extracorpórea, esse tipo de cirurgia pode finalmente ser realizado com segurança em um coração parado pela cardioplegia e sem sangue.

Cardioplegia

Técnicas que visam à proteção do miocárdio durante a indução de sua parada.

A idealização de Mary e John Gibbon

No ano de 1931, enquanto acompanhava um paciente que sofria de uma grave embolia por complicações pós-operatórias de uma cirurgia cardíaca, o cirurgião cardíaco John Gibbon pensou que, se eles tivessem uma forma de retirar o sangue desse paciente, oxigenar, retirar o gás carbônico e então reintroduzi-lo na artéria do paciente, poderia melhorar seu estado. Então, assim, se deu a idealização do projeto.

Os especialistas da época desacreditavam da ideia de John, comparando-a inclusive com histórias vistas nos livros de ficção científica da época. Porém, nos anos seguintes, John e sua esposa, Mary Gibbon, se debruçaram sobre a ideia e trabalharam no desenvolvimento da máquina.

É narrado que a máquina coração-pulmão (CP) teve sua construção iniciada em 1934, em um pequeno laboratório no Hospital de Massachusetts. Eles trabalharam no projeto até que, no ano de 1946, já conseguiam fazer desvios cardiopulmonares bem-sucedidos em gatos por um período de até 20 minutos. Nessa etapa, só era possível a utilização da máquina coração-pulmão em animais de pequeno porte, pois o oxigenador utilizado não tinha eficiência o suficiente para oxigenar o sangue de animais maiores.

Os primeiros testes em humanos não foram bem-sucedidos. Acompanhe:

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Três primeiros pacientes

Faleceram.

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Quarto paciente

Foi um sucesso.

Em maio de 1953, o casal Mary e John Gibbon deu um brilhante passo na revolução das cirurgias cardíacas: eles obtiveram sucesso no uso da máquina CP durante a cirurgia de correção de uma comunicação interatrial, mantendo a perfusão por 26 minutos.

Comunicação interatrial

Patologia congênita do coração na formação do septo que divide as cavidades atriais.

Oxigenador de telas de Gibbon, utilizada para as primeiras cirurgias com circulação extracorpórea.

O sucesso do procedimento ganhou notoriedade. O trabalho de Mary e John Gibbon, que inicialmente era realizado em uma pequena sala, sem ajuda de nenhum colaborador, chegou ao conhecimento de Thomas Watson, presidente da IBM (International Business Machines).

Com isso, Gibbon começou a receber auxílio de engenheiros para aprimorar o projeto.

Foi então que vários avanços foram feitos, como: redução da hemólise provocada pela máquina, revestimento térmico e um sistema que retirava as bolhas de ar do sangue.

Alicerces do desenvolvimento da perfusão extracorpórea

A ciência básica costuma sofrer com muitas críticas a respeito de sua aplicabilidade e utilidade, pois diferentemente das ciências aplicadas, a básica tem como o único fim gerar conhecimento e não criar um produto. Porém, como veremos agora, foi graças a contribuições valiosas de vários fisiologistas do passado que a perfusão extracorpórea pôde se desenvolver e se tornar essa ferramenta que salva muitas vidas:

Le Gallois

Primeiro cientista a propor e a tentar executar uma circulação artificial, em 1813. Ele pressupôs que poderia manter vivo, pelo tempo que quisesse, qualquer parte de um organismo se substituísse o coração por uma forma de bombeamento artificial. Trabalhando com coelhos decapitados, entretanto, não pôde provar sua tese porque ele reintroduzia o sangue no animal desoxigenado.

Kay

Demonstrou experimentalmente em 1828 que, perfundindo com sangue um músculo em isquemia, sua contração era recuperada.

Brown-Sequard

Entre os anos de 1848 e 1858, demonstrou que o sangue era necessário como perfusato para atividade neurológica em cabeças isoladas. Utilizando membros de criminosos guilhotinados e seu próprio sangue, ele viu que, ao injetar sangue oxigenado nesses membros, os músculos em estado de rigidez cadavérica poderiam ser reativados.

Lean e Howell

No ano de 1916, durante seus estudos com extratos de fígados animais, descobriram a heparina, importante anticoagulante. Descoberta determinante para o avanço de todas as pesquisas que utilizavam sangue.

Karl Landsteiner

Cientista austríaco que caracterizou os antígenos eritrocitários dos grupos sanguíneos ABO, podendo agora os cientistas evitar vários problemas relacionados à incompatibilidade com o uso de sangue de animais doadores.

Uma breve história da circulação extracorpórea no Brasil

A primeira cirurgia em nosso país, utilizando os preceitos do suporte circulatório extracorpóreo, foi realizada em 1955, no instituto Sabbado D’Angelo, em São Paulo. Na ocasião, foi utilizada uma bomba Sigmamotor, porém o oxigenador do sangue era o próprio pulmão do paciente.

A bomba Sigmamotor foi muito popular no início da era de circulação extracorpórea, ela consistia em um conjunto de barras que comprimiam um tubo elástico, gerando um fluxo sanguíneo no interior do tubo.

No ano seguinte, em 1956, iniciou-se a chamada era da perfusão extracorpórea na América do Sul, graças a Felipozzi, pela utilização da máquina coração-pulmão agora completa, equipada com oxigenadores.

Curiosidade

A máquina coração-pulmão foi montada e adaptada em uma fábrica de cigarros.

Outra contribuição importante de Felipozzi foi a elaboração de sua própria variante de oxigenador, adaptada com recursos disponíveis em território brasileiro. Nos anos que se seguiram, vários pesquisadores dedicaram esforços com o objetivo de reduzir a dependência de material e tecnologia estrangeira.

Máquina coração-pulmão do Instituto de Cardiologia Sabbado D'Angelo.

Nesse contexto, podemos citar os trabalhos de Waldir e Adib. Eles desenvolveram oxigenadores de bolhas acoplados a um permutador de calor totalmente reusáveis. Paulo Rodrigues da Silva trabalhou no sentido de reduzir a dimensão de alguns módulos da máquina CP, para facilitar seu deslocamento entre hospitais e, assim, permitindo o acesso a esse equipamento de elevado custo.

