Objetivos
A Questão Coimbrã
Reconhecer os princípios estéticos e sociais da Questão Coimbrã.
Antero de Quental
Identificar os elementos literários fundamentais da obra de Antero de Quental.
Cesário Verde e Guerra Junqueiro
Identificar características e temáticas da obra de Cesário Verde e Guerra Junqueiro.
Romantismo e realismo são dimensões das estéticas literárias que devem ser vistas sob o prisma do diálogo: podem ter elementos de continuidade, de ruptura ou de desdobramento.
Estéticas que vieram uma após a outra raramente são antagônicas, pois não existe de fato uma ruptura e inovação ao ponto da eliminação de uma estética anterior. Existe, na verdade, uma transição, ora mais lenta, ora mais rápida nas rupturas.
Assim, vamos estudar essa transição do romantismo ao realismo na literatura em Portugal, começando com o seu contexto histórico, social e estético, a partir do entendimento do que foi a Questão Coimbrã.
Depois, estudaremos a obra de alguns dos principais representantes da estética realista portuguesa: Antero de Quental, Cesário Verde e Guerra Junqueiro.
O romantismo na literatura pode ser entendido como um marco fundamental para o que viria a ser o modernismo literário, porque traz em seu bojo a quebra dos padrões clássicos e universais para as composições literárias, individualizando-as em seus contextos nacionais.
Liberdade liderando o povo, Delacroix, 1830.
Como pano de fundo histórico e social do romantismo, encontramos a ascensão do individualismo burguês e a busca pela singularidade, capitaneada pela Revolução Francesa e pelas ideias iluministas de liberdade, reverberando em produções artísticas que buscavam identidades nacionais e individuais próprias.
Já no realismo, impulsionado pelas transformações sociais que intensificavam a urbanização e a industrialização da Segunda Revolução Industrial, a tônica foi a aproximação das representações literárias da vida social com os problemas reais trazidos pela crescente produção capitalista.
O realismo, desse modo, destacou “a vida como ela é”, ou pelo menos tentou fazer uma fiel representação da condição humana em sua efetiva existência social, o que levou a literatura a representar com mais acento os problemas sociais, as mazelas humanas, a diferença entre as classes ou as relações precárias de trabalho.
Casa, Jožef Petkovšek, 1889.
Em Portugal não foi diferente. A transição do romantismo para o realismo é muito bem representada pela Questão Coimbrã: momento em que novos rumos literários eram engendrados por jovens que estudavam na Universidade de Coimbra.
Entenda como foi esse processo, no que tange às características adquiridas do romantismo, até a consolidação do realismo português:
Do romantismo
Do romantismo, herdaram a rebeldia e o desejo de ruptura; do realismo, a aproximação com a vida social. Alguns dos exemplares para esse momento são as obras de Antero de Quental, Cesário Verde e Guerra Junqueiro, pois produziram uma renovação sem precedentes na literatura portuguesa, fazendo amadurecer no país uma produção antes dependente de modelos externos e ainda muito incipiente quanto às singularidades.
Para o realismo
O realismo literário português é, assim, a primeira escola literária que se apresenta como movimento, isto é, que se apresenta com um programa definido e específico, trazendo, em suas concepções, reflexões de fundo social, filosófico, político e estético, que se materializaram em obras programaticamente pensadas em grupo.
Então, vamos estudar como surge o realismo em Portugal, conhecendo melhor o que foi a Questão Coimbrã.
Vamos a algumas questões sobre as quais você precisa pensar um pouco.
- Como acontecem as mudanças nos modelos estéticos?
- O que impulsiona tais transformações?
- Quais os fatores históricos que possibilitam as mudanças nos modelos literários?
Nem sempre as respostas são claras e, com certeza, os motivos das transformações são muito variáveis, caso a caso.
Palácio das Escolas (Universidade de Coimbra).
Em relação ao surgimento do realismo português, as marcas históricas são claras e fortes:
- A travessia pela metade do século XIX em Portugal representa uma mudança definitiva para o país.
- Foi um período de abertura para a Europa e para todo o conhecimento que o continente trazia, principalmente nas ciências, nas ideias e na nova forma de produzir as riquezas.
- A vida social e econômica era marcada, naquele momento, pela ascensão da burguesia e pelo crescente processo de industrialização capitalista.
- Em 1864, a cidade de Coimbra, berço de uma das principais universidades de Portugal, a Universidade de Coimbra, recebeu a ferrovia que a conectava com o resto do continente, o que possibilitou grande influxo de pessoas e mercadorias, produzindo conhecimento e recebendo influências de culturas exteriores.
A estética romântica, representada pelas obras de Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Soares de Passos ou ainda Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis, já tinha aberto caminhos para a quebra de uma cultura fechada, introspectiva, nacional e centrada nos valores da nobreza, que eram características da literatura portuguesa até o século XVIII. Desse modo, os realistas intensificaram o empenho engendrado pelos românticos, que era o de abrir Portugal para uma renovação de suas bases culturais.
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Com o tempo, chegaram as ideias, cada vez mais fortes, dos ideais iluministas que propunham uma renovação no modo de ver a sociedade, assim como traziam em si as novas formas de administração do Estado. Ao longo da história, a ser laico e gerido por forças comerciais, superando a hegemonia da nobreza que até meados do século XVII dominou a Europa. Eram os chamados ventos progressistas e liberais, que chegavam principalmente da França, país que não só serviu de modelo político, mas fortemente influenciou as letras portuguesas.
Barricade The Paris Commune May, 1871. Andre Devambez, 1911.
Alguns acontecimentos históricos marcaram a geração de 70 (1870), como ficou conhecida em Portugal a geração formada pelos escritores realistas:
- A unificação da Itália marcava o fim do domínio papal da cultura.
- A ascensão da classe burguesa indicava novos rumos para o pensamento filosófico, econômico, social e político, o que, consequentemente, trouxe novos modelos para o fazer artístico e literário.
- O aumento da urbanização era capitaneado por uma ascensão industrial sem precedentes, que trazia a aproximação entre os países até mesmo do ponto de vista físico, pois os objetos culturais (livros, por exemplo) circularam com mais facilidade entre os Estados Nacionais, mas também do ponto de vista da produção econômica, pois Portugal, como outros países da Europa, ficou cada vez mais dependente de capitais externos e internos para a sua gestão e seu funcionamento.
- A comuna de Paris, eclodida em 1871, foi a primeira experiência dita socialista na Europa. Durou apenas dois meses, alimentou ideias de justiça e igualdade entre trabalhadores, e trouxe a ascensão do poder dos trabalhadores, que passaram a gerir a sociedade a partir de bases autônomas.
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A comuna era composta de conselheiros eleitos pelos distritos das cidades, e que poderiam ser substituídos de acordo com a vontade dos trabalhadores. Os salários passaram a ser mais igualitários e a proposta de uma administração das cidades coletiva e partilhada. Em suma, era uma afronta aos poderes da nobreza, do capital, das classes industriais e comerciais dominantes, com ideais socialistas que alimentavam uma geração de jovens rebeldes e revolucionários. As ideias da comuna foram extremamente importantes para os rebeldes da Universidade de Coimbra, assim como influenciaram toda uma geração de jovens, como Eça de Queirós, Antero de Quental ou Teófilo Braga.
Cartum editorial representando Charles Darwin como um macaco (1871).
Eram tempos também de renovação na economia, na política e nas mentes.
- Em 1859, Charles Darwin edita A Origem das Espécies, propondo uma visão científica e evolucionista que se opunha ao criacionismo dominante até então.
- O filósofo e historiador francês Jules Michelet, em A Bíblia da Humanidade, trazia uma visão de mundo que afrontava o fatalismo e a concepção de destino divino, colocando em questão o cristianismo tradicional.
- O teólogo e historiador francês Ernest Renan, com Origens do Cristianismo, e o filósofo alemão Ludwig Feuerbach, com A Essência do Cristianismo, contestavam a visão histórica da Igreja e traziam a figura de Cristo muito mais humanizada e próxima das concepções de luta e igualdade preconizada pelos socialistas.
- O filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon e o filósofo alemão Friedrich Hegel foram fundamentais em relação às questões políticas, notadamente para os escritores Antero de Quental, Eça de Queirós e Oliveira Martins.
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Proudhon trazia a visão de um socialismo utópico, que afrontava os poderes dominantes do capitalismo. Hegel, em sua obra, trouxe a ideia de que na história havia um processo que determinava um progresso, constituído de fases sucessivas, indicadas por uma autodeterminação. Essa visão hegeliana se opunha ao determinismo passivo que alimentava as ideias da nobreza e que, segundo os socialistas e a geração de 1870, eram responsáveis pela aceitação de um destino que legitimava a desigualdade entre as classes sociais.
Todas essas ideias, é claro, vieram acompanhadas de avanços nas ciências, como a genética, a geologia, a linguística, o direito, a sociologia. Eram as ideias de progresso e transformação, que estavam no pano de fundo dos jovens de Coimbra.
O realismo, não só em Portugal, mas no contexto mundial, inclusive no Brasil, entende o homem como produto do meio social.
Em algumas obras, a ideia de determinação (determinismo biológico e social, vindo a partir da interpretação das ideias de Darwin) aparece de forma radicalizada, colocando as ações de personagens diretamente dependentes do meio social e de um biologismo que tornava a razão dependente dos instintos.
Mulheres peneirando trigo, Gustave Courbet, 1854.
Assim, o realismo apresenta o mundo e os indivíduos de maneira objetiva, presente no meio social e no interior das classes sociais, politicamente construídas pelo sistema econômico, isto é, no interior da sociedade e dos interesses burgueses.
Nesse sentido, cessam as idealizações do amor, da mulher, do casamento e das relações sociais, já que ficam evidenciados os interesses por trás das relações humanas, como, por exemplo, no casamento burguês. Por esse prisma, o realismo é o oposto do romantismo, que idealizava a figura da mulher (de acordo com o gosto e a expectativa do homem burguês), do casamento e do herói, com descrições sentimentalistas e não objetivas.
Sabemos, no entanto, que os ideais progressistas e liberais defendidos por essa geração de escritores encontraram muita resistência no próprio seio da sociedade portuguesa. Portugal é um país de forte influência católica e de moralidade muito conservadora. Por mais que a Europa estivesse sofrendo transformações, o país possuía instituições muito presas ao passado, assim como a própria oligarquia rural ainda desconhecia em boa parte as revoluções industriais exteriores.
A oposição ao status quo, entretanto, alimentou ainda mais o projeto de uma geração da contracorrente, e aí está uma veia romântica ainda presente nos realistas: as paixões pela revolução, pela ruptura, o espírito iconoclasta que se alimentava de desejos e novidades.
Atenção
A diferença entre românticos e realistas, entretanto, é que a geração romântica ainda não possuía todo o arsenal de mundivivência propiciado pela abertura de Portugal ao mundo, abertura esta trazida pelas revoluções políticas, econômicas, sociais, filosóficas e científicas
Polêmicas são muito interessantes para despertar interesses, curiosidades e paixões, mas também conhecimento e transformações.
É certo que esse período é muito marcado pela presença de opiniões nos jornais, que se tornaram veículos de união social. Era nos jornais que se sabiam as notícias, as novidades científicas, as polêmicas em tono da política e as publicações literárias.
Por volta de 1860, já se travavam algumas polêmicas em torno de ideias antigas e novas, e o público leitor acompanhava de perto os rumos das ideias. No entanto, as discussões literárias eram esparsas e giravam em torno de críticas ao romantismo e da defesa de uma literatura mais participante da vida política em Portugal.
Mas o estopim da questão ou da polêmica se deu com a publicação de um posfácio escrito pelo escritor romântico Antônio Feliciano de Castilho, presente no livro Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas.
Ao defender Pinheiro Chagas, Castilho aproveitara para realizar duras críticas aos jovens de Coimbra, acusando-os de:
Falseamento de temas da literatura
Exibicionismo livresco e intelectual
Falta de “bom senso e bom gosto”
Castilho defendia, assim, certo status quo da literatura portuguesa, cujas características seculares tinham, tanto nos temas quanto nos modelos formais, as seguintes marcas:
Tradicionalismo
Academicismo
Formalidade
No posfácio, Castilho atacava, por meio de ridicularizações e ironias, o escritor Teófilo Braga, que havia publicado Visão dos Tempos, e Antero de Quental, que publicara Odes Modernas, além de outros autores, como Vieira de Castro. Em torno de Castilho, estavam Tomás Ribeiro e Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, jovens escritores apadrinhados por Castilho e que executavam ainda uma literatura academicista e formal. Todos eram críticos dos denominados “coimbrões”.
A resposta viria de Antero de Quental, em sua famosa carta aberta denominada Bom-senso e bom-gosto, publicada em 1865. Na carta, Quental sustentava as ideias socialistas de Proudhon e o evolucionismo dialético de Hegel, o que rompia com o sentimentalismo metafísico dos românticos. Alegava defender o que chamou de “poesia de combate”, em que a literatura se aproximaria das problemáticas efetivamente sociais, a partir de uma visão revolucionária, que apoiava as transformações e a igualdade.
Desse modo, Antero de Quental colocava a literatura a serviço de uma questão política e uma missão de transformação direcionadas à construção da justiça e da liberdade da comunidade.
A crítica de Quental se dirigia principalmente a dois elementos:Passadismo
Aspectos formais dos românticos
Para Quental, o apego às formas antigas também significava o apego às moralidades ultrapassadas, à falta de criatividade e à obediência cega aos modelos literários que, no fundo, mesmo românticos, ainda eram tributários do classicismo, período anterior ao romantismo.
A querela entre românticos e realistas carrega em si profundas representações das raízes históricas portuguesas, pois os jovens rebeldes de Coimbra lutavam por uma renovação cultural e econômica do próprio país.
Desse modo, o realismo representa a união das preocupações literárias com todos os setores do pensamento, bem como com todas as novidades científicas engendradas pelo pensamento europeu. É quase uma forma de vida, uma visão de mundo, como se as escolhas literárias significassem, ao mesmo tempo, escolhas estéticas, mas também posições políticas e papéis diferenciados na sociedade. Criticavam, sobretudo, o modelo burguês que fundamentava a época romântica.