A CEC foi assim introduzida na cirurgia cardíaca, porém, tornou-se evidente que certos pacientes desenvolviam alguns tipos de complicação, como a neurológica, por exemplo. Com o seu aperfeiçoamento e progresso, a CEC evoluiu nos últimos sessenta anos, contribuindo atualmente para a redução da morbimortalidade em cirurgia cardíaca. Apesar disso, ainda existem algumas complicações que carecem de explicação fisiopatológica e medidas de prevenção eficazes, que representam causas de morbimortalidade no período pós-operatório.

Confira no vídeo o conceito da circulação extracorpórea explicando como ocorre a troca e transporte de gases no organismo.

A era moderna das cirurgias cardíacas se iniciou com a criação e o aprimoramento das técnicas de circulação extracorpórea. Na prática clínica, todo o sistema utilizado para realização da técnica é chamado de máquina coração-pulmão artificial, ou somente bomba coração-pulmão.

Atualmente, a perfusão extracorpórea não somente substitui o papel do coração e pulmões por curto período de tempo, como ocorria antigamente, mas também é capaz de conservar a viabilidade das células e o metabolismo do indivíduo pelo tempo necessário para a realização de cirurgias complexas e demoradas.

Bomba coração-pulmão.

Troca e transporte de gases no organismo

Antes de nos aprofundarmos nos conceitos da perfusão extracorpórea, vamos relembrar, de modo geral, o funcionamento da circulação normal, mais especificamente a circulação pulmonar, também chamada de pequena circulação.

Na circulação natural, o sangue pobre em oxigênio, que acabou de voltar dos tecidos, chega ao coração pelas duas veias cavas, superior e inferior. Essas duas veias desembocam no átrio direito, então o sangue parte para o ventrículo direito que o impulsiona em direção aos pulmões, via artéria pulmonar.

A lei dos gases é a lei que rege a difusão de oxigênio (O2) e dióxido de carbono (CO2) nos tecidos e nos pulmões.

Ela determina que gases fluam de regiões de pressão parcial mais alta para locais de pressão parcial mais baixa. A PO2 (P=pressão parcial) do sangue venoso que acabou de voltar dos tecidos é de 40mmHg, já a PO2 alveolar é de cerca de 100mmHg. Como consequência, o oxigênio se dirige a favor de seu gradiente de concentração e difunde para o sangue venoso até igualar a pressão intra-alveolar, a mesma lógica vale para a PCO2.

Então, chegando aos pulmões, o sangue irá realizar as trocas gasosas necessárias à manutenção da homeostase do indivíduo, ou seja, eliminar o dióxido de carbono liberado pelos tecidos e receber oxigênio. Para oxigenar os tecidos novamente, essas trocas ocorrem nos capilares pulmonares.

O sangue, devidamente oxigenado, sai dos pulmões e caminha até chegar ao átrio esquerdo. No átrio esquerdo, o sangue encaminha-se para o ventrículo esquerdo, onde é novamente bombeado para os tecidos, via aorta e seus ramos arteriais.

Nos tecidos, o sangue gradativamente perde oxigênio ao passo que recolhe o gás carbônico liberado por eles, fruto do metabolismo celular. Esse processo cíclico é tão importante que apresenta números enormes, até assustadores, isto é, o coração bate em média 104 mil vezes ao longo do dia e bombeia mais de nove mil litros de sangue por dia.

Para concluir a nossa revisão sobre a circulação, não poderíamos deixar de falar do principal responsável do transporte de oxigênio, a hemoglobina. O oxigênio é transportado pelo organismo de dois diferentes modos:

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Dissolvido no plasma

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Ligado à hemoglobina eritrocitária

Estima-se que a hemoglobina seja responsável por mais de 98% do transporte de oxigênio. A molécula, presente no interior dos eritrócitos, é um eficiente transportador devido à sua estrutura. Como sabemos, a hemoglobina é capaz de ligar-se reversivelmente à molécula de oxigênio. Essa ligação ocorre ao átomo de ferro central de cada grupo heme.

Com relação ao dióxido de carbono (CO2), as células liberam muito mais CO2 do que é capaz de ser dissolvido no sangue, com isso, estima-se que apenas 7% do CO2 é transportado pelo sangue venoso e os 93% difundem-se para as células vermelhas. Ou seja, além de agente principal na oxigenação, o eritrócito atua também no sentido de remover o dióxido de carbono dos organismos. O CO2 no eritrócito pode ainda tomar dois caminhos, cerca de 70% são transformados em bicarbonato e o restante liga-se à hemoglobina.

Esquema simplificado da circulação humana natural

Circulação extracorpórea

Agora vamos definir o que é circulação extra corpórea (CEC) ou simplesmente perfusão.

CEC é o ato de manter o paciente com suporte de vida artificial chamado de coração-pulmão artificial ou “bypass” cardiopulmonar total, muito utilizado nas cirurgias cardiovasculares, mas também em outros tipos de procedimento como as afecções da aorta, transplantes de coração e/ou pulmão, transplante hepático e em alguns tipos de retirada de tumores.

Na circulação extracorpórea, o trajeto do sangue venoso, rico em dióxido de carbono (CO2) que retorna dos tecidos é desviado. Para isso, são colocadas cânulas nas veias cava superior e inferior e, desse modo, o sangue, que iria para o átrio direito do paciente, é conduzido agora para o aparelho coração-pulmão artificial.

Parte do aparelho coração-pulmão artificial.

Na máquina, o sangue do paciente passa por um oxigenador, onde é adicionado oxigênio (O2) ao sangue venoso. Nessa etapa, também ocorre a remoção do dióxido de carbono (CO2). A partir desse ponto, o sangue já pode ser reinfundido novamente no paciente, e isso é feito da mesma forma pela qual ele foi retirado: são inseridas cânulas, mas agora no sistema arterial, geralmente na aorta ascendente.

De agora em diante, o sangue oxigenado pode ser distribuído por todos os órgãos e realizar as funções homeostáticas normais.

Todo esse processo de coleta do sangue venoso, oxigenação e bombeamento para o sistema arterial é realizado continuadamente até que seja feito o reparo da lesão cardíaca. Entretanto, esse procedimento não pode se alongar demais. Estudos demonstram que um tempo de CEC maior que 89 minutos relaciona-se a um aumento no número de complicações no período pós-operatório e aumento da taxa de mortalidade.

Esquema simplificado da circulação extracorpórea

Confira no vídeo os componentes básicos do sistema de coração-pulmão artificial: canulação venosa e drenagem, oxigenadores, sistema de propulsão arterial, cânulas arteriais, tubos, aspiradores e permutador de calor.

O controle da CEC é feito por meio de uma máquina CP, que realiza a:

Propulsão do sangue
Resfriamento do sangue
Aquecimento do sangue
Aspiração do sangue

Antes de iniciar a CEC, preparamos o circuito da máquina de CEC. Inicialmente, retira-se todo o ar e preenche-se com uma solução com pH estável em 7,4 que pode ser aditivada com heparina e demais medicações ou hemoderivados de acordo com cada caso. É essencial que o paciente seja adequadamente anticoagulado por meio de dose calculada pelo perfusionista antes da entrada em CEC, para evitar a ativação da cascata de coagulação quando o sangue entrar em contato com as superfícies não endotelizadas que constituem o circuito.

Agora, vamos falar com mais detalhes, as importantes partes que compõem a máquina CP.

Canulação venosa e drenagem

A canulação venosa é o procedimento no qual o sangue é retirado do corpo do paciente e direcionado para o procedimento de CEC. Para isso, uma ou mais cânulas venosas drenam o sangue venoso do paciente. Essa drenagem pode ser feita pelo átrio direito ou por uma dupla cânula (canulação seletiva), uma que drena o interior da veia cava inferior e veia porta e outra posicionada na aurícula direita e que drena o sangue que chega da veia cava superior.

Canulação arterial e venosa: A - Cânula aórtica; B - Cânula na aurícula direita; C - Aspirador ventricular esquerdo; D - Cânula de cardiotomia.

O sangue então é direcionado para o reservatório venoso, cuja função é acomodar o sangue drenado. No corpo do reservatório, temos sistemas de filtragem que evitam a formação de espumas que podem ser formadas devido à agitação do sangue no seu interior.

Oxigenadores

Os oxigenadores são os responsáveis pela realização das trocas gasosas do sangue durante a circulação extracorpórea. Seu papel é substituir a função pulmonar, ou seja, permitir que a hemoglobina capte oxigênio e desprenda o dióxido de carbono.

Exemplo de oxigenador de membrana utilizado em procedimentos pediátricos

O melhor sistema de troca, que dispomos atualmente, são os oxigenadores de membrana. Esse tipo permite a troca gasosa através de uma membrana constituída essencialmente por várias fibras ocas de polipropileno microporoso, dispostas de modo a que o sangue passe de forma turbulenta em torno do exterior destas fibras, enquanto o oxigênio e gás carbônico passam através do interior delas, maximizando a eficácia da hematose.

Sistema de propulsão arterial

O papel da propulsão arterial, realizada pelo equipamento, tem como objetivo substituir a função cardíaca. Ela envia o sangue do reservatório e assegura uma circulação sanguínea artificial de forma contínua ou pulsátil. Existem dois tipos principais de bombas: as bombas de rolete e as bombas de pressão centrífuga.

Bomba de dois roletes e três roletes.

As bombas de roletes eram as mais usadas, devido à facilidade de uso, baixa manutenção e custo.

A bomba de dois roletes foi a mais adotada em virtude de sua simplicidade mecânica, o uso de três roletes como propulsão até foi proposto, mas se mostrou excessivamente traumático.

Porém, mesmo que apresente facilidade de uso, seu emprego requer atenção, pois pode aspirar e bombear ar para o sistema circulatório do paciente, o que pode gerar complicações de extrema gravidade ao paciente.

Durante os anos 1980, a bomba centrífuga começou a se destacar e atualmente já é o tipo mais utilizado nos sistemas de circulação extracorpórea. Essa bomba entra na categoria das bombas cinéticas, pois a impulsão do sangue é realizada pelo giro do rotor. Ela se sobressaiu pela vantagem do seu uso combinado com o sistema de oxigenação por membrana, por ser mais seguro e a redução do trauma nos constituintes sanguíneos.

Cânulas arteriais

O papel da canulação arterial, feita por meio de cânula inserida na artéria do paciente, é devolver todo o sangue para sua circulação. Os locais de canulação arterial preferidos são a aorta, artéria femoral e ocasionalmente a artéria subclávia.

Porém, antes de retornar ao corpo, o sangue passa por um filtro e cata-bolhas para garantir que não haja partículas, detritos ou êmbolos gasosos entrando na circulação.

Tubos e aspiradores

Os tubos no circuito da CEC interconectam todos os principais componentes do circuito. As bombas adicionais na máquina CP permitem que qualquer sangue perdido no tórax aberto possa ser aspirado, filtrado e devolvido à circulação através do reservatório venoso.

Permutador de calor

O permutador de calor, componente da máquina coração-pulmão, pode atuar no aquecimento ou até mesmo esfriando o sangue do paciente. Nos casos em que a hipotermia não é necessária, uma bomba de água faz circular água morna próximo ao oxigenador para manter o sangue na temperatura adequada.

Porém, existem casos em que um estado de hipotermia é desejado. Como sabemos, a redução da temperatura faz com que as reações do organismo ocorram mais lentamente, devido à temperatura de trabalho ideal das enzimas e, como resultado, temos uma redução do consumo de oxigênio pelos tecidos. Essa manobra, de indução de hipotermia, é utilizada para facilitar algumas técnicas cirúrgicas que necessitem a diminuição da bomba arterial.

Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?

Confira no vídeo o conceito e a função da hemodiluição e das soluções utilizadas como perfusato.

No princípio da utilização da CEC, recomendava-se que o ideal a ser feito ao iniciar o procedimento era encher o reservatório do oxigenador e todos os componentes do circuito com sangue, para manter a pressão circulante do paciente mais fisiológica possível. Porém, essa conduta esbarra em um problema, pois são necessárias quantidades elevadas de sangue para preencher todos os componentes do circuito e isso contribuiria para aumentar muito o consumo de bolsas dos bancos de sangue.