Além da polêmica entre Castilho e Antero, outras manifestações públicas também ajudaram a fortalecer as ideias realistas, presentes na Questão Coimbrã. Em 1868, alguns poetas começaram a se reunir em Lisboa, com o nome de Cenáculo. As reuniões foram tão polêmicas que chegaram a ser interrompidas pela polícia, evidenciando o grau político e interventivo criado pelas ações do grupo.
Em 1871, como resultado da reunião do grupo Cenáculo, e impulsionadas pelas atividades combativas de Antero de Quental, saíram as “Conferências Democráticas do Casino Lisbonense”. Essas conferências evidenciavam a forte visão revolucionária e de vanguarda retiradas de Proudhon, tendo como motivo efetivo a renovação da mentalidade portuguesa, por meio de sua abertura para a Europa. Anos mais tarde, em 1887, já maduros e beirando a consolidação da estética simbolista, o grupo formaria os “Vencidos da Vida”.
Como resultado das lutas efetivas e proferidas em defesa da estética realista, tendo-a como centro de uma visão de mundo renovadora em todos os aspectos da vida literária e social, temos muitas produções de fato ricas e que deram novo fôlego à literatura portuguesa.
Sobre a relevância literária dessa geração, Massaud Moisés pontua o seguinte:
[foi] uma esplêndida geração, inegavelmente a mais importante jamais aparecida em Portugal pela força de sua presença reformadora, de sentido ecumênico, e pela obra literária que legou à posteridade, sem paralelo em qualquer época. Quanto à obra realizada, [...] pode-se dizer que os realistas alcançaram grandes alturas onde puseram a corre seu talento e seu estudo.
(MOISÉS, 1984, p.124)Assim, surge uma poesia do cotidiano, em que a matéria do romance e do poema está presente em qualquer lugar, mesmo nas mínimas situações de vida. Aparece o prosaico e, junto com ele, a língua presente no âmbito literário também se desloca da erudição sempre elevada para o uso de elementos da oralidade e das expressões populares.
Na obra de Cesário Verde, por exemplo, a vida cotidiana e as dores e amores do homem comum são retratadas tendo como pano de fundo a vida citadina franca e pueril, como lemos no poema Num bairro moderno:
Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.
Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.
[...]
VERDE, Cesário. Poesias Completas de Cesário Verde. Rio de Janeiro: Ediouro,
1987, p.17.
Como prenúncio do modernismo, a obra de Cesário acirra a profundidade da subjetivação, trazendo a individualidade para perto das sensações psicológicas.
Já no conto, há certa divisão entre realismo e naturalismo. Veja a seguir:
Acentua as lutas políticas e a representação de realidades sociais.
Enfatiza as mazelas humanas em sua biologia execrável, escatológica, mundana, crua, animalesca, evidenciando que o humano é falível, passível de crítica e correção, e que o espírito literário deve ter olhar agudo para os problemas para que seja possível resolvê-los.
Eça de Queirós, Abel Botelho e Teixeira de Queirós são os mestres neste âmbito da literatura realista e naturalista em prosa. Também Fialho de Almeida, em O País das Uvas, elabora contos muito próximos do impressionismo, já que possuíam intenso labor com as palavras, à moda da escrita artística dos irmãos Goncourt, em França.
Nesse tipo de escrita, há expressões raras, vocábulos sonoros, sintaxe elegante e representações imagéticas das minúcias mais imperceptíveis da vida. É como se o trabalho intenso e artístico com a linguagem, que carrega variações sutis da significação, tentasse se aproximar também dos detalhes da vida, elaborando quase um corpo a corpo entre a profundidade do olhar e a profundidade que surge do trabalho intenso com as palavras.
Entretanto, como a literatura realista, em muitos momentos, por causa de seu apego às formas representativas do real, beira a reportagem, com sua vertente de doutrinação e reforma, a geração realista também foi produtiva na publicação de periódicos. Assim nasceu As Farpas, publicação mensal que durou de 1871 até 1883, tendo como responsáveis Ramalho Urtigão e Eça de Queirós.
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O romance do período abandona os modelos fixos de entretenimento, típicos do romantismo. Nos temas, há a defesa do humanismo e a denúncia dos modos burgueses de associação familiar. Desse modo, os casamentos aparecem recheados de adultérios e hipocrisia.
Eça de Queirós, Fialho de Almeida e Abel Botelho construíram, nesse sentido, obras em que a alma portuguesa, despida de seus valores tradicionais, aparece desamparada de solidez.
Eça foi um dos maiores mestres do romance português, com obas como A Ilustre Casa de Ramires e Os Maias, possuindo fina análise crítica da realidade, bem como crítica ao Clero e sua conexão com o Estado português. Nesse sentido, Clero e Estado português vão ser representados como agentes legitimadores do atraso e da desigualdade em Portugal.
Eça de Queirós.
O realismo persistiu de certa forma até o século XX, atravessando o simbolismo e o impressionismo surgidos nas últimas décadas do século XIX. Devido à forte presença de embates políticos de Portugal, o distanciamento entre o espírito de vanguarda de seus escritores, assim como a presença constante de escritores do meio jornalístico, a literatura portuguesa, de alguma forma, sempre retoma algum tipo de realismo.
Foi assim com o neorrealismo, nascido na década de 1930. De forma renovada, essa corrente se opunha à estética anterior, o presencismo, que possuía forte pendor para a abstração, o pensamento metafísico e a subjetivação extremada. Posteriormente, a obra de José Saramago iria retomar, pela vertente das representações simbólicas, a veia do realismo, mais uma vez para realizar críticas aos padrões da vida portuguesa.
Ilustração de Madame Bovary de Gustave Flaubert (1821-1880): Emma Bovary com a sua filha Berthe
É bom se lembrar de que as formas artísticas e literárias que giram no entorno de representações realistas foram muito utilizadas para a crítica social, desde a Antiguidade Clássica. Isso porque o espirito realista, opondo-se às representações mágicas e transcendentais, é veículo propício para as ironias, para os sarcasmos, para o rebaixamento caricatural e para as denúncias políticas. É pelo humor que o bobo da corte se permite e ganha permissão de criticar até os reis mais poderosos.
A crítica, por sua vez, gera impacto e renovação. Lembremo-nos de que quando surgiu na França o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, obra considerada um marco inicial do realismo: o mundo literário conheceu novas formas de representação da sociedade, da mulher, do Clero, da moral, da religião e da burguesia.
Curiosidade
Por causa dessa obra, Flaubert foi julgado em tribunal por ofender os bons costumes e as instâncias de poder francesas. A mesma força que o levou a ser julgado também impulsionou o livro a ser considerado “o romance dos romances”, pois lapidava em sua forma a fina análise social e política que uma literatura realista pode permitir.
A seguir, veja algumas explicações e exemplos sobre o contexto e as ideias implicados na Questão Coimbrã de forma panorâmica.
Você já percebeu que, no realismo português, os conflitos foram muito fortes. Houve choques entre o espírito de renovação e as tradições conservadoras. Nesse contexto, encontramos os realistas de Coimbra, escritores jovens e rebeldes, alinhados progressivamente com o que acontecia de mais avançado na Europa.
Do ponto de vista literário, o realismo representava o definitivo esforço de colocar contra a parede o espírito burguês.
Se o romantismo trouxe as ideias iluministas, revolucionárias a seu tempo, mas que não conseguiram acabar com as desigualdades entre as classes – apesar do lema “igualdade, liberdade, fraternidade” –, o realismo trouxe o espírito revolucionário dos socialistas antiburgueses, também marcado por um idealismo, imaginando uma sociedade mais justa e fraterna.
Saiba mais
O choque, para os realistas, está justamente na elevação dos propósitos em oposição aos arcaísmos de Portugal: condição econômica e material atrasada, defasagem na produção de ideias, forte tradicionalismo e presença de valores conservadores. No entanto, todas as revoluções partiram de uma análise de situação de atraso, para necessidades imaginadas em direção a um avanço. O que torna a situação de Portugal muito particular é o agravamento dessas oposições.
Mas o que essas reflexões têm a ver com Antero de Quental?
A relação está no fato de nenhum outro autor ter vivenciado com fervor e agonia tão profundamente essas contradições. Os conflitos de seu tempo irão agir drasticamente sobre sua personalidade e sobre sua produção literária. Sua história se aproxima muito da história de Portugal: origem tradicional, choque de culturas internas e externas, contradições estruturais, necessidade de avanço e grave impedimento, de toda ordem, para as transformações.
Antero de Quental
Antero nasceu em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, em 1842, nos Açores. Sua origem é de uma família rural e católica, portanto, tradicional e conservadora, aos moldes clássicos de Portugal do século XIX. Ainda jovem foi para Coimbra e sua formação tradicional entrou em choque com as novas ideias em voga. Foi o grande timoneiro da “Questão Coimbrã”, seus escritos e sua participação efetiva nos debates do período fizeram com que sua figura servisse de exemplo para jovens poetas. Possuía uma elevação quase santa ou mística do espírito, misturada aos ideais socialistas, acabou por criar uma personalidade voluntarista e dedicada à criação de uma sociedade humanista, democrática e socialmente justa, daí seu apego ao espírito progressista de seu tempo.
Possuidor de um temperamento irrequieto, sua obra também reflete tais inconstâncias. É assim que Antero, como Portugal, misturou o velho e o novo. Apesar de sua luta pelas transformações revolucionárias da sociedade e do entendimento da literatura como uma missão de combate, sua obra apresenta um conflito, pois ainda carrega muitos elementos românticos e clássicos, tais como:
As formas fixas
A idealização da mulher
A elevação do espírito à moda romântica
A idealização da sociedade
Em sua poesia, esse conflito, entre o social e o filosófico, acaba criando uma obra de forte pendor metafísico, investigativo, conflitante entre a realidade e o ideal de vida coletiva. A marca de sua existência teria sido, pois, o desejo e a impossibilidade. Exatamente por isso, lemos em seus poemas uma luta entre a expressão de sentimentos e o esforço do pensamento em compreendê-los.
É o embate entre a razão e a sensibilidade, dramatizado entre um espírito que se questiona enquanto vai se destruindo paulatinamente, porque seu tradicionalismo arraigado o impulsiona para aceitação dos valores tradicionais, mas toda a sua formação intelectual contradiz a transcendência idealista e apela para o raciocínio, para a intelectualidade e para as análises materiais e objetivas da vida.
Esse embate entre o novo e o velho, o mundano e o elevado, o idealismo e o realismo, fica evidente nos seus escritos críticos. Seu texto mais conhecido, feito em resposta à Castilho, Bom-senso e bom-gosto, marca essa contradição.
No texto, há a explícita defesa de uma literatura de combate, uma literatura conscientizadora do ponto de vista político e social, uma literatura que estivesse a serviço da transformação da realidade, segundo os moldes de Proudhon e influenciado pelas ideias evolucionistas de Darwin e pela dialética de Hegel.
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Sua obra Odes Modernas, no entanto, não faz completamente jus aos ideários revolucionários presentes no texto Bom-senso e bom-gosto, pois ainda carrega resquícios românticos e metafísicos. O contraponto é que traz um forte discurso revolucionário e humanista, apelando para a razão e em oposição ao sentimentalismo emocional dos românticos.
Os caminhos de Antero de Quental: lutas e recolhimentos
Vejamos alguns fatos marcantes na vida de Quental:
Aos 13 anos, Antero sai de sua terra natal para estudos preparatórios em Coimbra.
Aos 16 anos, ingressa no curso de Direito da Universidade de Coimbra, momento em que começa seu caminho rumo à intelectualidade progressista.
Quental edita a obra Odes Modernas.
Após a sua formatura em direito, regressa à sua terra natal, nos Açores, e sente o impacto causado pela experiência em Coimbra em choque com o tradicionalismo da vida provinciana.
Vai para Paris e trabalha como tipógrafo. Lá, organiza, com antigos amigos da época de Coimbra, o grupo Cenáculo, e consegue, finalmente, colocar em prática seus ideais.
Já em Portugal, organiza com o grupo Cenáculo as “Conferências Democráticas do Casino Lisbonense”.
Antero colabora na imprensa sindicalista e organiza a “Associação Internacional dos Trabalhadores”, além de concorrer às eleições como candidato ao legislativo pelo Partido Socialista.
Regressa à sua terra natal nos Açores para assumir a propriedade da família, após a morte de seu pai. Essa fase de combate é conhecida como fase solar, pois era sob o signo da luz que metaforizava as lutas e a esperança de sua geração em seus poemas.
Surge uma doença que irá marcar para sempre a vida, a obra e o pensamento de Quental, contribuindo para um pensamento pessimista. Pelas limitações físicas, o autor acaba ficando com o espírito abalado, o que conduziu seu pensamento a certo pessimismo.
No contexto de sua doença, Quental também encontra “saída” no budismo. A mística budista irá se transformar em Antero, sob o signo de uma aspiração ao nada, mas também como resultado de certa rejeição da realidade.
O cristianismo combatido desde o começo de sua formação intelectual se transforma em um panteísmo negativista, que estará presente em muitos dos seus poemas. Esse pessimismo, a partir de então, será companheiro de um isolamento cada vez maior do escritor.
É uma fase transcendental e metafísica, bem diferente do Antero da vida prática e combativa dos primeiros anos “solares” de sua escrita. A partir daí, já mais maduro, ainda se envolve em algumas lutas políticas, incentivado pelos antigos amigos de Coimbra. Forma, junto com Eça de Queirós, Ramalho Urtigão e Guerra Junqueiro, o grupo “Vencidos da Vida”, nome emblemático e que significava a reunião de políticos, intelectuais e profissionais que haviam se envolvido com as lutas políticas dos anos anteriores, sem obterem sucesso, é claro.
Os Vencidos da Vida.
O grupo se reuniu entre 1887 e 1894 para jantares na casa de seus membros e no lugar mais frequente, o Hotel Bragança. A característica do grupo era a de uma atuação puramente intelectual, com tonalidade de desencanto, ironia e autoironia em relação aos temas tratados. De certa forma, era a depuração transformada dos antigos ideais revolucionários para um diletantismo iluminado, em que se discorria sobre temas do contexto português e mundial a partir de bases da filosofia, da política, da literatura e da sociedade como um todo.
Após essa fase, regressou aos Açores; sua compleição física sofreu outro agravamento, que se tornou progressivo, até que em 11 de setembro de 1891 cometeu suicídio, encerrando uma vida apaixonada, intensa, participativa e, sobretudo, fundamental para a história da literatura portuguesa.