Além da alta demanda por sangue gerada, ocorriam outros problemas como a “síndrome do sangue homólogo”, causada pela incompatibilidade entre os elementos do sangue dos vários doadores necessários. Nessa síndrome, os pacientes apresentavam um quadro complexo como:

  • Hipotensão
  • Hemólise
  • Queda de retorno venoso
  • Acidose metabólica
  • Redução de plaquetas e outros

Diante disso, foi implementada outra estratégia, a hemodiluição, que é a utilização de solutos cristaloides ou coloides com o intuito de preencher o reservatório do oxigenador e os outros componentes da máquina para iniciar o processo de perfusão.

Cristaloides

Soluções cristaloides são aquelas que contêm água, eletrólitos e podem conter ou não açúcares.

Coloides

Misturas heterogêneas que apresentam mais de uma fase não passíveis de observação à olho nu.

Hemodiluição

Vimos os motivos que levaram à introdução da hemodiluição no processo de perfusão. Vamos agora entender suas vantagens.

A hemodiluição reduz o uso de bolsas de sangue e contribui para uma melhor perfusão tissular, devido à diminuição da viscosidade do sangue. Além disso, o sangue diluído também é mais resistente à hemólise, e houve diminuição da ocorrência de microembolias.

Veja os maiores benefícios da hemodiluição:

Reduz a utilização de bolsas de sangue e hemoderivados
Diminui a viscosidade sanguínea
Melhora a perfusão aos tecidos
Reduz o dano causado pela máquina CP às células sanguíneas
Reduz o gradiente térmico nos tecidos
Reduz a resistência vascular periférica

A hemodiluição, porém, não possui apenas vantagens. Como já sabemos, o transporte de oxigênio é influenciado diretamente pela concentração dos eritrócitos e a hemodiluição atua na redução dessa concentração, o que pode diminuir a oferta de oxigênio aos tecidos. Nesse contexto, as células recorrem ao metabolismo anaeróbico, que acarreta a produção de ácido lático, que promove acidose metabólica.

Recomendação

O hematócrito deve ser mantido acima de 18%, pois valores menores podem produzir hipóxia nos tecidos.

Outro ponto importante a ser observado é o efeito gerado pela diluição das proteínas plasmáticas, principalmente quando utilizadas soluções cristaloides. As proteínas presentes no plasma, principalmente a albumina, são as principais responsáveis pela manutenção da água no interior dos vasos sanguíneos. Isso ocorre devido à pressão oncótica exercida por elas, logo a diluição dessas proteínas pode resultar em diminuição dessas forças, permitindo maior passagem de água para o espaço intersticial, resultado em edema.

Pressão oncótica

É a pressão osmótica exercida pelas proteínas presentes no plasma.

Recomendação

O volume máximo de solução cristaloide para realizar a hemodiluição é de 20 a 30mL para cada quilo do paciente.

Soluções utilizadas como perfusato

Existe uma diversidade de perfusatos que podem ser utilizados. A solução cristaloide mais utilizada é a de Ringer simples ou Ringer lactato, que mantém a composição eletrolítica, ou seja, é isotônica.

Apesar de o perfusato poder ser constituído unicamente por solução cristaloide, sua suplementação com coloides é benéfica. Além dos efeitos na viscosidade, os coloides ajudam a manter a pressão oncótica. As soluções de coloides disponíveis para uso atualmente são:

Derivados de gelatina

São bons expansores plasmáticos, porém alguns pacientes podem apresentar reações alérgicas.

Dextrans

É atualmente pouco utilizado devido à sua ação antiagregante sobre as plaquetas, o que pode gerar sangramentos no período pós-operatório.

Amidos

São derivados de polímeros hidroxietilados, possuem ótima propriedade oncótica e elevada viscosidade.

Plasma humano também é muito utilizado para realizar a hemodiluição principalmente na perfusão pediátrica.

Ao perfusato, normalmente, são adicionadas algumas substâncias, com objetivo de complementar a sua ação. Vamos agora conhecer um pouco mais sobre esses aditivos e suas funcionalidades.

Bicarbonato de sódio

Utilizado para tamponar a solução cristaloide.

Manitol

Utilizado com objetivo de manter a pressão osmótica e pelo seu efeito diurético, importante para equilibrar os efeitos antidiuréticos induzidos pelo procedimento de perfusão.

Albumina

Utilizado para manter a pressão oncótica. Como falamos, a albumina sérica é a proteína plasmática mais importante nessa função.

Corticosteroides

Utilizado para diminuir as reações inflamatórias, porém é mais aplicado com intuito de bloquear a vasoconstrição provocada pela perfusão.

Sulfato de magnésio

Possui diversas funções celulares e enzimáticas e a sua utilização durante a perfusão tem um efeito protetor sob o miocárdio e certas arritmias.

Heparina

Deve ser acrescentada ao perfusato para evitar a diluição da heparina circulante, quando o perfusato se mistura ao sangue.

Confira no vídeo como é feito o preparo da perfusão, incluindo o perfusato, a heparinização, o fluxo de perfusão dos gases e a monitorização da perfusão.

O procedimento da circulação extracorpórea está bem padronizado e milhares de cirurgias são realizadas diariamente com auxílio desse procedimento e, em geral, elas ocorrem sem maiores complicações. Porém, infelizmente, devido às características fisiológicas do paciente e da diferença significativa que existe entre a circulação normal e a extracorpórea, alguns problemas podem ocorrer. Alguns pacientes podem apresentar problemas relacionados a:

  • Hipóxia
  • Embolias
  • Edemas (cerebral, pulmonar e outros órgãos)
  • E aqueles relacionados a respostas exageradas do sistema imune do paciente

Logo, quanto mais cuidadosa for a condução da perfusão, menores e mais raros serão os problemas apresentados pelos pacientes. Vamos agora listar os aspectos mais importantes quanto a condução e a monitorização da perfusão.

Preparo da perfusão

Antes de tudo, o profissional perfusionista deve ter em mãos os dados do paciente relevantes ao procedimento, como peso e altura. Esses dados são fundamentais para a escolha do oxigenador e realização dos cálculos pertinentes, como, o grau de hemodiluição e a dose de heparina a ser administrada.

Outros dados do paciente, como existência de diabetes, alterações na coagulação e uso de medicamentos, também devem ser observados pelo perfusionista, pois podem trazer complicações durante o procedimento.