Antero produziu ensaios filosóficos e literários, poemas, prosa e vasta correspondência epistolar. Antes de sua morte, escreveu Tendências Gerais da Filosofia da Segunda Metade do Século XIX, de forte teor hegeliano.
Foi um pensador com altas qualidades expositivas, com textos sérios e certo tom de austeridade moralizante. Sobretudo, foi um escritor que apostou no desenvolvimento racional das ideias, e nisso, apesar das idas e vindas entre a defesa das lutas efetivas na sociedade e a abstração metafísica, sempre produziu uma obra herdeira e farol do realismo, no tocante à aposta na razão como meio de conhecimento do mundo.
Algumas reuniões de sua obra poética foram realizadas, chegando-se a certo consenso na divisão, ainda que esquemática, de três fases, conforme Saraiva e Lopes (2000, p. 828):
Juvenília
Fundamentalmente Primaveras Românticas e Raios de Extinta Luz.
Odes Modernas
Quer na edição de 1865, quer na refundida em 1875.
Sonetos
Considerados à parte.
Juvenília
Na juvenília, há temas amorosos, que foram se apagando em obras posteriores. São temas amorosos e eróticos, com influências esparsas do romântico Almeida Garrett, mas que não são tratados com sentimentalismo à moda romântica, pois possuem tom pensante, meditativo, próximo aos apelos de uma razão filosófica.
Nessa fase, podemos encontrar poemas de teor panteísta, cosmogônicos, ácidos à moda do poeta francês Charles Baudelaire e com certo tom niilista. Há também excertos blasfemos em relação à Bíblia e muitos atritos em relação à fé cristã tradicional, como podemos ver no poema Sarcasmos, publicado inicialmente em seu livro Raios de Extinta Luz:
VI
SARCASMOS
Está deserta a estrada do Infinito,
É apenas o céu do nada espelho,
A eternidade é fóssil: Deus é velho,
E o homem olha o céu de fito em fito!
A cruz de Cristo está feita um palito,
Embrulham-se caminhos no Evangelho;
Cada qual dá a Deus o seu conselho:
Nem já é Verbo o verbo… é só um Dito!
Nada disto me dá a mim cansado;
Mas morrer Satanás também de frio…
Mas não haver já mal que se combata…
Não poder já ao demo um condenado
Render a alma imortal… por desfastio…
É isto o que me dói, o que me mata!…
Maio, 1863.
QUENTAL, Antero de. Poesia Completa: 1842-1891. Lisboa:
Publicações Dom Quixote, 2001. p. 562.
Comentário
Como podemos notar, a descrença se avizinha, mas o polo não se inverte. O pensamento ruma para desalojar a mística religiosa de uma versão tradicional, mas ainda não estão formadas as bases de um pensamento mais completo e sistematizado, que viria a se desenvolver nos anos seguintes.
Odes Modernas
Em Odes Modernas, há um pendor revolucionário, influenciado pelas leituras de Proudhon, mas também uma forte visão de que o mundo é conduzido pela ideia. As coisas, em verdade, seriam frutos e só poderiam ser materializadas ante a consolidação da ideia, e nisso há muita influência de Hegel.
Há uma epopeia do cosmos e da humanidade, bem como um ambiente dramático propício à declamação, por meio de um tom ainda doutrinário, o que era herança dos românticos.
Nas Odes Modernas, todos os símbolos da cultura tradicional parecem desabar, pois são rasgados pela polêmica, pelo questionamento e pelo rebaixamento.
Ao longo da leitura do livro, há uma exposição poética de certo caminho evolutivo da história. Assim, as aspirações metafísicas presentes não deixam de encaminhar as “reflexões” poéticas para a verdadeira necessidade da literatura, que é a transformação social, segundo o autor.
No livro, encontramos a seguinte inscrição em prosa: “A Poesia moderna é a voz da Revolução – porque Revolução é o nome que o sacerdote da história, o tempo, deixou cair sobre a fronte fatídica do nosso século” (QUENTAL, 1865, p. 151, grifo no original).
Também é interessante notar como há reflexões metalinguísticas sobre o próprio papel da poesia e da literatura, assim como sobre o papel que deveriam assumir os escritores. É um livro de travessia, que coroa o pensamento dos anos de formação vividos em Coimbra, e que lida com um mundo antigo de formas e temas que tenta reformar.
O título Odes Modernas já remete a esta travessia, pois “Odes” remete à cultura clássica e “Modernas” faz o contraponto, deixando claro aquilo que deve ser retomado e aquilo que deve ser superado ou transformado.
Vejamos um trecho do poema À História:
[...]
Os tiranos sem conto – velhos cultos,
Espectros que nos gelam com o abraço...
E mais renascem quanto mais sepultos...
E mais ardentes no maior cansaço...
Visões de antigos sonhos, cujos vultos
Nos oprimem ainda o peito lasso...
Da terra e céu bandidos orgulhosos,
Os Reis sem fé e os Deuses enganosos!
O mal só deles vem – não vem do Homem.
Vem dos tristes enganos, e não vem
Da alma que eles invadem e consomem,
Espedaçando-a pelo mundo além!
Mas que os desfaça o raio, mas que os tomem
As auroras, um dia, e logo o Bem,
Que encobria essa sombra movediça,
Surgirá, como um astro de Justiça!
[...]
QUENTAL, Antero de. Odes Modernas. Coimbra: Imprensa da
Universidade, 1865, p. 22.
Comentário
Há uma mistura entre uma visão mítica, mística, histórica, filosófica e poética. As bases políticas de sua poesia estavam lançadas, mas ainda não maturadas em uma exposição explícita. As lutas sociais, no poema, ainda são transfiguradas em metáforas amplas que retomam o jogo entre o bem e o mal, céu e inferno, mundo real e metafísico.
Assim, nos poemas de Odes Modernas, vemos o jogo de ideias colocar em luta forças antagônicas que ensejam transformações.
Os Sonetos
Já em Sonetos, temos um poeta mais maduro, sendo possível notar a força plena da poética de Antero. O livro é uma reunião de sonetos publicados em épocas diferentes, com poemas recolhidos de suas diversas publicações.
Em todo o livro, panorâmico em relação à obra de Antero, podemos destacar alguns pontos principais:
Exercício pleno da forma soneto, aprendizado que Antero deve à proximidade com o escritor João de Deus.
Uso de elementos classicizantes, com proximidade, inclusive, da poética de Camões.
Construção rítmica elaborada, embora ainda se verifiquem a repetição demasiada de formas desgastadas para o uso de metáforas.
Proximidade entre poesia e filosofia, por meio de construções poéticas pensantes e que apelam para o raciocínio do leitor.
A relação entre poesia e filosofia é aquilo que o poeta e crítico literário norte-americano Ezra Pound chama de logopeia, no famoso livro de Teoria Literária Abc da Literatura.
Saiba mais
Pound classifica a poesia em três tipos:
- Melopeia: A dimensão da melodia presente nas poéticas.
- Fanopeia: Apela ao uso de imagens.
- Logopeia: Mobiliza a melopeia e a fanopeia em um encadeamento pensante que perfaz o conjunto estético.