Após a montagem de todo o circuito da máquina CP, deve ser feita uma verificação minuciosa, avaliando a firmeza das conexões, a correta instalação das linhas e a calibração da bomba arterial.

Uma conduta muito recomendada é a lavagem de todo o circuito antes de iniciar o procedimento. Essa lavagem pode ser feita pela circulação da solução de Ringer por todo o sistema por tempo determinado.

Perfusato

Normalmente, para o perfusato, é utilizada a solução de Ringer adicionada de heparina (50 mg/L), bicarbonato de sódio 8,4% (10 mL/L) e manitol a 20% (5mL/kg). Outros aditivos podem ser utilizados, como o sulfato de magnésio e antibióticos.

Após preparado, o perfusato é colocado no oxigenador e é realizada uma circulação pelo sistema para remover completamente o ar.

Atenção!

A retirada do ar precisa ser feita com cuidado, pois microbolhas podem ser injetadas no paciente.

Quando estiver certificado de que todo o sistema está completamente sem ar, a linha venosa é pinçada no paciente e inicia-se a perfusão.

Heparinização

A heparinização do paciente é uma etapa de extrema importância, pois, caso não esteja adequada, ocorre o consumo de fibrinogênio e são formados coágulos ou acumula-se excesso de fibrina nos reservatórios do oxigenador.

Deve-se atentar também ao tipo de preparação da heparina disponível, aquela retirada da mucosa intestinal do porco é menos potente do que a retirada do pulmão do boi. A dose inicial administrada normalmente varia de 4mg a 3mg/kg de peso, ou 400 a 300UI/kg. Essa primeira dose é administrada pelo próprio médico, diretamente no átrio direito do paciente.

Após essa primeira administração, o perfusionista deve acompanhar e assegurar o controle preciso da anticoagulação do paciente, que é realizado pelo TCA (Tempo de coagulação ativado), que pode ser feito por métodos manuais ou automáticos.

Curiosidade

O TCA de uma pessoa, em condições normais, gira em torno de 80 a 120 segundos, e a anticoagulação adequada de um paciente que está sendo submetido ao processo de perfusão é maior que 480 segundos.

É indispensável que o teste de TCA seja feito antes e após a primeira administração de heparina. Além disso, outros controles podem ser feitos a cada 30 minutos de perfusão. Quando o TCA apresentar valor inferior a 480 segundos, o perfusionista deve administrar uma dose de reforço do anticoagulante.

Fluxo de perfusão e de gases

O fluxo arterial adequado para cada paciente é obtido por meio de cálculos matemáticos, levando em consideração principalmente seu peso.

Já o fluxo de gás é calculado levando em conta o fluxo do sangue. No início da perfusão, é recomendado que esteja em uma relação 1:1, ou seja, um litro de gás para cada litro de fluxo da bomba arterial.

Porém, no decorrer do procedimento, essa relação deve ser alterada, levando em conta a PO2 e a PCO2 obtida pelo teste de gasometria arterial. A PO2 deve ser mantida na faixa de 100 a 200mmHg e a PCO2 próximo a 30mmHg.

Monitorização da perfusão

Os parâmetros mais frequentes de monitorização que os perfusionistas devem manter atenção são:

Temperatura

Várias temperaturas devem ser monitoradas, dentre elas a da água do permutador de calor, a do sangue arterial e a do paciente.

Hematócrito, níveis de potássio e equilíbrio ácido-base

A gasometria arterial é útil nas avaliações dos parâmetros referentes ao equilíbrio ácido-base, como pH, PCO2, excesso de bases e a concentração de bicarbonato. O hematócrito, normalmente, é mantido em torno de 23 a 25%. E o potássio deve ser dosado no mínimo uma vez.

Anticoagulação

O TCA deve ser realizado a cada 30 minutos para verificar se a anticoagulação está adequada.

Componentes do circuito

Devem ser minuciosamente e constantemente inspecionados para verificar sua adequada função. Por exemplo, o estado das conexões e a função do oxigenador.

Confira no vídeo como ocorre a hemodinâmica na perfusão extracorpórea, explicando a bomba arterial, o que ocorre com a pressão arterial e a perfusão dos órgãos.

Como já sabemos, a principal função da circulação extracorpórea é realizar a oxigenação dos tecidos a fim de manter o metabolismo tissular. Vamos agora ver o comportamento hemodinâmico do organismo e de alguns órgãos durante o processo de perfusão.

Bomba arterial

As bombas do tipo deslocamento positivo ou centrífuga são as que normalmente fornecem a energia para circulação do sangue durante o processo de perfusão. São essas que emitem o sangue em um fluxo não pulsátil, ou seja, linear. Porém, os pesquisadores têm trabalhado no sentido de tornar esse fluxo pulsátil, para que o fluxo do sangue seja o mais semelhante possível com aquele que o coração proporciona.

Existem muitas evidências que o fluxo pulsátil seria benéfico ao paciente durante a perfusão, dentre elas podemos citar:

A energia de onda de pulso
A pressão de fechamento dos capilares
Os receptores sensíveis à onda de pulso

Vamos agora entender com mais detalhes esses benefícios.

A propulsão sanguínea na forma de ondas de pulso favorece a perfusão dos tecidos, pois mantém os capilares teciduais abertos por mais tempo e isso favorece as trocas gasosas com o líquido intersticial. Além disso, receptores (por exemplo, os barorreceptores) dependem da pressão arterial e da onda de pulso para regular o tônus vascular e liberar hormônios que o regulam. Esses fatores influenciam muito no aumento da resistência periférica arterial durante a perfusão que usa o fluxo linear.

Saiba mais

Estudos também apontam que cérebro, rins e outros órgãos são melhor perfundidos usando esse tipo de fluxo. No entanto, essa não é uma discussão encerrada, a substituição para o fluxo pulsátil ainda é um tema em aberto e continua a ser debatido.

Pressão arterial

Durante a perfusão extracorpórea, a pressão arterial é a relação entre o fluxo linear de perfusão e a resistência arterial periférica, que depende do tônus arteriolar e da viscosidade sanguínea. A perfusão inicia-se normalmente com uma baixa pressão arterial, o perfusato dilui as catecolaminas plasmáticas e ocorre a redução do tônus arteriolar. O perfusato também vai diminuir a viscosidade do sangue, o que contribui para esse efeito.

As perfusões normotérmicas dependem de liberação de catecolaminas para elevação da pressão arterial, já nas hipotérmicas o resfriamento do corpo induz reflexos vasomotores que aumentam a resistência arteriolar e, consequentemente, a pressão arterial.

Porém, durante o procedimento, a pressão vai se elevando gradativamente à medida que as catecolaminas e outros vasopressores vão sendo liberados pelo organismo. Não só por conta desses agentes citados, próximo ao final do procedimento, a pressão também aumenta devido à eliminação dos líquidos do perfusato pela diurese e redistribuição para o espaço intersticial.

Perfusão dos órgãos

A hemodinâmica normal é substancialmente alterada pelas características do processo de perfusão, como:

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Fluxo linear

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Viscosidade sanguínea

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Falta de onda de pulso na pressão arterial

E isso, como é de se esperar, altera a perfusão dos órgãos do paciente.

A adequada perfusão dos órgãos depende muito do funcionamento dos mecanismos fisiológicos de regulação. Os receptores atriais, carotídeos e aórticos são capazes de detectar a hipotensão arterial e hipovolemia, e coordenar respostas a esses estímulos. Os receptores atriais, por exemplo, atuam na liberação de hormônios antidiuréticos e na retenção de sódio nos rins, a fim de reverter à hipotensão. Os receptores carotídeos e aórticos podem estimular a liberação de catecolaminas, reduzir o fluxo sanguíneo para os rins, músculos e vísceras abdominais.

O cérebro é um órgão muito vital, a sua perfusão durante o processo de perfusão é mantida à custa da preservação de mecanismos especiais de autorregulação, porém, a perfusão regional e em seu interior não é bem conhecido durante a perfusão extracorpórea. Sabe-se que o fluxo sanguíneo cerebral é mantido inalterado com pressões de perfusão acima de 40mmHg.

Círculação do sangue no cérebro humano.

Já nos rins, o sistema de regulação de fluxo sanguíneo tem capacidade de regulação a baixas pressões. Estudos mostram que a perfusão realmente funciona de maneira muito diferente quando o fluxo é pulsátil ou não. O fluxo pulsátil é capaz de manter a filtração glomerular durante o processo de perfusão, enquanto o fluxo linear o reduz, o que faz necessário a administração de diuréticos.

Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?

A circulação extracorpórea induz ao organismo uma série de alterações de natureza:

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Física

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Química

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Hemodinâmica

Por esse motivo, ela é identificada como um agente agressor, e como a todos os agentes agressores, o corpo reage a ele. A resposta do organismo é complexa, pois pode ocorrer liberação de hormônios, alterações imunológicas, metabólicas etc. Dito isso, vamos iniciar nossa discussão falando um pouco dos aspectos da CEC que são vistas pelo organismo como agressores.

Perfusão extracorpórea como um agente agressor

Os processos e/ou componentes do sistema de perfusão que são tomados pelo organismo como agentes agressores são:

Hemodiluição

Devido à baixa viscosidade do sangue.

Hipotermia

Quase sempre utilizada em maior ou menor intensidade.

Fluxo de perfusão

Normalmente é um pouco menor que o débito cardíaco normal.

Heparinização sistêmica

Utilizada para inibir a cascata de coagulação a fim de permitir que o sangue possa entrar em contato com os componentes no circuito sem a formação de coágulos.

Bomba propulsora

O fluxo não pulsátil das bombas altera a perfusão do organismo em diversos órgãos.

Contato com superfícies estranhas

Durante o procedimento, o sangue entra em contato com superfícies pouco biocompatíveis e não endotelizadas.

Resposta do organismo à circulação extracorpórea

Confira no vídeo as reações do organismo durante a circulação extracorpórea e de que maneira a CEC é vista como um agente agressor.

O corpo produz uma série de respostas às “agressões” do procedimento, porém essas respostas não são de simples caracterização devido à variedade de técnicas de perfusão, das condições em que elas são aplicadas e principalmente da influência que o estresse cirúrgico já causa ao paciente, como a própria anestesia que induz um leve aumento da produção de insulina, elevação de cortisol e aumento da produção de vasopressina.

Glicose

A CEC é capaz de alterar o metabolismo da glicose, sendo a hipotermia induzida e o tipo de perfusão, os maiores responsáveis. A glicose, no início do procedimento de perfusão, pode atingir valores bem elevados, que são relacionados ao grau de hipotermia. Além disso, a hipotermia não atua somente nos níveis de glicose, mas também nos de insulina, reduzindo sua produção e liberação. Esse fato deve ser atentado principalmente aos pacientes diabéticos, precisando de mais atenção aos níveis de glicose. Nesses pacientes, deve ser evitado grau elevado de hipotermia, e o acompanhamento rigoroso das alterações da osmolaridade deve ser realizado devido ao risco de aparecimento de estado hiperglicêmico hiperosmolar.

Resposta da glicose e da insulina à circulação extracorpórea. Linha tracejada = glicose; linha contínua = insulina.Souza; Elias, 1995, p. 356.

Cortisol

No início da circulação extracorpórea, os níveis de cortisol reduzem devido à hemodiluição. Porém, como ele é um componente da resposta metabólica ao estresse, seus níveis aumentam progressivamente, mantendo-se elevado até 48 horas após o procedimento. Além disso, a liberação do cortisol durante a perfusão é maior na hipotermia moderada que na profunda. Enquanto isso, os níveis plasmáticos do cortisol são mais baixos quando o plano anestésico é mais profundo.

Hormônio antidiurético ou vasopressina

O hormônio antidiurético ou vasopressina é um forte regulador da excreção de água pelos rins, ou seja, reduz a filtração renal e a formação da urina, além de possuir uma ação vasoconstritora sistêmica.

O organismo interpreta o esvaziamento do átrio, no início da perfusão, como um sinal de hipovolemia. Com isso, a partir do sistema da angiotensina, ocorre a liberação de vasopressina.

O processo de perfusão pode estimular seu aumento até níveis vinte vezes maiores que os basais e essa elevação persiste no pós-operatório.

Contudo, algumas medidas podem ser tomadas. Foi descrito que, quando o fluxo de perfusão é pulsátil, sua elevação é menor. Além disso, alguns anestésicos, como morfina, azepan e fentanil, são úteis na redução da liberação de vasopressina.