Vamos a um poema de Sonetos para identificarmos o que acabamos de explicar:
A UM POETA
Surge et ambula
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
QUENTAL, Antero de. Sonetos. 7. ed.
Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1984, p. 52.
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Antes de comentarmos o poema, você precisa saber que a epígrafe latina Surge et ambula significa “levanta e anda”, uma referência à narrativa bíblica em que Jesus ordena a um deficiente que ele se levante e ande.
Nesse famoso soneto, temos uma síntese das aspirações de Antero. Além do tema, que é um convite ao engajamento social, notamos também que o poema se dirige a outros poetas.
Nesse soneto, unem-se o escritor literário e o polemista político social, duas de suas grandes paixões e dois dos âmbitos mais comuns de sua atuação como escritor.
No poema, temos os sinais das concepções políticas do poeta. Os antigos, “atrasados”, são vistos como aqueles que dormem e estão nos altares. As palavras escolhidas para significar o atraso são: secular, altar, tumulares. O cromatismo escolhido para esse âmbito é o escuro: sombras, túmulos. Em contraposição, a atividade revolucionária do poeta é revestida de outros campos semânticos: acorda, luta, sol, pleno, mares, raiz de luz, espada. É explícito o choque entre esses dois universos, que vai da sombra e do repouso à luta e à claridade.
Esse jogo de claro e escuro, pessimismo versus combate, poderia ser entendido como uma metáfora de vida e obra de Antero de Quental. Figura de forma póstuma em vida, pois nasceu antes de seu tempo. Foi um visionário. Sua luta pela implantação de uma sociedade socialista viria a frutificar somente no século seguinte, com a revolução bolchevique na Rússia.
Comentário
O desânimo com a situação política em Portugal, ainda administrada pela monarquia, só viria a se transformar em 1910, com a revolução implementada pelo Partido Republicano Português. Viveu, portanto, ideais elevados sob uma condição limitante, lutou bravamente pelas transformações sociais antes delas acontecerem, o que lhe causou muitas frustrações e desesperos. No entanto, o legado do poeta é extremamente rico, pois Antero figura como um dos maiores nomes da literatura e do pensamento em Portugal, tendo influenciado, pelo modelo de vida e por seus avanços literários, gerações de poetas que viriam após a sua morte.
No vídeo a seguir, você verá mais sobre a relação entre a vida e a obra de Antero de Quental.
A obra de Cesário Verde (1855-1886) acentua definitivamente os avanços construídos pela geração realista, pois a ruptura encontra, em sua escrita, farto caminho para anunciar uma nova poesia.
Cesário verde é o único poeta realista que realmente rompeu com o romantismo, pois sua obra tem “vínculo tênue com as modas do tempo e, simultaneamente, prenúncio de novas atitudes estéticas” (MOISÉS, 1984, p.180).
Cesário Verde.
Em relação ao diálogo com as estéticas de seu tempo e as que viriam no porvir, vemos que, muitas vezes, seus versos se associam à morbidez característica do naturalismo, apresentam aspectos do impressionismo e alguns elementos de sombras do surrealismo. Desse modo, sua poesia apresenta diversidade de formas e tonalidades, o que permite incluí-lo também entre parnasianos, simbolistas e os que antecedem o modernismo (BOTELHO, 2010).
Ao contrário dos românticos e dos primeiros momentos das obras de outros poetas realistas, Cesário possui uma poesia bastante objetiva.
Do ponto de vista estilístico, há uma grande utilização de imagens, que incidem sobre a descrição dos pormenores mais sutis da realidade, para os detalhes que surgem poetizados a partir de um olhar desvelador. Também há intersecções entre o mundo real e o intelectual/moral, criando um misto de sensações que simulam ou metaforizam a “selva urbana”, que aparece de forma sinestésica e recheada de adjetivos, advérbios e variações inteligentes de figuras de linguagem, como a hipálage, as metáforas e as comparações.
Embora ainda utilizasse formas fixas consagradas e com regularidade métrica, particularmente sob o uso de versos decassílabos e alexandrinos, seus temas foram bastante contundentes e inovadores, destacando-se a fina “análise” da sociedade lisboense de seu tempo.
O poeta não recebeu reconhecimento em vida, provavelmente pelos seguintes motivos:
Seu falecimento ainda jovem, aos 31 anos, vítima da tuberculose.
A não publicação de sua obra completa ainda em vida.
O grau de novidade de sua poesia.
A publicação de forma esparsa de seus textos em periódicos e revistas.
Em 1901, seu amigo Silva Pinto realiza uma reunião de seus poemas sob o título “Livro de Cesário Verde”.
Sua curta vida foi dividida entre as atividades comerciais em Lisboa e algumas viagens para Londres e Paris, o que o fez introjetar a sensação viva da “cidade moderna”, tão abordada por Baudelaire.
Aliás, entre os poetas portugueses do realismo, poderíamos dizer que Cesário foi aquele que mais se aproximou da poética baudelairiana em relação aos seguintes aspectos:
Expressões da decadência burguesa.
Tonalidade ácida e sarcástica.
Fina ironia com que descrevia as vilanias e imagens burguesas.
A obra de Cesário representa a “expressão poética superior da pequena-burguesia lisboeta irreligiosa e republicana do tempo” (SARAIVA; LOPES, 2000, p. 925). A diferença em relação ao espírito pequeno-burguês mais sério, entretanto, pode ser aferida pelo extenso uso de autoironias e autorridicularizações que terminam com desfecho burlesco ou cômico.
Cesário Verde: O poeta do cotidiano
Cesário realiza uma poesia do cotidiano, do assunto simples, trivial, banal, já que os mínimos detalhes da vida podem se transformar em poesia. Nisso, antecipa o modernismo, pois trata dos temas prosaicos com o uso de uma linguagem coloquial e com elementos da oralidade.
Assim como o modernismo realiza um “rebaixamento” das formas e dos temas clássicos, a poesia de Cesário fala de lâmpadas, pregos, quartos escuros, sirenes de fábrica, barulho de portões, em vez de montanhas, sóis, amplidões ou deuses inalcançáveis.
É o poema do homem comum, que se vê espelhado no retrato da lida diária, como no trabalho ou no amor. Parece mesmo antecipar os impressionistas, que retratam a realidade pela perspectiva das percepções sensoriais. Esse recurso poético viabiliza a sensação geral que temos na leitura dos poemas, que é a de mistura de sensações, imagens, sentimentos e pensamentos, típicos de um caminhante urbano, o flâneur, tão presente na obra de Baudelaire.
É como se seu poema fosse um passeio pela cidade e sues infinitos meandros. É uma construção muito próxima dos poemas de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que também narra em seus poemas o intenso movimento e rebuliço da cidade moderna, com fábricas, barulhos, imagens, operários, tabuletas, comércio, barracos e demais situações citadinas.
Menina com cesto no ombro, Teresa de Saldanha, Séc 19. Representação da mulher do campo, desgraçada, trabalhadora e inocente.
Saiba mais
A obra de Cesário também já foi lida na comparação com o surrealismo, que viria mais tarde. Como sabemos, o surrealismo é uma estética que se orienta pelo inconsciente, pelo sonho, pelo devaneio e pelas conexões insuspeitas que esses universos produzem. Na obra de Cesário, a mistura de imagens e sensações também dão certa noção de caos em mosaico, em uma organização móvel de coisas que vão passando e se diluindo.