Morfina.

Catecolaminas

A liberação das catecolaminas, principalmente a noradrenalina e a adrenalina, é estimulada pela diminuição da viscosidade sanguínea (provocada pela hemodiluição). Outro forte estímulo para sua liberação é a hipotermia.

Durante a perfusão, o aumento contínuo das catecolaminas resulta em intensa vasoconstrição periférica, a adrenalina pode atingir dez vezes seu valor basal durante o procedimento e a noradrenalina quatro vezes. Por isso, a administração de vasodilatadores é muito comum no início da perfusão.

Níveis plasmáticos de adrenalina e noradrenalina durante o processo de perfusão extracorpórea

Metabolismo das gorduras

Devido à diminuição do metabolismo da glicose, o corpo começa a usar as gorduras como fonte energética. Com isso, os ácidos graxos começam a ser liberados e seus níveis plasmáticos podem aumentar de duas a quatro vezes o normal do paciente. Essa alteração é mais forte a depender de quão mais longo é o procedimento de circulação extracorpórea. Ácidos graxos elevados podem levar ao aparecimento de microembolias gordurosas e arritmias.

Assista ao vídeo para ficar por dentro dos tipos de acidentes que podem acontecer, como falhas mecânicas e elétricas, falhas nas linhas do circuito e oxigenador, embolia, problemas com a anticoagulação e problemas com o equilíbrio ácido-base.

Durante o procedimento da CEC, infelizmente, podem ocorrer algumas complicações. Dentre as mais observadas, encontram-se as hemorragias e as complicações neurológicas. O aprimoramento da técnica, dos aparelhos e da capacitação do profissional perfusionista contribui para a redução do número e da gravidade dessas complicações, quando elas ocorrem.

Vamos agora listar quais são as causas mais frequentes que geram essas complicações durante o procedimento de circulação extracorpórea.

Máquina CP trabalhando no departamento de terapia intensiva em paciente.

Falhas mecânicas e elétricas

Causa comum dos acidentes, as falhas mecânicas e elétricas comprometem principalmente o funcionamento das bombas, e essas falhas estão normalmente relacionadas a não realização de testes de funcionamento após a montagem do equipamento. Veja um exemplo de cada falha:

Exemplo de falha mecânica

Ocorre no sistema de calibração. Um problema nessa parte de circuito pode ocasionar a redução do fluxo da bomba, levando a uma diminuição da perfusão e oxigenação dos tecidos do paciente.

Exemplo de falha elétrica

Ocorre, dentre outros motivos, devido à queda do fornecimento elétrico do centro cirúrgico ou até por curtos-circuitos na máquina coração-pulmão.

Falhas nas linhas do circuito e oxigenador

As linhas arteriais e venosas, mesmo que pareçam ser componentes menos importantes, pois servem apenas como uma via de trânsito do sangue entre os componentes do circuito e o paciente, podem apresentar muitos problemas e um número significante de acidentes estão relacionados a elas. Todos os componentes devem ser minuciosamente observados.

Exemplo

Um conector com bordas amassadas pode provocar hemólise no sangue do paciente, conectores mal colocados podem resultar em vazamentos. Outro exemplo seria em perfusão de neonatos, o diâmetro dos tubos é tão pequeno que até pequenas dobras podem ser suficientes para obstrução da linha do circuito.

Em relação aos oxigenadores, eles devem ser cuidadosamente avaliados, principalmente em relação à saída dos gases. Entupimento do escape de gases nos oxigenadores de membrana pode resultar em embolias gasosas, esse mesmo problema nos oxigenadores bolhas pode resultar em excesso de pressurização e rápido esvaziamento do reservatório do oxigenador. Esse que é o pior acidente que pode acontecer quando tratamos de oxigenadores, o esvaziamento do reservatório leva a uma injeção maciça de ar pela bomba arterial.

Embolia

As embolias são classificadas quanto ao material que forma o êmbolo. Dessa forma, elas podem ser:

Embolia de material biológico

Esses tipos de êmbolos podem ser oriundos de: produtos celulares, fibrina, fibrinogênio, plaquetas, neutrófilos etc. São formados geralmente pelo contato do sangue com os materiais do equipamento de perfusão que são reconhecidos como estranhos. Esses êmbolos, a depender do seu tamanho, podem produzir injúria a vários órgãos pela obstrução dos capilares e arteríolas. Microembolias biológicas têm sido detectadas em locais como cérebro, rins, baço, fígado e pulmões.

Embolia de material estranho

Os oxigenadores são uma importante fonte de material plástico e adesivo que podem originar esse tipo de problema. Porém, a embolia por material estranho é um tipo que vem se tornando menos significativa. Isso acontece devido à melhora dos sistemas de filtração, que reduziram muito a embolia por material aspirado do campo operatório, como fios cirúrgicos, restos ou limalhas de plástico, cera de osso etc.

Embolia gasosa

A melhora da construção e dos sistemas de desborbulhamento e dos oxigenadores de bolhas reduziu o número de microembolias gasosas. Esse tipo de oxigenador era o maior responsável por essa complicação.

O momento no qual temos a maior formação de microbolhas é no início da perfusão. A aspiração do sangue no campo operatório forma uma mistura de ar e sangue, originando grandes bolhas, esse tipo de embolia é bem conhecido desde o início da circulação extracorpórea. A medida mais importante para prevenir o aparecimento de embolias é a utilização de filtros, na linha arterial e na cardiotomia.

Êmbolos são muito perigosos e sua formação pode causar complicações muito graves aos pacientes, podendo até ser fatais.

Problemas com a anticoagulação

A administração recomendada da heparina é no átrio direito do paciente, antes de serem colocadas as canulações. Ao administrar a heparina por outra via, que não seja essa, aumenta o risco de uma sub-heparinização do paciente. Problemas com a heparina também podem decorrer de problemas inatos ao paciente, como ser resistente à ação da heparina, necessitando de doses maiores.