Massaud Moisés (1984) argumenta que a poética de Cesário funde o subjetivo e o objetivo, pois o que é descrito acontece nos sentimentos. Portanto, o mundo não aparece como uma projeção de sentimentos internos, tampouco estes estão ausentes nas descrições. O que é descrito externamente passa pelo crivo da subjetividade para acontecer como poema.
Do ponto de vista do ambiente e da paisagem descrita, a obra de Cesário possui duas grandes dimensões: a rural e a urbana.
A dimensão urbana da poesia de Cesário Verde
Na paisagem da cidade, destaca-se entre seus temas a simpatia pela vida dos operários, tendo como mote a ideia darwiniana de que os fracos é que perecem.
Cinco artistas em Cintra.
Cesário denuncia a hipocrisia da vida burguesa e as condições urbanas precárias criadas pela burguesia industrial:
- ruas esburacadas;
- edifícios rotos;
- muros sujos, onde vivem os trabalhadores das fábricas;
- as floristas tristes;
- os padeiros suados;
- as “burguesinhas” e seus pianos de cauda;
- os engomadinhos;
- a mesquinharia dos patrões.
Atenção
Algumas imagens da mulher da cidade são próximas da mulher calculista, frívola, destrutiva, porém, em alguns poemas, aparece frágil e ingênua.
Cesário consegue captar o movimento da ida de trabalhadores do campo para a cidade, característica dos tempos de urbanização em Portugal. Assim, trabalhadoras, moradoras das periferias ou dos muquifos, aparecem desgastadas e amortecidas pelo intenso trabalho na cidade.
Poemas como Num Bairro Moderno, ou ainda o mais simbólico, O Sentimento dum Ocidental, retratam tal condição.
No primeiro trecho de O Sentimento dum Ocidental, temos claramente o clímax da poética cesariana:
Avé-Maria
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
VERDE, Cesário. Obra Completa de Cesário Verde.
Lisboa: Portugália, 1964, p. 103-104.
A dimensão rural da poesia de Cesário Verde
Embora tenha ficado conhecido como um Baudelaire português, pelos poemas sobre a cidade, é no campo que o poeta se realiza integralmente como pessoa.
As imagens do campo são mais positivas, mas não idílicas ou à moda árcade, mas sim objetivadas em uma vida saudável, feliz, plena.
Verificamos isso em um trecho do poema De verão:
III
Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
E tu dizias: "Fumas? E as fagulhas?
Apaga-o teu cachimbo junto às eiras;
Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
Quanto me alegra a calma das debulhas!"
IV
E perguntavas sobre os últimos inventos Agrícolas.
Que aldeias tão lavadas!
Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
Como nos fazem grandes barretadas!
VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde. 10. ed. Salt Lake City-UT: Project
Gutenberg,
2005, p. 27.
Tanto no poema O Sentimento dum Ocidental quanto no poema De verão, campo e cidade aparecem em seus detalhes.
A paisagem é composta de forma panorâmica e multifacetada, gerando certa ambiguidade: é o panorama construído por associações de detalhes, ora em mosaico, ora encadeado por campos de sentido unos. Na cena, temos carros, via férrea, edificações, vigas, cais, botes, peixes podres, couraçados, hotéis, talheres, de onde emanam vidas em gaiolas monótonas, sob o sofrimento do tédio e da pobreza.
As descrições objetivas coroam o ápice da vertente realista e consolida aquilo que até os mais ferrenhos escritores realistas preconizaram, mas não o fizeram.
Embebido das nascentes vanguardas artísticas europeias, tanto nas imagens quanto na forma de pensá-las, temos na poética de Cesário uma antecipação do modernismo.
No contexto português, a figura de Guerra Junqueiro (1850-1923) foi umas das mais aclamadas e, ao mesmo tempo, detratadas de seu tempo.
Sua poesia alcançou grande conhecimento público. Era lido pelas famílias e nas escolas. Suas publicações tinham impacto significativo nos comentários jornalísticos. Era um tempo em que as vozes dos poetas tinham grande impacto na opinião pública, pois a figura pública dos escritores possuía certa autoridade advinda da consideração de que, mais do que literatos, os escritores são pensadores de temas amplos de seu tempo.
Foi poeta, burocrata, deputado e diplomata. Assumiu cargos no período monárquico e, após a queda da monarquia, em 1910, também assumiu cargos na República recém-instaurada em Portugal.
Sua obra começa ainda com influências românticas, mas em sua ligação com o grupo da Geração de 70, impactado com a Questão Coimbrã, acabou assumindo feições literárias bastante contundentes, utilizando sátiras, ironias e humor para atacar, com ênfase, dois pilares culturais de Portugal: a Igreja e a monarquia.
Seguindo a vertente realista, mirou também a cultura burguesa, a hipocrisia dos valores familiares, denunciando as mazelas e a pobreza dos operários.
Guerra Junqueiro.
Guerra Junqueiro foi um grande crítico da monarquia e uma importante voz pública em favor da ascensão do republicanismo. Suas obras alcançaram o louvor nacional, assim como o escritor e estadista Victor Hugo, na França. Por isso, foi batizado de o “Victor Hugo português”.
Em seus poemas, é comum o tom de grandiloquência, típica da retórica dos oradores públicos, elemento com forte influência de Victor Hugo. Mas a altivez da oratória também se mistura ao prosaísmo, principalmente em uma fase mais madura em que o poeta se recolhe ao Douro para viver uma vida campesina de simplicidade.
Saiba mais
Ao contrário de outros realistas, principalmente se consideramos a obra de Eça de Queirós, o teor de sua obra não traz grandes análises sociológicas ou finas descrições psicológicas, mas suas metáforas se encaminham para o uso de elementos simbólicos e imagéticos. É que o pensamento, inscrito nos versos, logo se transforma em imagens e figuras, tornando as “reflexões” de certa forma mais obscuras ou imprecisas, fato já observado por grande parte da crítica literária.
Lendo sua obra de forma panorâmica, podemos notar que há um princípio mais rebelde, uma maturação mais calma e prosaica, uma guinada política para a descrição de uma pátria livre da monarquia, bem como uma dimensão mais mística e panteísta. Há, portanto, a mistura do espírito revolucionário de poeta e pensador, com uma tonalidade moralizante e panfletária.
A crítica também sublinhou o uso recorrente e excessivo de algumas metáforas e alegorias, como o mar, a ideia ou a contraposição entre a cultura religiosa e a natureza. Influenciado pelo poeta francês Baudelaire, de As Flores do Mal e de O Spleen de Paris: Pequenos poemas em prosa, Guerra Junqueiro abordou de maneira muito crítica a vida hipócrita da cidade burguesa, acentuando a sordidez e a ignomínia humana.
Atenção
Nesse ponto, é bom ressaltar: Baudelaire, assim como Arthur Rimbaud, foram os grandes influenciadores de produções poéticas que possuíam forte tom ácido e iconoclasta.
A Morte de D. João
Em 1874, Guerra Junqueiro publica uma obra de grande impacto, que lhe rendeu muitos elogios e críticas: A Morte de D. João.
Retrato de João V de Portugal, Pompeo Batoni (1689 -1750).