Problemas com o equilíbrio ácido-base

Problemas relacionados ao equilíbrio ácido-base podem ocorrer durante a circulação extracorpórea, dentre eles, os mais comumente observados são:

Acidose metabólica

Pode ocorrer quando a oxigenação dos tecidos é inadequada, pois a falta de oxigenação faz com que esses tecidos recorram ao metabolismo anaeróbico, que tem como produto o ácido lático. A oxigenação inadequada pode ter diversos motivos, como: vasoconstrição, deficiência na oxigenação do sangue etc.

Alcalose respiratória

Pode ocorrer quando a quantidade de oxigênio despejada pelo oxigenador ao sangue é maior que a necessária. Esse é um problema relativamente comum e pode favorecer o aparecimento de hemorragia cerebral.

Assista ao vídeo e fique por dentro dos tipos de atribuições do perfusionista, quais profissionais e como esses podem se tornar perfusionistas.

Normalmente, quando uma nova tecnologia é aplicada, logo surgem novos profissionais que se capacitam para lidar com tal inovação. Na circulação extracorpórea, isso também aconteceu.

O perfusionista, como profissional, apareceu recentemente, na década de 1950 e 1960. Ele está ligado à cirurgia cardíaca e é um importante membro da equipe cirúrgica cardiovascular, com conhecimentos nas áreas de fisiologia circulatória, respiratória, neurológica, sanguínea, renal, de centro cirúrgico e esterilização.

No início do emprego das técnicas de perfusão, elas eram realizadas por médicos auxiliados por enfermeiros, posteriormente chamados de auxiliar de perfusão. Porém a formação exigida aos outros membros da equipe cirúrgica era muito maior, e o perfusionista tinha uma elevada chance de produzir injúria aos pacientes. Foi então que se observou a necessidade de maior capacitação desses profissionais, impondo um currículo mínimo de disciplinas à formação acadêmica dos perfusionistas.

Saiba mais

No Brasil, atualmente, para obter a habilitação e atuar como perfusionista, o profissional da saúde precisa de graduação em saúde e curso de especialização na área que o torna perfusionista. O profissional da saúde deverá apresentar certificado de pós-graduação lato ou stricto sensu reconhecido pelo MEC com 800 horas práticas e 400 horas teóricas, ou então o título de especialista pela Associação Brasileira de Biomedicina (ABBM).

Vale destacar que a perfusão extracorpórea pode ser exercida por profissionais com formação superior em biomedicina, enfermagem, biologia, fisioterapia, farmácia e medicina. Nesse caso, o biomédico pode assumir a função de perfusionista dentro de um centro cirúrgico de acordo com a Resolução nº 135/2007 (associada à RDC nº 306/2004) e a normativa nº 01/2019, publicadas pelo CFBM.

Na prática, o perfusionista atua no suporte, tratamento, avaliação ou suplementação das funções dos sistemas respiratório e circulatório dos pacientes, operando a máquina de circulação extracorpórea nas intervenções médicas em que sua utilização é necessária.

O Ministério da Saúde, em 1987, elaborou uma descrição das atribuições do profissional perfusionista, dentre elas estão:

  • Testar os componentes da máquina coração-pulmão e realizar o controle de sua manutenção, a fim de mantê-la em boas condições de uso.
  • Verificar se o paciente possui condições que possam interferir na perfusão como: diabetes, hipertensão, doenças endócrinas etc.
  • Calcular as doses de heparina e de protamina para anticoagulação sistêmica do paciente e sua devida neutralização, respectivamente.
  • Fornecer aos cirurgiões os calibres mínimos necessários das cânulas venosas e arteriais, que irão realizar a retirada do sangue venoso e seu retorno a artéria.
  • Executar, sob o comando do cirurgião, a circulação do sangue e sua oxigenação extracorpórea, monitorar a pressão arterial e venosa, diurese, tensão dos gases, hematócrito, anticoagulação e promover as correções necessárias.
  • Controlar o grau de hipotermia sistêmica do paciente determinado pelo cirurgião, por meio do resfriamento do sangue, para a preservação metabólica do paciente.
  • Preparar, administrar e controlar as soluções protetoras do miocárdio e medicamentos como inotrópicos, vasopressores, vasodilatadores etc.
  • Encarregar-se também do preenchimento da ficha de perfusão que possui os dados do paciente para orientar o tratamento pós-operatório.
  • Participar de pesquisas clínicas.

Esses são alguns exemplos das atribuições do perfusionista. Como podemos ver, ele é um especialista fundamental para as equipes de cirurgiões cardíacos e pulmonares. Sem esse profissional, não seria possível a realização da cirurgia com a devida segurança que são realizadas atualmente.

Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?

Um dos grandes avanços da medicina no século XX foi o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das técnicas da circulação extracorpórea, que permitiu a cirurgia cardíaca de coração aberto. Atualmente, a perfusão extracorpórea não somente substitui o papel do coração e pulmões por curto período de tempo como ocorria antigamente, mas também é capaz de conservar a viabilidade das células e o metabolismo do indivíduo pelo tempo necessário para a realização de cirurgias complexas e demoradas.

A CEC pode ser definida como o ato de manter o paciente com suporte de vida artificial chamado de coração-pulmão artificial ou “bypass” cardiopulmonar total, muito utilizado nas cirurgias cardiovasculares, mas também em outros tipos de procedimento como as afecções da aorta, transplantes de coração e/ou pulmão, transplante hepático e em alguns tipos de retirada de tumores.

A máquina que realiza esse procedimento faz o trajeto do sangue venoso, rico em dióxido de carbono, que retorna dos tecidos, ser desviado. Para isso, são colocadas cânulas nas veias cava superior e inferior, e assim o sangue que iria para o átrio direito do paciente, é conduzido agora para o aparelho coração-pulmão artificial. Após isso, o sangue do paciente passa por um oxigenador, onde é adicionado oxigênio ao sangue venoso, que já pode ser reinfundido novamente no paciente.

O perfusionista, profissional responsável por esse processo da CEC, está ligado à cirurgia e é um importante membro da equipe cirúrgica cardiovascular com conhecimentos nas áreas de fisiologia circulatória, respiratória, neurológica, sanguínea, renal, de centro cirúrgico e esterilização.

Para encerrar, ouça os princípios básicos da perfusão extracorpórea, passando pelos fundamentos sobre a prática da circulação extracorpórea, e finalizando com as respostas e aplicabilidades da perfusão extracorpórea.