No livro, há um tom oratório de panfleto que se dirige à crítica do dom-joanismo (referência ao reinado de D. João V, o Magnânimo, no qual houve centralização do poder político).
Nessa obra, assim como em Os Simples, Guerra responsabiliza o dom-joanismo e a dinastia de Bragança pela miséria econômica e cultural de Portugal. Inicia-se com esse livro uma particularidade de sua obra: o humor, a sátira e a ironia como veículos para a crítica política.
Saiba mais
Em 1879, Guerra Junqueiro publica A Musa em Férias, com tonalidade mais calma e menos combativa, talvez pela visão internalizada que surge em função de ter se tornado um burocrata do governo.
A Velhice do Padre Eterno
Em 1985, publica A Velhice do Padre Eterno, com uma extraordinária e avassaladora recepção. Uma vez posto à venda, “todos os jornais de Portugal fizeram extratos do livro, e em poucos dias quase toda a obra andava em retalhos pela imprensa” (PEREIRA, 2020, p. 215).
A obra, no fundo, é uma crítica à cultura religiosa que estava já enraizada em Portugal há séculos. Poderíamos corresponder essa obra ao romance O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.
O próprio Guerra Junqueiro (apud PEREIRA, 2020, p. 212) diz que sua obra é uma “coleção de 50 poesias, que são 50 balas, que partindo de diversos pontos, vão todas bater no mesmo alvo”.
Apesar da crítica anticlerical, nessa obra já podemos entrever um teor que se construiria aos poucos até os seus últimos livros: não há uma defesa do ateísmo, mas a crítica de uma degradação da imagem divina, que havia sido misturada com poderes políticos retrógrados, que se coadunavam com os valores da monarquia portuguesa.
Em suma, para Guerra Junqueiro, a ideia de Deus havia sido pervertida pela Igreja. Sobressai uma espiritualidade panteísta, influência das leituras de Michelet e Proudhon, muito em voga entre os realistas.
Vejamos um trecho:
Levá-lo para trás, para o passado escuro,
[...]
Atirar a justiça, a ideia, o pensamento
Às fogueiras da fé, ó bonzos, é impossível.
[...]
…podeis, segundo as ordenanças,
Meter pedras de sal na boca das crianças,
Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade,
Chamar à estupidez irmã da caridade
E jesuíta a Jesus e Cristo a Carlos sete;
Vós podeis [...]
Ir pedir emprestado um exército aos reis
E defender com ele o Papa, o Vaticano,
Do cerco que lhe faz o pensamento humano,
Pondo adiante dum dogma a boca dum canhão;
Podeis [...]
Roncar latim, zurrar sermões, brandir hissopes,
Que não conseguireis que a Liberdade vista
A batina pingada e rota dum sacrista,
Que o Direito se ordene, e que a Justiça queira
Ir a Roma tomar, contrita, o véu de freira!”
JUNQUEIRO, Guerra. A Velhice do
Padre Eterno. Salt Lake City-UT: Project Gutenberg, 2007, p. 35.
Outras obras
Guerra Junqueiro publica A Lágrima. Nessa época, continuava atuando como deputado no período monárquico. Em sintonia com os realistas, Guerra Junqueiro frequentou o grupo “Vencidos da vida”.
Em sua obra A Lágrima, encontramos diálogos com parábolas do Evangelho, principalmente o Sermão da Montanha. Nota-se uma preocupação em investigar os mistérios da existência humana, vista sob o prisma das divindades.
Rompe com os “Vencidos da Vida”, torna-se republicano. Publica Finis Patriae e Canção do Ódio, sátiras à dinastia de Bragança.
Finis Patriae é um ataque à monarquia e à aliança entre esta e a Igreja. Fica clara a luta pelo republicanismo, algo que Guerra conseguiu colocar como pauta de seu realismo mais contundente.
O escritor vai para a região do Douro, voltando-se para uma vida simples e pacificada. Substitui a religiosidade oficial (aliança da Igreja com a monarquia) por uma religiosidade piedosa para os humildes, talvez fruto de sua formação cristã e ao mesmo tempo de suas leituras do socialismo de Proudhon. Publica Os Simples, obra com influência simbolista e com elementos quase românticos.
O teor é de uma compaixão passiva, mística e devaneante, que aborda a miséria provocada pelos governos monárquicos. Percebemos em Os Simples uma volta à natureza e à simplicidade do pensamento, o que representava certa crítica ao cientificismo em voga no período. Assim, figuram crianças desamparadas, operários, “os pobrezinhos”, ou “a moleirinha”.
Guerra Junqueiro, publica Pátria, obra que foi considerada por Fernando Pessoa superior ao próprio livro Os Lusíadas, de Camões.
“A ideia da Pátria é a de que a decadência de Portugal procede da vileza da dinastia de Bragança e só quando um messias vier [...] o País se poderá renovar com esse messias; e procede ainda da desmoralização originada pelas conquistas ultramarinas. O resultado é a alegorização do País sob a máscara da loucura. Portugal é o Doido. Está decadente, é necessário denunciar esse declínio para apressar o advento da República. Por agora, as armas de que o Poeta dispõe são as palavras que traduzem a figuração desse pensamento”. (CEIA, 1996, p. 336)
Publica Oração ao Pão e Oração à Luz. Novamente, aborda temas bíblicos a partir de inversões místicas e panteístas, mas, desta vez, há o uso de visões “científicas” muito pessoais que se sobrepõem à mística religiosa preconizada pelas grandes instituições portuguesas.
Fernando Pessoa considerou que Guerra Junqueiro em Oração à Luz seria “o primeiro poeta da nova poesia portuguesa. Por quê? Porque para Pessoa, na nova poesia portuguesa todo o amor é além-amor, como toda a Natureza é além-Natureza” (PEREIRA, 2020, p. 231).
Sua carreira literária acabou sendo consolidada como umas das mais férteis e influenciadoras da literatura portuguesa no início do século XX, pois a relação entre sua obra e sua figura pública fazia bastante sentido, se considerarmos que o realismo foi uma literatura de combate e uma das formas práticas desse combate é justamente assumir cargos públicos.
Desse modo, sua atuação como burocrata e como membro do legislativo em várias situações acabou por coroar a sua atuação como poeta engajado nas modificações de Portugal, principalmente em favor do republicanismo e contra a Igreja e a monarquia de seu tempo.
No vídeo a seguir, você verá mais sobre as características e temáticas da obra de Cesário Verde e Guerra Junqueiro
Você estudou, ao longo deste conteúdo, a transição do romantismo para o movimento realista em Portugal, percebendo logo no início o choque de ideias e propostas, a partir da polêmica instalada no que ficou conhecido como Questão Coimbrã.
Conhecendo a Questão Coimbrã, você também conheceu alguns escritores, com suas características estilísticas, seus principais temas e suas obras, na poesia ou na prosa.
Assim, podemos identificar elementos do movimento realista em Antero de Quental, Cesário Verde e Guerra Junqueiro.
Agora, é se animar e ler algumas das obras literárias que apresentamos aqui. Boa leitura!
Agora, o professor Daniel Abrão encerra o tema apresentando uma síntese sobre o realismo em Portugal a partir da obra de Antero de Quental, Cesário Verde e Guerra Junqueiro.